David Autor

"A riqueza vai ser distribuída de forma muito desigual"

Há uma revolução tecnológica em curso e há espaço para otimismo nas previsões para o futuro. David Autor, diretor-adjunto do departamento de Economia do Massachusetts Institute of Technology (MIT), acha que o mundo vai ser mais divertido mas teme que a riqueza não vá ser distribuída de forma igualitária.

"O mundo vai ser mais conveniente e muito mais divertido". A frase sai entre sorrisos e é uma espécie de previsão otimista do futuro em plena revolução tecnológica. Questionado se é porque vamos ter mais tempo livre, David Autor dá uma gargalhada e remata: "Não! É porque as coisas na televisão vão ser melhores!". E não é apenas a televisão que vai ter melhores conteúdos. Já lá vamos.

São 11h00. De calções e t-shirt, David Autor está à espera da TSF à porta de um hotel lisboeta à beira-rio. Mais tarde, já tem em agenda ir velejar no Tejo, mas antes é tempo de conversar sobre as suas áreas de especialidade: os impactos da revolução tecnológica, a globalização no mercado de trabalho e as desigualdades. Considerado pela Bloomberg como uma das 50 personalidades mais influentes de 2017, David Autor senta-se à mesa e fica à espera das perguntas.

Num tom descontraído, as palavras saem a grande velocidade, ainda assim, uma velocidade menor do que a das transformações nas sociedades com a automação e a inteligência artificial. Mas nada disso é um problema, até porque o futuro está nas mãos do homem. "As pessoas tendem a pensar que o futuro é determinado pela tecnologia, que as máquinas e as invenções moldam os nossos destinos. Isso está longe de ser verdade: os desafios são fundamentalmente humanos", sublinha David Autor. Para este economista norte-americano, as tecnologias podem amplificar ou causar perturbações específicas, mas "somos nós que moldamos como vamos usar essas oportunidades, não são elas a determinar o que fazemos".

Por outras palavras, aquilo que este professor e economista de 51 anos quer dizer é que a tecnologia vai criar ainda mais oportunidades no mundo, o modo como aproveitamos essas oportunidades é que se mantém uma questão em aberto. "As tecnologias em si não são uma coisa má ou algo que devamos desejar não ter, mas estou preocupado como é que podemos tirar partido do seu potencial".

A questão de as máquinas roubarem os trabalhos ao homem não é nova e, nas várias revoluções que existiram, essa ansiedade acompanhou sempre a vida dos cidadãos. No entanto, a distribuição da riqueza nos tempos futuros é aquilo que mais preocupa. "Não é que não criemos muita riqueza, ela será é distribuída de forma muito desigual", começa por explicar David Autor. "Para aqueles que são bons alunos, que vão para a universidade, vão existir oportunidades tremendas pela frente, mas as pessoas com menos educação vão ter menos oportunidades do que tinham até então. Havia um trabalho mais estável nas fábricas ou em apoio administrativo e esses são os empregos que foram mais afetados pela automação nos últimos 30 anos". Ainda assim, a ironia está noutro ponto: "esses foram considerados trabalhos moderadamente qualificados, embora tivessem sido consideravelmente desgastados pela automação, mas os que ficaram foram os empregos menos qualificados", sublinha David Autor para justificar uma futura divisão da riqueza pouco igualitária.


Há esperança?

Sim e os governos têm aqui um papel preponderante. Primeiro, vamos às questões demográficas. "A taxa de natalidade caiu drasticamente nos países desenvolvidos e criou-se uma espécie de escassez de mão-de-obra", adianta o professor do MIT à TSF. "Como há um grupo mais pequeno de jovens, os empregadores vão ter de competir mais pelas pessoas para fazerem os trabalhos e a tendência é a de subida dos salários ao longo do tempo", sublinha. Ou seja, boas notícias para as carteiras no ocidente, não necessariamente para países em vias de desenvolvimento como os do norte de África, realça David Autor.

Mas perante tudo isto, é preciso apostar nas políticas certas. A educação é um caminho, mas não só. "As únicas políticas sociais que sabemos que correram muito bem ao longo do último século: a democracia funcionou muito bem e a educação funcionou muito bem em termos de ser um investimento que compensou ao longo do tempo, mas não é a resposta completa". É preciso educação e uma mistura de outras políticas. Seja garantir um razoável padrão de vida, seja o acesso a cuidados de saúde. "Não queremos que os erros de uma geração sejam uma armadilha para a seguinte", conclui David Autor.

E há bons e maus exemplos ao nível político. Os Estados Unidos têm tido uma visão muito curta em relação a este assunto, pois têm investido pouco nas competências dos trabalhadores e têm feito poucos esforços para mitigar os efeitos das desigualdades. Para David Autor, essa postura leva a "muita frustração, violência e baixos índices de mobilidade económica". "Outros países têm feito diferentes escolhas para assegurar que os ganhos da prosperidade são partilhados e que mesmo pessoas que não tenham nascido ricas possam ter acesso a uma excelente educação e ter hipóteses de progredir", realça. Os países escandinavos, a Alemanha, a Áustria ou a Suíça são bons exemplos, destaca este professor norte-americano que veio a Lisboa para participar nos Encontros da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Diversão e conveniência no mundo do futuro

Sim, a televisão vai ser melhor e há uma explicação para isso: o mundo do entretenimento tem sido dos mais beneficiados pelos avanços tecnológicos. "Os jogos que as pessoas jogam, as experiências virtuais que podemos ter, as atividades imersivas em que podemos participar... e podem imaginar onde é que isto vai parar, algumas dessas atividades não são seguras de dizer na rádio", diz entre risos David Autor para falar desta indústria. "O valor do entretenimento e aquilo que vai ser possível fazer com o nosso tempo vai subir drasticamente. Além disso, o mundo vai ser extremamente conveniente: os serviços disponíveis, as coisas que vamos poder ter 24h por dia, as coisas que vão chegar a nossa casa através de um drone ou os produtos personalizados a baixo custo, vai ser ótimo!". Mas não só: a área da medicina e da saúde também vão beneficiar muito, nota o economista.

Ainda assim, o professor do MIT, que esteve em Portugal no âmbito da conferência "Encontro com a Fundação", promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, é taxativo ao considerar que há problemas que têm de ser resolvidos nas nossas sociedades. E esses, lembra David Autor, não são de origem tecnológica.

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