Administração da CGD entregou plano B de recapitalização há 7 meses

Administração da CGD acusou Governo de prejudicar o banco, com total ausência de orientações desde uma reunião com Centeno, em dezembro. Plano de recapitalização sem dinheiro público ficou na gaveta.

Foi no início de dezembro que a atual administração da CGD se reuniu com o ministro das Finanças, manifestando "preocupação" e dando conta "dos temas mais urgentes pendentes de uma decisão do acionista". E é desde essa reunião que a mesma equipa esperou respostas, sem ter tido uma palavra do Governo, diz a carta de demissão da administração liderada por José de Matos a que a TSF teve acesso.

O jornalista Hugo Neutel leu a carta com o Plano B da administração da CGD

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A carta de demissão tinha sido já noticiada pelo Público, no início deste mês. Mas os termos - muito duros - eram ainda desconhecidos. Como era desconhecida a informação, escrita por José de Matos a António Costa, de que por altura dessa reunião "estava em fase de conclusão o plano de capitalização - entretanto aprovado e submetido - elevando as medidas a adotar, caso o Estado não reunisse condições para capitalizar o banco". A carta explica que, "entre outros, foram considerados a conversão de CoCos em capital e uma lista de operações financeiras e patrimoniais que, no seu conjunto, de destinavam a assegurar que o banco se mantivesse nas condições regularias exigíveis". Esse plano B de capitalização da CGD, sem dinheiro público, foi preparado "por exigência do regulador".

Esse plano era explicado face à necessidade de preparar "com antecedência e ponderação" a questão da recapitalização, quando "as projeções apontavam para a incapacidade de reembolsar os CoCos em junho de 2017 e satisfazer as exigências regulatórias neste domínio, incluindo um buffer [almofada] adicional de capital para risco sistémico, então anunciado pelo Banco de Portugal para esse ano", lê-se na carta enviada em 21 junho ao primeiro-ministro.

A TSF, tenta desde ontem (segunda-feira) escutar a opinião dos partidos com representação parlamentar. Para já, só respondeu João Galamba, do Partido Socialistas, que vê nesta referência um simples lembrete, quanto às regras para estas situações.

A reação do deputado socialista João Galamba

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BCE não queria mudanças radicais na administração

Na mesma missiva, de três páginas, conta-se que na reunião de dezembro com Mário Centeno foi discutida também a nova administração, dando-se conta que "o BCE via com grande preocupação o fim em simultâneo do mandato de todos os membros do órgão de gestão e vinha reclamando, de forma insistente e continuada, um plano que evitasse a instabilidade durante a fase de transição". Ora, é neste ponto que assentam as razões da demissão da administração liderada por José de Matos, passados sete meses sobre aquela reunião nas Finanças.

"Sem que tenhamos recebido qualquer orientação, aguardamos a Assembleia Geral de 25 de Maio, a qual foi suspensa no ponto relativo à eleição dos novos órgãos sociais, sem agendamento de nova data para retomar os trabalhos e sem qualquer explicação aos membros deste Conselho de Administração sobre quanto tempo se esperava pudesse ainda durar a prorrogação dos mandatos que lhe era pedida.

Entretanto, dois administradores executivos cessaram funções, por justificadas razões profissionais e pessoais, reduzindo a Comissão Executiva a quatro dos seus sete elementos estatutários. A gestão da CGD vive numa situação precária. A importância e a natureza sensível do assunto levou-nos a avisar o sr primeiro-ministro e o sr governador do Banco de Portugal", escreve José de Matos.

Mas a crítica ao Governo não fica por aqui. "Nos últimos tempos, tem-se assistido a uma discussão sem precedentes nos media e no espaço político quanto às necessidades de capitalização da Caixa e à composição dos novos órgãos de gestão. As incertezas e o ruído agravam o já degradado quadro de dificuldades em que o atual órgão de gestão exerce funções. Importantes decisões estratégicas estão adiadas e, paralisado, o banco perde terreno e valor face à concorrência, dia após dia".

A despedida, com o respetivo pedido de demissão, é assim acompanhada por um lamento: "Reconhecemos ser cada vez mais difícil assegurar a condução da CGD e reparar os prejuizos causados pelo turbilhão de informação de incerteza. (...) Aguardamos em exercício de funções, na expectativa de que, em tempo útil, seja encontrado um desfecho favorável para esta situação crítica que aflige a CGD e muito penaliza o país".

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