Fertagus prepara-se para mudar interior das carruagens

A presidente da Fertagus, Cristina Dourado, espera ter mais procura na Fertagus com o novo passe Metropolitano o que leva a empresa a pensar "ganhar espaço" no interior das carruagens. Mas, o acesso à Gare do Oriente continua a ser uma miragem.

A Fertagus transportou 21 milhões de passageiros no comboio da Ponte 25 de Abril no ano passado, um crescimento de quase 7%. O comboio, que faz o percurso entre Lisboa e Setúbal é a única concessão privada ferroviária em Portugal e já prometeu que vai fazer parte do modelo para o passe metropolitano a 40 euros, que entrega em vigor daqui a um mês.

A empresa, que pertence ao grupo Barraqueiro, de Humberto Pedrosa, funciona como uma parceria público-privada, elogiada pelo Tribunal de Contas - caso único - mas ao mesmo tempo o modelo de concessão é muito criticado pelos partidos da esquerda parlamentar, que pedem a integração do serviço dentro da CP.

A Fertagus é liderada por Cristina Dourado, que está na empresa desde o primeiro dia.

Estamos a dois quilómetros da estação da Fertagus de Sete Rios e sabemos que veio de comboio. Costuma utilizar com regularidade o serviço da Fertagus?

Sim, costumo utilizar com regularidade. Não é muito fácil vir de carro para Lisboa e, além disso, a probabilidade de encontrar filas quando voltamos é muito grande. Pode-se perder mais de uma hora na travessia da ponte. O comboio demora sete minutos entre o Pragal e Sete Rios. Vim do Fogueteiro e demorei 22 minutos. É um tempo imbatível! Os nossos clientes dão nota 4,8 (de 1 a 5) na rapidez.

E que outras reações costuma ter dos passageiros que frequentam a Fertagus?

Fizemos um inquérito no final do ano passado e as reações dos nossos clientes são muito positivas. Atribuíram-nos um grau de satisfação de 4,5, que é uma classificação muito alta. Na segurança do comboio, tal como na rapidez, deram-nos 4,8. A avaliação dos clientes à segurança, rapidez e frequência dos comboios estão acima dos 4,5 valores.

Como é que os passageiros estão a receber a informação da adesão da Fertagus ao passe metropolitano?

Os clientes estão satisfeitos com esta informação. Este passo vai permitir à generalidade das famílias - três quartos dos nossos clientes deslocam-se para a margem Norte e depois utilizam vários meios de transporte dentro de Lisboa - uma redução significativa do custo da viagem.

A Fertagus não recebe qualquer compensação do Estado desde 2010. Esse cenário vai manter-se com a adesão da empresa ao passe metropolitano?

Estamos a renegociar a concessão. O passe metropolitano é uma questão específica e que vai obrigar a Área Metropolitana de Lisboa (AML) a compensar todos os operadores pela introdução deste passe. Será este o mecanismo que irá funcionar em termos futuros e, portanto, haverá uma obrigação tarifária que terá de ser compensada. Mas não é uma compensação pela prestação do serviço público.

Quanto é que a Fertagus espera receber por essa compensação?

Ainda estamos a trabalhar sobre essa matéria e não temos dados definitivos sobre como vai ser feita a compensação dessa obrigações. Brevemente teremos respostas sobre esta matéria. Esta situação está a ser trabalhada com o Ministério das Finanças, o Ministério das Infraestruturas e a AML.

E como estão as negociações com a AML?

A AML irá decidir com o nosso concedente como será compensada nesta obrigação tarifária.

A Fertagus tem sentido pressão do Estado para aderir ao passe metropolitano?

É vontade do Estado, da AML e da Fertagus porque vai permitir a integração plena num sistema multimodal da AML. É vontade de todas as partes.

Um dos argumentos que têm sido apresentados com o passe metropolitano é a captação de mais passageiros. A Fertagus tem capacidade para captar mais gente com este passe?

É uma preocupação que nós temos com a criação deste passe e para a qual temos andado à procura de soluções. Para já, temos alguma capacidade disponível nos nossos comboios, considerando que entre 2008 e 2010 transportávamos mais 9% de passageiros do que aqueles que temos hoje. Atingimos o máximo de passageiros em 2011. Depois, tivemos uma quebra muito significativa durante a crise de 2011 e só voltámos a crescer - pouco - a partir de 2016. Recuperámos mais em 2017 e no ano passado. Mas ainda estamos longe dos valores de 2008. Na procura, estamos ao nível de 2006.

