Entrevista TSF Dinheiro Vivo

"5G não chegará em 2018"

Em entrevista à TSF e Dinheiro Vivo, Alexandre Fonseca, presidente executivo da Altice Portugal, estima ter cinco milhões de casas com fibra ótica até final do ano e lembra que ainda é cedo para implementar a tecnologia 5G.

Chegou a Portugal em 2012 e três anos depois já era dona da maior operadora de telecomunicações portuguesa, a Portugal Telecom. Hoje emprega direta e indiretamente cerca de 20 mil trabalhadores e é líder incontestada do mercado no setor das telecomunicações. A Altice está presente em 10 territórios e tudo somado são já 50 milhões de clientes em todo o mundo, que ajuda a uma faturação anual que ronda os 25 mil milhões de euros.

No espaço de um ano a empresa teve três presidentes executivos e viveu várias convulsões internas. O nosso convidado é o homem em quem os acionistas confiam para pôr a Altice de novo nos carris, Alexandre Fonseca.

Em 2015 a Altice anunciou a colocação de fibra ótica em 5,3 milhões de casas até 2020. Faltando dois anos para lá chegar, em que fase é que estamos?
Estamos, diria, à frente do que era o plano inicial. Em 2015, sendo uma das pedras basilares da estratégia do grupo a infraestruturação com redes de nova geração, anunciamos um plano que tinha como objetivo cobrir Portugal com fibra ótica, o que significa, grosso modo, 100 por cento da população. Temos cerca de 5,9 milhões de casas, 4 milhões delas são primeira habitação pelo que estamos a dizer que vamos ter com certeza Portugal no top 3 dos países europeus em termos de cobertura de fibra ótica sobre a população total.

Porque não os 5,9?
Se Portugal tem cerca de 4 milhões de casas como primeira habitação, significa que infelizmente o mercado imobiliário em Portugal tem um excedente de cerca de meio milhão de habitações. Os 5,3 milhões já nos permitem cobrir virtualmente 100 por cento da população portuguesa, de norte a sul do país. Em relação ao projeto estamos à frente porque este plano de investimento a cinco anos que tinha como objetivo os 5,3 milhões de casas tinha previsto concluir-se e 2020. Hoje, estamos já com 4,2 milhões de casas com fibra ótica, terminaremos o ano já bastante próximo dos 5 milhões de casas, o que significa que estamos à frente do nosso plano de investimento. Consideramos que esta é uma pedra basilar da estratégia de crescimento em Portugal e também do desenvolvimento económico e social do país.

Levar a fibra ótica até zonas do país mais interiores como a Serra da Estrela tem óbvias vantagens do ponto de vista da coesão territorial mas onde é que está o racional económico para a Altice?
Não nos podemos esquecer que um operador como a Altice Portugal, com a herança histórica que tem da PT, tem que considerar diversos parâmetros no seu plano de investimento, e um dele é de responsabilidade social. Já não somos operador incumbente, somos uma empresa privada, temos objetivos de rentabilidade mas no entanto sabemos que é muito importante para um país como Portugal desenvolver as economias locais e através delas contribuir para o desenvolvimento da economia nacional. De forma racional, mas com um pouco de emotividade, porque quando falamos de responsabilidade social e de sentido público, temos de ter essa noção de alguma emotividade no investimento que fazemos e decidimos que o investimento de infraestruturas do país incluiria não só os grandes centros urbanos com grande densidade populacional mas também as regiões de baixa densidade populacional do interior. Acreditamos que este é um investimento fundamental para dinamizar as economias locais, para apoiar a captação de investimento e assim criar emprego e gerar salários e com isso conseguimos também combater a desertificação do interior e as assimetrias regionais. Acreditamos que as populações mais jovens do interior devem ter a mesma igualdade de oportunidades que as crianças e os jovens do litoral e das grandes cidades. Este nosso investimento, que tem também um racional económico porque desenvolvendo a economia nacional o maior operador e investidores em Portugal contribuirá mas também receberá em retorno com esse mesmo investimento e com o crescimento económico. O racional está desde logo em podermos dotar Portugal de infraestruturas de ponta de norte a sul, incluindo o interior, e com isso dinamizar a economia nacional e a partir daí também podermos crescer na relevância que as tecnologias de informação têm na vida das pessoas.

