Vasco Seabra
Entrevista TSF

Vasco Seabra sobre o carrossel de emoções no Funchal, Vitinha, Schmidt e Diogo Jota

Aos 38 anos, Vasco Seabra encontrou no Marítimo a estabilidade que procurava. Diz-se um treinador mais próximo dos jogadores, mais interessado nas relações pessoais. Revela na TSF quais os adversários que mais dores de cabeça lhe deram, o que pensa do antigo jogador Diogo Jota, mas também da novidade alemã, Roger Schmidt, na liga portuguesa.

A equipa do Marítimo respirou de alívio após o primeiro jogo sob orientação de Vasco Seabra. À 12.ª jornada, a equipa insular deixava os lugares de despromoção após vitória sobre o Paços de Ferreira. Semanas mais tarde, a boa série de resultados era interrompida com estrondo. Derrota por 7-1 na Luz, o momento chave da temporada, classifica Vasco Seabra. O momento de chamar os jogadores à terra, de refletir sobre o lugar a alcançar no final da corrida.

"Encontramos um ambiente em que sabíamos que as coisas não eram fáceis. Naquilo que foram as nossas conversas com a direção - e tivemos duas entrevistas para também mostrar aquilo que queríamos fazer -, o que procuramos foi dar um enquadramento, perceber como poderíamos mexer com a equipa e para onde teríamos de olhar", explica Vasco Seabra.

"Um dos propósitos foi enquanto equipa técnica não olhar para a tabela (...) Sabíamos que tínhamos de intervir muito mais numa coisa que, para nós, é essencial: a preocupação com as relações, com as pessoas. Perceber o que é o jogador, qual a sua essência. Perceber que o valor do jogador continua a ser o mesmo, mas que há uma alteração da perceção do jogador sobre o seu próprio valor". O Marítimo estava no penúltimo lugar, com apenas uma vitória. A direção do clube havia mudado há pouco tempo. Vasco Seabra era a opção após a chicotada psicológica.

No balneário, a intervenção do treinador tinha de ser bem medida. "Sentimos que a nossa ligação com eles foi realmente próxima. Sempre com exigência máxima, mas, fazendo com que eles percebessem que, emocionalmente, juntos, seriam capazes e muito mais", explica o técnico de 38 anos.

"Uma das conversas que tivemos com a administração teve que ver com essa estabilidade. Tivemos reunião duas vezes com a administração. Também eles nos mostraram o que pretendiam. Primeiro com o presidente do clube, depois a administração da SAD, com presidente e dois administradores", frisa Vasco Seabra que os novos dirigentes do Marítimo têm perceção que era necessária estabilidade também para a equipa técnica. "Foram treinadores, passaram muitos anos no treino e no jogo. Isso foi decisivo para que nós aceitássemos", sublinha.

Momento chave: goleada sofrida na Luz (7-1)

"É um momento decisivo para a equipa. Fizemos nesses primeiros três jogos sete pontos - ganhamos ao Paços, empatamos no Bessa, ganhamos ao Santa Clara - mas sentíamos que a perceção de valor da equipa tinha levado a que eles sentissem que eram capazes de bater qualquer equipa que aparecesse. Esse foi um momento de êxtase, de chegar e sentir 'nós ali vamos fazer o mesmo, pressionar o campo inteiro, dominar o jogo'", recorda Vasco Seabra.

O técnico tem orgulho no que a equipa realizou naquela tarde. "Fizemos o que só o Bayern de Munique tinha feito no estádio da Luz, quisemos mesmo pressionar o campo inteiro. Recordo-me de estar no banco e sentir a equipa a pressionar na linha de fundo do meio-campo do Benfica. Foi um jogo ingrato, o Benfica fez sete golos em oito ou nove remates", sublinha.

"Ao intervalo disse à equipa que tinha um orgulho enorme neles. Mas que era preciso crescer com isto. Na parte final sofremos mais golos. No pós-jogo disse aos jogadores que só há uma coisa que não controlamos, o resultado. Controlamos aquilo que tentamos fazer para chegar a esse resultado. O que fizemos nesse jogo foi tremendo, fantástico. Mas aquele é o momento para voltar a crescer, saber medir os momentos do jogo, perceber quando pressionar de forma vincada, condicionar o adversário", sustenta.

Apesar dos casos de Covid-19, Vasco Seabra lembra que a equipa só voltou a perder no Estádio do Dragão. "Esse foi um momento importante para a equipa. A resposta, logo depois desse foi fantástica", garante o treinador do Marítimo.

A nova temporada para o Marítimo

Para a nova temporada, Vasco Seabra admite alguns desejos para a formação do novo plantel. "Pedimos alguns jogadores", admite. "Fomos a única equipa sem entradas no mercado de janeiro", queríamos fazer o grupo sentir que nós acreditávamos neles. "Há jogadores que já saíram, Alipur já assinou pelo Gil Vicente, há também a possibilidade de Rafik Guitane sair, e por aí haverá entradas. Acreditamos que outros jogadores se valorizaram e que podem também sair".

"Não queremos trocar seis por meia dúzia. Mas queremos que o grupo sinta que haverá um aumento de competitividade, que queremos continuar a crescer como equipa. Os nossos jogadores têm de sentir que desconforto, que tem de lutar para ter um lugar na equipa". Também na formação do plantel Vasco Seabra quer construir um contexto emocional para os atletas.