A atual frota é suficiente?

Pode ou não ser suficiente. Não temos dados que nos permitam perceber qual será o comportamento da procura com esta alteração tão grande. Não tenho memória de uma alteração tão grande a nível do sistema de transportes e que possa mudar tanto os hábitos das pessoas. Estamos a tentar encontrar soluções que passem por uma melhor distribuição das pessoas no interior dos comboios e maior apoio - e para isso já avançámos com o recrutamento de pessoal - no acesso ao comboio. O nosso problema é à hora da ponta.

Isso significa que o interior das carruagens vai mudar?

Estamos a estudar essa possibilidade. É uma matéria que tem de ser estudada diretamente com o fornecedor dos comboios (Alstom). Há duas situações possíveis: melhorar layout interno dos comboios - sendo de dois pisos, as pessoas tendem a concentrar-se muito nos átrios - e permitir o uso de capacidade por ocupar; também estamos a estudar com o fornecedor existir uma quinta carruagem nas nossas unidades quádruplas elétricas (UQE) - comboios com quatro carruagens. À hora de ponta, é possível juntar duas unidades e fazer comboios duplos. Mas pode haver a possibilidade de introduzir uma quinta carruagem, o que nos permitiria, à hora de ponta, fazer comboios com nove carruagens e, mesmo nas franjas, fazer com cinco pessoas. Estas soluções não se resolvem em dois ou três meses. Teremos que ir acompanhando o evoluir da situação, a pouco e pouco, e tentar apelar aos nossos clientes para que falam uma melhor distribuição dentro dos comboios. Como não temos atrasos, os nossos clientes estão habituados a chegar à estação em cima do comboio que querem ir e seguir. Não esperam pelo comboio seguinte ou apanham o anterior. A máxima ocupação que temos nos comboios à hora de ponta, em três comboios, tem uma taxa de ocupação de 85%. Antes de um comboio destes vem outro que pode ter só 50% de ocupação. Mas isso as pessoas não sabem.

Quem vai financiar a transformação dos comboios? É a dona do material circulante, tendo em conta que a Fertagus não é a dona dos comboios?

A detentora dos comboios é a Sagesecur, do universo da Parpública e à qual pagamos uma renda pela utilização dos comboios. Já lhes demos informação que estávamos a estudar esta situação. O nosso concedente - o IMT - tem indicação do que pretendem do estudo que estamos a fazer e as normas que temos de cumprir para podermos fazer alteração. O IMT disse que podemos estudar a alteração. Informámos o dono do material circulante e depois o IMT disse que a alteração só será aceite com os estudos de cumprimento das normas feitos.

Quem vai pagar esta transformação?

Veremos. Estamos a renegociar o contrato de concessão e essa é uma matéria que terá de ser discutida, se isso acontecer e tivermos possibilidade de fazer essa operação

Esta comissão de renegociação foi nomeada em março de 2018. Além dos passes, que outras matérias estão a ser discutidas neste grupo?

Estamos a discutir o detalhe das contas que dão origem ao reequilíbrio da concessão e os impactos que a introdução do passe poderá ter no modelo financeiro para o futuro. Estamos a trabalhar do ponto de visto técnico para incorporar todas as alterações que se preveem que possam vir a acontecer e que são substancialmente diferentes das que tínhamos há seis meses - em que não se falava do passe único - pelo que estamos a atualizar o modelo financeiro com essa medida. Ainda nos falta perceber como é introduzida a compensação pela obrigação tarfiária.

Quantas reuniões já tiveram?

Tivemos uma em maio e agora outra. De resto, trabalhamos a informação e tiramos dúvida.

Como têm evoluído as posições?

Não há posição de um lado e do outro. Há apenas esclarecimento da informação que vai sendo enviada.

Os objetivos do contrato de 2010 são para manter?

Estamos a trabalhar com os mesmos objetivos. Queremos que a concessão possa continuar sem custos adicionais para o estudo.

