Um adepto do Sporting foi morto no Estádio Nacional
Desporto

Very-light mortal e ataques a academias. O futebol português manchado pela violência

A rivalidade entre adeptos de clubes de futebol é muitas vezes o ponto comum para os casos de violência no desporto em Portugal. Ainda assim, são os árbitros quem mais sofre com os impropérios de quem assiste ou de quem faz do futebol profissão, seja de forma física ou verbal.

Em todas as épocas desportivas são registados casos de violência, não só no futebol, com maior ou menor grau de hostilidade, nos estádios, nos pavilhões ou mesmo junto aos recintos desportivos.

Em agosto do ano passado, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, promulgou uma alteração à lei da segurança e combate à intolerância nos espetáculos desportivos. O objetivo é reforçar as obrigações dos responsáveis das competições e dos clubes na prevenção destes casos, aumentar os limites mínimos das coimas, bem como garantir a aplicação de penas e sanções acessórias.

O very-light que (não) mudou a história

Um dos casos mais relevantes de violência no desporto em Portugal é o da morte de um adepto no Estádio Nacional, em Oeiras, atingido por um very-light. A 18 de maio de 1996, na final da Taça de Portugal, entre o Benfica e o Sporting, um adepto encarnado lançou o very-light em direção à bancada leonina, ferindo mortalmente Rui Mendes.

O responsável pelo lançamento do engenho pirotécnico, Hugo Inácio, julgado por homicídio, foi condenado, em 1998, a quatro anos de prisão. Mas a pena de prisão foi insuficiente para serenar aquele adepto.

Em 2018, o mesmo homem foi novamente condenado a uma pena de três anos de prisão depois de ter sido apanhado com material pirotécnico quando se preparava para assistir a um jogo no Estádio da Luz. Hugo Inácio ficou proibido de entrar em recintos desportivos durante sete anos.

Dois anos mais tarde, novo episódio com Hugo Inácio. O adepto encarnado preparava-se para assistir ao Benfica-Desportivo de Chaves (ainda sob pena) quando foi identificado por um membro da segurança, que informou a Polícia de Segurança Pública (PSP). Acabou por ser detido.

A morte de Rui Mendes é o principal ponto no cadastro de Hugo Inácio e um dos piores momentos do futebol português. Ainda assim, são recorrentes os cânticos de claques com ligação ao Benfica a "celebrar" o episódio no Estádio Nacional.

Porém, as provocações das claques não são apenas entoadas pelos adeptos encarnados. Dentro de pavilhões ou estádios de futebol, é comum existirem coreografias a louvar acontecimentos negativos de clubes rivais.

Treinos interrompidos e academias invadidas

Em Alcochete, a 15 de maio de 2018, um grupo de adeptos relacionados com a claque mais antiga do Sporting, a Juventude Leonina, não deixou o treino "marcado para a tarde" começar. Cintos, estaladas, tochas. Um mar de violência contra os jogadores e equipa técnica levou dez atletas a apresentarem a rescisão unilateral de contrato com o clube de Alvalade.

Os desacatos começaram ainda no aeroporto da Madeira, após uma derrota do Sporting liderado por Jorge Jesus, frente ao Marítimo. O jogo afastou os leões da pré-eliminatória da Liga dos Campeões e, apesar dos ânimos exaltados na partida para Lisboa, nada fazia antever aquela que é apelidada como a "página mais negra da história do Sporting".

O julgamento do caso ainda decorre e os testemunhos dos jogadores descrevem a violência a que foram sujeitos. Bruno de Carvalho, ex-presidente do clube, Mustafá, líder da Juve Leo, e Bruno Jacinto, ex-oficial de ligação aos adeptos, estão acusados da autoria moral do ataque - no total, são 44 arguidos. Estão em causa uma centena de crimes, entre os quais terrorismo. O clube, hoje, ainda sofre as repercussões do ataque à Academia de Alcochete.

Meses antes, em janeiro de 2018, 30 adeptos invadiram o treino do Vitória de Guimarães. O motivo? Os seis jogos sem vencer e o nono lugar no campeonato.

O treino decorria à porta fechada, mas o grupo conseguiu entrar por uma porta lateral do recinto. Alguns jogadores vimaranenses acabaram mesmo por ser agredidos, numa clara tentativa de intimidação ao plantel.

