Bitcoin: especulação, fraude, moda ou investimento?

Atingiu recordes de valorização e e até entrou na bolsa. A bitcoin é a primeira divisa verdadeiramente livre e global ou uma bolha especulativa? Banco de Portugal alerta para os perigos.

Só neste ano, a bitcoin valorizou 1700% e desde 2011, ano em que começou a dar que falar, já ganhou dezenas de milhares de pontos percentuais.

Mas o que a faz subir tanto?

A modernidade associada à ideia da moeda virtual ainda obedece aos velhinhos parâmetros da procura e oferta: os fatores que fazem disparar o preço da bitcoin são os mesmos que aumentam o preço de qualquer outra coisa. Há muita gente a querer comprar e pouca a querer vender.

O problema é que a ânsia de investir na bitcoin pode muito bem ser irracional e injustificada.

Valorizações de 25% por dia, acredita o economista João Duque, são um sinal "de alarme com todas as letras". Para o economista, "não há nada que possa justificar este tipo de valorização, e não havendo, estamos a falar de especulação".

O antigo presidente do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) entende que "a maior parte das pessoas que entram nisto será por ignorância ou especulação" e ilustra a ideia com um exemplo: "qualquer pessoa endividada pensa que isto é a solução da sua vida".

"Imaginem", continua, "que comprei uma casa e devo 100 mil euros. Se pedir emprestado mais 25 mil, em quatro dias pagaria a casa. Isto é tão bom que me leva a querer arriscar".

Quando surgem notícias vindas dos Estados Unidos que dão conta de um aumento dos pedidos de empréstimo para compra de bitcoin - por vezes dando a primeira habitação como garantia - Duque reage dizendo que isso "é a loucura", porque é preciso saber "se essa casa está bem avaliada", caso contrário "o que podemos assistir é a outra crise por causa dos bitcoins", porque "as pessoas pedem dinheiro emprestado, sobrevalorizaram-lhes a casa para lhes emprestarem mais dinheiro para comprarem mais bitcoins, e quando a bolha rebentar, nem a casa paga o empréstimo, e lá teremos mais um trambolhão na banca", que terá de "ser suportada por quem? Por aqueles que têm o dinheiro velho: os euros ou os dólares".

A bitcoin é auto-regulada: o sistema que a controla não é centralizado nem controlado por nenhuma autoridade, sendo, em vez disso, distribuído pelos milhares de computadores das pessoas que a usam, e que partilham uma espécie de balanço global, que impede qualquer máquina individual de agir à margem das regras do sistema.

O objetivo do coletivo anónimo que em 2009 lançou a bitcoin era criar um mundo de transações financeiras sem comissões bancárias, e neste mundo eletrónico em que é o conjunto de computadores que usam a bitcoin que faz informalmente o papel de regulador e fiscalizador, é muito difícil ligar cada transação ao respetivo comprador e vendedor no mundo real; por outro lado, todas as transações são registadas e estão acessíveis ao público, embora sem identificar quem as faz.

Essa característica atrai todo o tipo de negócios, incluindo, acredita João Duque muitos ilegais: "sabendo que esta moeda não permite saber quem são os detentores, dado que os reguladores estão fora do circuito, muita gente usará a moeda para lavar dinheiro sujo. Só esses serão uma fonte extraordinária de procura", alerta.

O economista acredita, ainda assim, que a bitcoin pode ter futuro, mas apenas no dia em que os reguladores entrem em jogo: "a moeda e a tecnologia vieram para ficar. Quando os reguladores e os bancos centrais entrarem no negocio, então sim", sublinha.

Banco de Portugal: "bitcoin não é uma moeda"

A bitcoin não é aceite na vasta maioria das operações nem do dia a dia nem financeiras, e os bancos centrais avisam ainda para outros perigos: uma vez que a moeda não é controlada, também não é garantida, o que significa que é possível que quem nela investe pode perder tudo de um dia para o outro.

Hélder Rosalino, administrador do Banco de Portugal, recusa até chamar moeda à bitcoin, explicando que "a bitcoin não é uma moeda, é uma convenção criada através de uma tecnologia com um conjunto de transações que não se encontram reguladas ou supervisionadas pelos bancos centrais, pelo Eurosistema, e também pelo Banco de Portugal".

A bitcoin não está protegida por nenhum mecanismo de garantia de depósitos, e as flutuações a que está sujeita mostram grande volatilidade. Hélder Rosalino garante que o Banco de Portugal está a olhar para o tema com "alguma preocupação, na medida em que se está a criar um ambiente em torno das moedas virtuais que pode levar a um acréscimo de risco", afirma, explicando que se trata de "um ativo sem regulação nem enquadramento legal" que leva a que "o risco corra todo por conta dos utilizadores".

Mas é preciso olhar para além do alarido. Rosalino sublinha que "o valor transacionado em moedas virtuais é muitíssimo baixo, quase insignificante", pelo que "seria exagerado" considerar que a utilização de moedas virtuais pode configurar um perigo "para a estabilidade financeira".

E quantas bitcoins se transacionam em Portugal ou na zona euro?

A resposta curta é: ninguém sabe. O administrador do Banco de Portugal explica que uma vez que estamos a falar de "plataformas que não se encontram supervisionadas", e por isso "não existe informação, nem em Portugal nem em qualquer outro país da área do euro, sobre o número de operações nem sobre o valor em causa em cada um dos países".

Como se ganham bitcoins?

De duas formas: a mais simples é comprá-las. A outra é através da chamada mineração: na prática, os mineiros são computadores colocados a trabalhar para o universo bitcoin que são recompensados com moedas pelo muito tempo e energia gasto a processar um algoritmo muito complexo - e a manter o tal registo partilhado, que tem um teto: quando se chegar a 21 milhões de moedas a geração de moedas termina. Esse limite, no entanto, apenas deverá ser atingido daqui a um século.

Qualquer pessoa pode ser um mineiro de bitcoins, mas a fraca capacidade dos computadores normais de ter em casa torna muito lenta a criação de moedas. Nos primeiros tempos de existência da bitcoin, o blockchain (o tal algoritmo que gere o ecossistema) permitia a criação de moedas a um ritmo muito superior ao atual, mas a geração de novas unidades é cada vez mais lenta e difícil.

O lado negro da bitcoin: custos energéticos

É por isso que essa tarefa é hoje desempenhada por supercomputadores, que gastam muita energia, e neste capítulo os números espantam: a eletricidade consumida a minar bitcoins já supera a gasta por países como Marrocos, Irlanda ou a Sérvia, e é cerca de dois terços da gasta por Portugal.

As estimativas apontam para que em 2019 a mineração de bitcoins gaste mais energia do que os Estados Unidos e no ano seguinte seja a maior fonte de gastos energéticos do mundo.

Bitcoin: a primeira de muitas

A bitcoin é a mais conhecida das moedas virtuais mas não é a única: já existe mais de um milhar de divisas.

Se ainda assim quiser ver na prática como tudo funciona, é ir a bitcoin.org e seguir as instruções. (Não confundir com bitcoin.com, um site comercial sobre o tema)

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