Uma das apostas que a Altice tem feito nos últimos tempos tem a ver com os Altice Labs. Esta aposta neste tipo de investimento é para continuar, em que moldes e onde?
Deixe-me ir um pouco mais atrás porque é importante explicar o porquê desse racional. Temos nos nossos pilares estratégicos e nos nossos valores duas componentes fundamentais: além do investimento temos também a inovação, um dos vetores estratégicos da nossa atuação, e nos nossos valores temos a componente da proximidade. Já falamos um pouco quando falamos em levar fibra ótica a territórios de baixa densidade populacional e esta proximidade é para nós fundamental. Se juntarmos esta proximidade às pessoas ao tema da inovação temos aqui uma capacidade que não só é única pela sua presença nacional, e nesta perspetiva conseguimos aliar esta proximidade com a nossa capacidade e o capital intelectual que estava já, e é uma herança de que nos orgulhamos imenso, que estava subjacente ao projeto da PT Inovação e que nós transformamos na Altice Labs. Hoje temos, a partir de Aveiro mas já não só em Aveiro, o nosso quartel-general para o desenvolvimento de tudo o que tem que ver com tecnologia de telecomunicações e sistemas de informação para todo o mundo Altice, mas não só. Hoje, aquilo que é o laboratório da Altice Labs, a partir de Aveiro, exporta para cerca de 35 países em 4 continentes, desde a Índia, a Rússia, o Brasil e depois a geografia Altice: EUA, França, Israel, Rep. Dominicana. Tem sido um trabalho importante dos laboratórios e não deixa de ser, enquanto português, muito gratificante olharmos para o setor das tecnologias de informação e vermos que temos este alcance de tocar 250 milhões de pessoas com tecnologia que tem como ponto comum o ser made in Portugal. Hoje estes 700 engenheiros que trabalham a partir de Aveiro desenvolvem tecnologia na área do hardware, software e serviços na área tecnológica e esse é um projeto para nós de pleno sucesso. Sucesso não só pelo alcance mas também por por exemplo quando olhamos para países como os EUA onde anunciamos que vamos fazer a cobertura com fibra ótica do estados americanos onde estamos presentes com as operações Altice, não deixa de ser curioso que vemos que tudo, com a exceção do cabo de fibra ótica que é produzido por fábricas internacionais, tudo o que é feito a partir daí é feito, produzido, inventado e desenhado em Portugal e isso é único. Neste rollout de fibra ótica dos EUA FRança e Rep. Dominicana, temos engenheiros portugueses e a fazer o desenho de rede, temos armários de rua fabricados em Portugal, temos os OLT que são desenvolvidos em Portugal e até o equipamento em casa das pessoas, o router, é também made in Portugal. Este trabalho que a Altice Labs tem vindo a fazer é extraordinário e mostra que a engenharia portuguesa e o capital intelectual português é do melhor que há no mundo e é isso que nos leva a continuar a investir. Uma mensagem clara que gostaria de deixar é não só a satisfação com este projeto Labs mas acima de tudo a nossa profunda convicção e empenho que vamos continuar a investir e a desenvolver a Altice Labs. Hoje já não está só em Aveiro...quando falamos em descentralização não falamos de Lisboa e Porto, falamos de descentralizar de Aveiro, que é quase a capital de desenvolvimento das telecomunicações a nível nacional. Foi lá que nasceu o centro de estudos de telecomunicações, onde nasceu depois a UA, que deu origem à PT Inovação e mais tarde à Altice Labs, portanto a partir de Aveiro entendemos que teríamos capacidade e motivação e desejo de outras partes de levar este projeto a outros cantos do país. Começamos por Viseu, onde com um protocolo com a CMV descentralizamos os laboratórios e estamos a criar um laboratório colaborativo, seguiu-se a região autónoma da Madeira onde temos também já projetos icónicos... o caso do Porto Santo, que é já 100 por cento fibra, todas as casas da ilha estão cobertas com fibra ótica da Altice... já tínhamos feito este tipo de investimentos icónicos e decidimos também apoiar o projeto Brava Valley, que seguíamos de perto desde a génese e é lá na Ribeira Brava onde também temos fibra ótica em todo o concelho e é lá que vamos abrir o segundo laboratório colaborativo. O terceiro já foi anunciado, que será em Olhão, no Algarve e todos estes têm um ponto em comum muito interessante: não é apenas levar a marca a estas regiões mas acima de tudo levamos também o ecossistema, porque o grande segredo de transformarmos ideias em produtos e serviços relevantes para a vida das pessoas...

A ideia é continuar a abrir ou vão ficar pelo Algarve?
Será possível, ainda em 2018, ter mais laboratórios colaborativos furto deste investimento e deste ecossistema, que estarão entidades como CM, regiões autónomas mas também a Academia. Todos estes polos têm um ponto comum: têm sempre por trás uma instituição de ensino superior, onde podemos recrutar massa crítica e cérebros para este projeto. Mas sim, em 2018 com toda a certeza que teremos ainda mais pólos destes descentralizados porque o projeto é um sucesso dentro e fora de Portugal.