A meta para fechar a renegociação é setembro?

Penso que sim. Foi essa meta que nos foi transmitida nessa altura.

O que acontece se não houver um acordo?

Qualquer acordo tem de haver. Se isso não acontecer, de acordo com o atual contrato, ficaremos o tempo que o Estado entender que é necessário e suficiente para tomar qualquer decisão em relação ao futuro.

Estando no apoio parlamentar a este Governo partidos que apoiam a entrega da exploração desta concessão à CP sente pressão para que estes comboios deixem de estar na mão de um grupo privado?

Sinceramente, não sinto pressão, nem sequer por parte das câmaras da margem sul, com as quais temos uma relação cordial e uma cooperação grande. Perguntámos aos nossos clientes se queriam outro operador: 99% responderam que não, que querem continuar com a Fertagus. Nós conseguimos fazer os comboios todos. 95% dos comboios chegam ao destino com menos de três minutos de atraso. Os nossos comboios têm 20 anos e se vir como eles estão, depois de uma grande reparação, parecem novos. Todo o serviço desenvolvido por nós é em prol da qualidade do serviço aos nossos clientes. Os nossos clientes não esperam que a Fertagus seja substituída por nenhuma outra empresa.

Ainda assim, há algumas queixas. Uma delas é a falta de acesso direto à Gare do Oriente. O que vos impede de fazer isso?

O número de comboios. Temos 18 comboios e todos os dias pomos ao serviço 17 porque se isso não acontecer somos penalizados. Todos os comboios planeados foram realizados durante o ano passado. Temos um comboio parado para grande reparação. As grandes reparações são feitas no intervalo das horas de ponta. Não temos margem para ir mais longe com o material circulante que temos.

Essas grandes reparações começaram quando e terminam quando?

Irão terminar este ano. A última grande reparação é a de meia-vida e começou há dois anos.

Utilizam diariamente quase todos os comboios. Há hipótese de comprarem mais material circulante ou de eles passarem para a vossa esfera?

Não há mais comboios idênticos aos que temos no mercado. A CP tem 12 comboios iguais aos nossos. Comprar mais material circulante é sempre uma possibilidade mas que terá de ser o Estado a decidir se poderá haver essa opção. Estamos a trabalhar no aumento do número de automotoras para fazer face a esta situação. Para ir à Gare do Oriente, necessitaríamos de mais cinco comboios.

É matéria da renegociação do contrato a possibilidade de a Fertagus passar a deter esses comboios?

Sim, está em cima da mesa: mais material circulante, a posse de material circulante e um investimento para qual estamos disponíveis para o fazer, se for essa a decisão.

Qual é o montante necessário para o investimento?

Para cinco comboios, nunca serão menos do que oito milhões de euros por comboio. No total, pode variar entre 40 e 50 milhões de euros.

A Fertagus tem dinheiro disponível para esse investimento?

A Fertagus obviamente não mas isso tem de ser visto com o acionista.

Eventualmente algumas das carruagens da CP à espera de reparação poderiam ser reaproveitadas para a Fertagus?

Do ponto de vista técnico, diria que sim. Mas é uma questão à qual só a CP poderá responder.

Com a liberalização do mercado ferroviário, poderemos esperar a Fertagus a expandir as operações? Quais são os serviços mais interessantes?

O objeto da Fertagus faz apenas a ligação entre Setúbal e Roma-Areeiro, podendo prolongar até à Gare do Oriente. Qualquer outra exploração ferroviária implicaria a constituição de outra empresa para fazer esse tipo de operação de acordo com o âmbito do nosso contrato. O grupo Barraqueiro certamente estará disponível para investir no meio ferroviário, decorrente da liberalização. Tem neste momento capacidade técnica para ser um operador ferroviário de âmbito nacional.

O grupo Barraqueiro está interessado na associação com parceiros para o mercado ferroviário, sobretudo no longo curso?

Diria que sim. O sr. Humberto Pedrosa tem dado capacidade e vontade de investir no futuro dos transportes.

A terceira travessia do Tejo tem interesse para a Fertagus e o grupo Barraqueiro?