De Florença a Lisboa: uma visita fatal

Um adepto italiano sofreu, igualmente, com a violência no desporto em Portugal. Marco Ficini pertencia à claque Settebello, a segunda maior da Fiorentina, e, pela boa relação com a Juventude Leonina, preparava-se para apoiar o Sporting no dérbi frente ao Benfica, em abril de 2017.

Contudo, na noite antes do jogo, conflitos entre elementos da Juventude Leonina e dos No Name Boys, que apoiam o Benfica, junto ao Estádio da Luz, acabaram no atropelamento mortal de Ficini. Os atacantes puseram-se em fuga e as autoridades encontraram o corpo do adepto abandonado.

De acordo com o Ministério Público (MP), que relatou os acontecimentos, um grupo de adeptos do Benfica dirigiu-se às imediações do Estádio José de Alvalade e lançou um artefacto pirotécnico de cor vermelha, o que incitou os adeptos leoninos a seguirem em direção à Luz.

O suspeito do atropelamento mortal acabou por se entregar às autoridades, num processo que seguiu para julgamento e que ainda está a decorrer.

O MP indica como principal arguido Luís Pina, que esteve em prisão preventiva de 29 de abril de 2018 a 2 de março de 2019. Foi libertado quando passaram dez meses da aplicação da medida de coação.

O julgamento do caso foi adiado duas vezes e prolongar-se-á nos primeiros meses de 2020. Luís Pina está indiciado pelo homicídio de Marco Ficini e por outros quatro homicídios na forma tentada, mas contam-se outros 21 arguidos no processo, entre elementos dos No Name Boys e da Juventude Leonina.

Duelo ibérico fora das quatro linhas

Em 2010, os confrontos fizeram-se entre elementos de países vizinhos: Portugal e Espanha. O Sporting recebeu o Atlético de Madrid, no Estádio de Alvalade, para os oitavos de final da Liga Europa, sendo que os adeptos dos dois clubes envolveram-se em desacatos na cidade de Lisboa.

Cem adeptos espanhóis provocaram elementos de uma claque leonina, o que desencadeou agressões e arremesso de pedras entre os grupos. Os desacatos ocorreram ao início da tarde (a partida estava marcada para as 18h00) e a PSP aconselhou, sem sucesso​​​​,​ os adeptos espanhóis a não se deslocarem ao estádio.

A polícia criou um cordão de segurança para assegurar a entrada dos adeptos do Atlético de Madrid no estádio, mas nem a intervenção das forças de segurança impediu o arremesso de pedras, tochas e garrafas.

Foram disparadas balas de borracha, por parte da PSP, que carregou ainda sobre os sportinguistas. Dois adeptos do Atlético de Madrid foram hospitalizados, mas a PSP assegurou que não houve qualquer detido.

Segurança de alto risco no Minho

Em 2015, perto do final do campeonato de futebol, novo caso de violência. Em Guimarães, após o final de um encontro da equipa local com o Benfica, um subcomissário da PSP desferiu "bastonadas" a um adepto encarnado.

O vídeo das agressões correu nas redes sociais e, mais tarde, o Tribunal de Instrução Criminal de Guimarães levou a julgamento o subcomissário da PSP. Este alegou que o adepto agredido o ameaçou e ofendeu.

Ainda assim, o Ministério Público entendeu que, nas agressões, o subcomissário utilizou "de forma excessiva" os meios que tinha à sua disposição.

O arguido foi, no ano passado, condenado a três anos e meio de prisão, com pena suspensa. O subcomissário foi julgado por seis crimes, entre os quais o de ofensa à integridade física qualificada.

O caso do Canelas

Dentro das quatro linhas, no panorama do futebol português, também se vivem momentos que vão além da lei. Em Gaia, o Canelas renasceu em 2010 e ficou conhecido pelos piores motivos.

Um jogo do campeonato distrital do Porto, em 2017, ficou marcado por violência, quando um jogador da formação gaiense agrediu o árbitro da partida. Em Rio Tinto, a equipa local recebia o Canelas 2010 e foram precisos apenas dois minutos para a confusão se instalar. Marco Rodrigues, ao ser admoestado com um cartão amarelo depois da disputa de um lance com um adversário, deu uma joelhada ao árbitro, deixando o juiz José Rodrigues com o nariz fraturado.