Deixe-me citar um concorrente, Miguel Almeida, CEO da NOS, que disse que sobre o 5g espera que "não seja uma forma de extorquir dinheiro aos operadores através de licenças valiosas". Concorda com este ponto de vista?
Não, sou muito mais prudente quando olho não só para o desenvolvimento tecnológico mas também para aquilo que é a importância que um setor que vale 5 mil milhões de euros para o Estado português e para o PIB nacional tem, portanto não acredito que seja esse o drive de desenvolvimento desta tecnologia. Não o foi em nenhum país da Europa e não o será em Portugal. Dito isto, termos de ser frios quando olhamos para o desenvolvimento do %G que é uma tecnologia que de ponto de vista tecnológico, hoje, não tem uma necessidade imediata de implementação. Cobre essencialmente dois grande paradigmas: a densidade de dispositivos ligados e a latência das comunicações. Quando falamos em densidade Portugal não está a crescer em número de pessoas nem em dispositivos porque Portugal tem mais de 140% de taxa de penetração de equipamentos móveis no total da população, portanto não é pela taxa de dispositivos ligados que precisamos do 5G, precisaremos quando existirem coisas, dispositivos, sensores que esses sim vão começar a proliferar e provocar massas gigantescas de equipamentos a ligarem-se numa área de um 1km2 que possamos ter centenas de milhares de dispositivos. É algo que está a acontecer mas que diria que ainda temos de olhar de forma tranquila. A segunda questão é a latência: hoje o aquilo que são as redes 4G, e no caso da Altice Portugal com o lançamento que fizemos no WebSummit no ano passado do 4G+, diria que estas suportam na totalidade as necessidades da largura de banda e latência das comunicações. Quando começarmos a ter a utilização da Internet of Things, das máquinas ligadas entre si, vamos ter áreas em que a latência é crítica. Dou um exemplo e não é ficção científica e já existe: eu poder estar em Lisboa a operar uma máquina que está a fazer uma cirurgia no Algarve, e aqui sim a latência é crítica porque se tivermos a falar de neurocirurgia um milionésimo de segundo pode ser crítico. E hoje trabalhamos com latências médias de 20/30 milissegundos nas redes 4G, quando a 5G vai permitir uma latência de 1 milissegundo. Acredito que a tecnologia 5G terá o seu espaço, acho que ainda é cedo muito honestamente para pensarmos numa exploração comercial do 5 G e acredito que surgirá quando conseguirmos amortizar os investimentos que estão a ser feitos na massificação do 4G, onde hoje temos praticamente 98% da população coberta com a Altice Portugal.

E já teve o retorno do 4G? Porque Miguel Almeida dizia que estando ainda por obter o retorno do 4G seria difícil falar já em atribuição de licenças para o 5G. No vosso caso esse retorno já existe?
Repare, este é um investimento contínuo, o retorno tem existido do ponto de vista dos investimentos iniciais. A questão do setor das telecomunicações é que é um setor de capital intensivo. Ainda no ano passado alargamos a nossa presença de 4G em cerca de 1% da população portuguesa, de 97% a 98%, o que é significativo em termos de esforço porque já estamos a falar de áreas pouco povoadas e portanto o retorno tem de ser medido em continuidade. É verdade que me parece ainda um pouco precipitado pensarmos em rollouts de 5G quando ainda não fomos capazes de rentabilizar na totalidade o 4G. É o mesmo que pensarmos em mudar para um carro de 7 lugares quando acabamos de constituir família e ainda não termos filhos. Gostava de deixar claro que a questão do espetro é uma questão importante, sem dúvida nenhuma. Acredito e tenho confiança que os reguladores e o Estado terá o bom senso de não só promover uma discussão pública acerca destas temáticas como também perceber que este é um setor que é valiosíssimo para o PIB português e que é um dos setor mais onerados do ponto de vista de taxas e do ponto de vista fiscal. Isto tem de ser balanceado mas estamos tranquilamente a trabalhar nessa área. Ainda sobre o 5G, estamos muito atentos.

Mantêm que até ao final do ano vamos ter 5G no telemóvel?
Com toda a certeza posso anunciar que de certeza que teremos algo de muito mais concreto do ponto de vista da utilização da tecnologia 5G.

O que é algo mais concreto?
Não me parece viável que tenhamos até ao final do ano, aliás não era com certeza em 2018 que vamos ver o lançamento de serviços comerciais de 5G. Primeiro ainda não há terminais e não havendo terminais não há serviço comercial, depois porque ainda é cedo. Agora lançamos já há cerca de um ano, no laboratório em Aveiro, nesta caso com a Ericsson, mas temos um laboratório semelhante em Lisboa com o parceiro Huawei, onde temos vindo a trabalhar no desenvolvimento de soluções reais de transmissão em 5G. Já fizemos algo em ambiente laboratorial no ano passado mas acreditamos que este ano podemos ver algo semelhante ao que será a utilização daquilo que será o 5G em ambiente comercial mas ainda num ambiente não comercial, no sentido em que não haverá terminais e serviços comerciais, mas haverá a capacidade tecnológica de transmitir dados em 5G, é algo que com toda a certeza que a Altice Portugal vai mostrar à Europa e a nível global ainda este ano.