Outra prioridade para a nova temporada está na relação com o público. "Havia sido um desafio na nossa entrada. Fazer o Caldeirão ferver. Procuramos que isso acontecesse. Todos os jogos houve um aumento do número de pessoas que estavam connosco, e mesmo fora de casa aumentou o número de adeptos com a equipa". Embora admita que a equipa perdeu demasiados pontos em casa, um ponto a corrigir em 2022/2023. "Acreditamos que na próxima época vamos ter uma euforia grande. Mas queremos fazer crescer um projeto no Marítimo de coesão, de crescimento".

Olhar para os adversários e protagonistas

Desafiado a explicar qual o adversário mais duro na liga 2021/2022, Vasco Seabra lembra o embate - e a preparação - do jogo contra o FC Porto de Sérgio Conceição. "Jogar contra o FC Porto foi desafiante. Foi um Porto que trouxe mais qualidade de jogo, mais irreverência, mais criatividade, mas também mais adversidade. Uma equipa altamente agressiva, pressionante, capaz de pedir na frente, forte na busca da profundidade. Mas também uma equipa que consegue dominar do ponto de vista territorial, com jogadores que do ponto de vista técnico são muito fortes".

Dos azuis e brancos, Vasco Seabra lembra a capacidade do adversário na gestão dos momentos do jogo. "Foi uma equipa que nos provou diferentes sensações, que nos colocou à prova na forma audaz como queríamos jogar". Assim, os dragões de Sérgio Conceição foram "justos campeões", indica Vasco Seabra.

"Não posso nunca deixar de valorizar o trabalho do Rúben [Amorim]. O trabalho dele catapultou o Sporting para uma nova dimensão. É uma equipa altamente desafiadora, muito estável, à qual é muito difícil marcar golos. Nós fizemos dois (risos) um deles foi anulado. Mas foi desafiador do ponto de vista ofensivo. A forma como queríamos superar a pressão do Sporting, como condicionam a nossa entrada no último terço deles, foi algo interessante para propor aos nossos jogadores", aponta o técnico do Marítimo.

"Acredito que o FC Porto e o Sporting mantendo a estabilidade são fortes candidatos. O Benfica pelo momento menos feliz que tem passado, vai querer trazer algo de novo. Isso também será algo bom para a nossa liga, algo diferente, que pode acrescentar valor". A diferença com nome próprio no treinador do Benfica, Roger Schmidt. "Acredito que o Braga tem qualidade para lutar muito pelo terceiro lugar".

Novos protagonistas. De Roger Schmidt a Vitinha

Apresentado o novo treinador do Benfica, para já o único estrangeiro na Liga, Vasco Seabra acredita que Roger Schmidt pode aportar novidade. "Acredito que do ponto de vista metodológico somos muito diferentes da metodologia alemã, como também somos diferentes da espanhola. É interessante podemos experimentar, formas diferentes de trabalhar trazem coisas diferentes. Nós também queremos ir para fora, ir para outros campeonatos. Vai trazer novidades do ponto de vista ofensivo, pela vertigem que demonstrou, querer chegar rápido à baliza. Mas isso também será dificultado pela capacidade do treinador português de analisar, bloquear, estrategicamente dar cabo do que os outros treinadores tentam do ponto de vista ofensivo".

"O Vitinha fez um campeonato estratosférico, é um jogador de uma dimensão muito alta. Fábio Vieira, João Mário - pela adaptação à lateral-direita -, Gonçalo Inácio também se estabilizou. O Pote, não tendo feito uma época tão forte, vai ser sempre muito cobiçado porque tem coisas muito boas", sublinha sobre os jogadores que mais impressionam em Portugal.

Mas há muito mais na liga para além dos grandes. "O André Franco fez uma época muito boa. Também os jogadores do Gil Vicente, como o Fujimoto ou o Samuel Lino (...), ou jogadores como Kiko Bondoso, jogadores que estão preparados para dar um passo em frente".

Tempo para ver a final da Liga dos Campeões e Diogo Jota

Como treinador do Paços de Ferreira, Vasco Seabra cruzou-se com um jovem avançado, Diogo Jota. "Acho que o Diogo Jota é o mesmo, mas muito mais apetrechado. É o mesmo do ponto de vista emocional, da competitividade, de nunca estar satisfeito. Olha para aquele tridente do Liverpool - Sadio Mané, Firmino e Salah -, diz que quer jogar e joga. Não tem medo de desafios. O mesmo na seleção. Se há seis ou sete anos atrás, quando o treinei, me dissessem que ele iria estar na final da Liga dos Campeões com o Liverpool, que seria titular na seleção, eu não iria acreditar. É um ganhador nato, na forma como treina, na forma como joga, na humildade", aponta Vasco Seabra.

Para a final entre Liverpool e Real Madrid, o técnico do Marítimo elogia os projetos, as propostas, mas também os protagonistas no banco. "Pessoalmente entusiasma-me mais o Liverpool. Gosto mais desse perfil. O Real Madrid tem excelentes executantes, mas também tem um treinador [Carlos Ancelotti] que deveria ser alvo de estudo pela forma como lidera, pelas relações que cria e no que depois dá ao grupo. A forma como cria compromisso de uma forma natural. Mas do outro lado o rock-and-roll de Klopp.

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