A equipa de arbitragem deu por terminada a partida e a agressão fez eco na imprensa de todo o mundo. Do Brasil, a Espanha ou Inglaterra, lamentava-se o sucedido e olhava-se com atenção para um pormenor: vários elementos da equipa pertencem, igualmente, aos Super Dragões, uma das claques do FC Porto.

Os árbitros da Associação de Futebol do Porto vetaram os jogos do Canelas e várias equipas do mesmo escalão mostraram indisponibilidade para entrar em campo frente à formação gaiense.

Três anos mais tarde, o Canelas disputa o Campeonato de Portugal (terceira divisão nacional) e na presente temporada a equipa nortenha alcançou os quartos de final da Taça de Portugal. Um momento histórico que, ao mesmo tempo, parecia elevar a equipa a um outro patamar, deixando de lado as questões disciplinares.

Menos de uma semana depois do jogo frente ao Académico de Viseu para a Taça de Portugal (os gaienses foram eliminados), novo caso a envolver os jogadores do Canelas. Numa partida frente ao Felgueiras, o jogador Vítor Fonseca desentendeu-se com um adversário e acabou por lhe dar um soco. O árbitro expulsou o atleta, mas este recusou-se a sair do campo, agarrando ainda o guarda-redes da própria equipa pelo pescoço.

Acabou por ser retirado das quatro linhas por elementos do Canelas que, mais tarde, lhe instauraram um processo disciplinar, lamentando o comportamento do jogador.

Futebol de formação rima com agressão

Os dados são da Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF) e revelam uma realidade temível: a maioria das agressões é contra árbitros nos escalões de formação e futebol amador.

De acordo com a APAF, a falta de policiamento nos jogos é a principal justificação das inúmeras agressões que ocorrem nos escalões inferiores. Luciano Gonçalves, presidente da APAF, revela à TSF que a associação aposta na sensibilização e formação para a redução dos casos de violência no desporto. Até porque, "punir sem sensibilizar, só contribui para adiar novos casos", garante.

A última agressão que se conhece foi em Braga, no campeonato distrital da 1ª Divisão Série B, no passado dia 5 de janeiro. O jogo opôs o GD Gerês ao Serzedelo S. Pedro, com um jogador da equipa da casa a agredir o árbitro com uma cabeçada.

A alteração à lei, que ocorreu no ano passado, serviu, principalmente, para que os responsáveis pelas competições fossem responsabilizados pelos atos violentos. No entender da APAF, a medida ajuda na redução das situações. Ainda assim, o facto de haver agressões "quer dizer que o caso ainda não está resolvido".

De acordo com Luciano Gonçalves, os episódios de violência contra árbitros acabam por dificultar o recrutamento de jovens para a profissão, que, confrontados com situações do género, perdem o interesse por ingressar na atividade.

Nesse sentido, e para que as crianças possam viver o futebol como o verdadeiro "desporto rei", a Federação Portuguesa de Futebol lançou em setembro passado a iniciativa "Deixa Jogar", com o intuito de "combater os episódios de mau comportamento nas bancadas e consciencializar os encarregados de educação e o público em geral para os efeitos nocivos dos mesmos", tal como "promover as boas práticas e os bons exemplos de fair play".

O Governo, em abril de 2019, lançou também uma campanha publicitária intitulada "Violência Zero", para sensibilizar os amantes do desporto para "a solidariedade, o fair play e a tolerância". A medida enquadrou-se num dos objetivos do Governo socialista de António Costa, tendo em vista chamar a atenção da população para os fenómenos violentos que continuam a ter lugar no desporto português.

Na passada segunda-feira, Pedro Proença, presidente da Liga, reuniu-se com o Executivo, depois de novos comportamentos de risco por parte de adeptos: vários jogos de futebol foram interrompidos pelo arremesso de tochas para os relvados. Ficou definida a realização de auditorias de segurança aos estádios, bem como medidas adicionais nos jogos de risco elevado, para que os adeptos não entrem nos recintos com objetos proibidos.

O compromisso, ainda de acordo com o Governo, tem como finalidade um "ambiente saudável e pacífico nos espetáculos desportivos".

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de