Tínhamos uma proposta para a terceira travessia do Tejo de reformulação do serviço ferroviário da Fertagus. Faríamos uma ligação circular que funcionaria pela nova ponte nos dois sentidos de forma a podermos aproveitar melhor o material circulante com terminais na margem sul que permitissem dar resposta à hora de ponta e fazer a ligação também à Gare do Oriente.

Qual seria o corredor?

Chelas-Barreiro. Poderíamos fazer uma via circular, com vantagens na deslocação das pessoas entre margens.

E o acesso ao aeroporto do Montijo deveria ter ferrovia?

Poderia mas não sei se vai ter porque aparentemente há um espaço-canal que poderia ser aproveitado mas não me parece que haja essa opção.

Essa travessia seria uma opção para a Fertagus?

Poderia ser.

Que opinião tem sobre o novo ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos? O que pode fazer de diferente face a Pedro Marques?

Ainda não tive oportunidade de falar com o novo ministro. Não tenho opinião formulada. sobre ele. Quando se anunciou a integração da Fertagus no passe metropolitano o ministro esteve desde a primeira hora nessa comunicação. Para mim, foi um sinal de que o ministério continua atento às preocupações da ferrovia. Ficámos muito sensibilizados por essa posição firme nessa matéria.

Pela primeira vez desde 1999, a Fertagus tem de lidar com dois ministérios, as infraestruturas (ferrovia) e o ambiente (transportes urbanos). É pacífico lidar com uma tutela dupla?

A nossa tutela é exercida pelo IMT e pelas Finanças. Cabe ao IMT a síntese destas questões. Não sinto que seja nenhum impedimento e que cause constrangimento. Com a AML temos lidado diretamente porque temos feito um trabalho técnico com eles para estudar a implementação do novo passe. Temos tido uma cooperação muito boa com a AML.

A CP tem enfrentado vários problemas com o material circulante e a manutenção. Com a gestão privada, estes problemas não existiriam? Seria possível melhorar o serviço com menos gastos para o Estado?

Não conheço em pormenor a situação da CP. Podemos dizer que na Fertagus asseguramos e controlamos a manutenção dos nossos comboios. Temos 18 operadores de manutenção diariamente e assumimos ainda as grandes intervenções. A nossa forma de organização da manutenção decorrente do número reduzido de comboios que temos permite-nos a manutenção corrente e pesada dos comboios, que se baseia numa grande flexibilidade em como as coisas são feitas e à rapidez com que interveem no intervalo dos períodos de ponta. As dificuldades de manutenção da CP acredito que tenham a ver com a sua dimensão. Fizemos as grandes reparações nos comboios, que correram bem. É um investimento que pagamos na renda.

Quanto custaram estas reparações?

Investimos 10 milhões de euros. Fizemos alterações significativas nos comboios: substituímos as janelas, estamos a tratar das caixas, fizemos as grandes reparações nos equipamentos de segurança, desenvolvemos dois equipamentos novos, em parceria com duas universidades, e que já não conseguíamos comprar no mercado.

Estão a decorrer desde o final do ano passado obras na Ponte 25 de Abril mas o grande impacto serão as intervenções no tabuleiro, que vão começar daqui a três meses. A operação da Fertagus pode sofrer algum impacto?

As obras na componente ferroviária começaram há dois meses. Os comboios da noite têm sido afetados em dois ou três minutos. Não há impactos na circulação. Pelo que temos falado com a IP - Infraestruturas de Portugal esta situação vai manter-se como está e não terá impacto nos nossos clientes.

Presumivelmente, as obras vão ter mais impacto na rodovia do que na ferrovia. Será uma oportunidades para a Fertagus captar mais passageiros?

Pode ser, esperamos que sim.

Vão fazer alguma campanha?

Não estávamos a pensar nisso mas pode ser uma ideia. A circulação dos comboios mantém os padrões de qualidade. A circulação rodoviária está muito complicada na hora de ponta de manhã mas à tarde tem sido terrível por causa dos acidentes. Estamos a ter mais clientes: crescemos em janeiro 8,5% face ao mesmo mês do ano passado, o que é muito. Também temos o crescimento de ocupação dos parques de estacionamento, que estão a atingir níveis que nos fazem lembrar 2010. Quando há um problema na ponte, os automobilistas saem da autoestrada e vão para o primeiro parque da Fertagus que está junto a uma estação.

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