A Vida do Dinheiro

BP Portugal: "Ambiente de concorrência é quase perfeito" nos combustíveis

Pedro Oliveira, presidente da BP Portugal e líder da rede de retalho em Espanha, diz que não há problemas de concorrência nos combustíveis e acusa o Governo de ter tiques de intervencionismo.

Ingressou na BP aos 24 anos, passou pelo marketing, retalho e estratégia. Duas décadas depois, em 2013, tornou-se presidente da petrolífera em Portugal e líder da rede de retalho da BP Espanha, em 2016. Pedro Oliveira é o convidado desta semana da TSF e do Dinheiro Vivo.

Como é que vê o momento do mercado dos combustíveis?

Numa sequência de enormíssimas transformações que não param. O mercado de retalho de combustíveis em Portugal é sofisticado, tem-se permitido que funcione e que se desenvolva essa sofisticação e isso é o lado positivo. Pela relevância social e visibilidade que tem, não deixa de ser tentador aos agentes políticos, e não só, intervirem, o que faz com que muitas vezes tenhamos consequências menos positivas para o consumidor.

O consumo está a recuperar?

No ano passado não cresceu. Tivemos consumos ao nível de 2015. É verdade que em 2015 e parte de 2014 o mercado cresceu substancialmente mas é preciso dizer que vinha de quedas na ordem dos 25%, 30%. Em 2016 não cresceu.

Antecipou metas em relação aos postos de combustível. E a seguir?

Tínhamos o objetivo de ter mais de 400 postos até 2017 e conseguimos antes do previsto essa capilaridade de rede. Agora vamos crescer com uma lógica mais estratégica, em função das oportunidades que possam surgir. Este crescimento não foi feito só à custa de postos novos, a maior parte foi feito à custa de abandeirar postos que eram de terceiros. Metade do mercado é propriedade de empreendedores donos dos seus postos. Temos uma oferta competitiva e vencedora. Foi isso que permitiu crescer 100 postos em dois anos.

Quais os resultados de 2016?

A BP em Portugal não publica resultados, ainda assim foram muito, muito positivos.

Deixou de ter prejuízos?

Sim. Mas há que dizer que os prejuízos que apresentou em anos anteriores resultaram de ajustes que a BP Portugal teve de fazer e que resultaram de reforços de fundos de pensões, que nos permitiram ajustar a estrutura na Europa com uma paz social evidente.

E os resultados de 2016 foram...?

Um resultado operacional na ordem de 40 milhões de euros, o que é muito confortável. Tendo em conta que em Portugal não temos o negócio de gás, que vendemos em 2014, é um resultado digno.

O setor tem tido polémicas com o Governo, como nos combustíveis simples. Disse que não faz sentido impô-los por decreto em todos os postos. Deveriam ser as empresas a decidir?

Obviamente. A BP defende o mercado livre em que os agentes económicos possam fazer as suas escolhas e também os consumidores. O que esta lei veio promover foi uma menor capacidade de escolha por parte do cliente, os combustíveis simples já estavam disponíveis em postos brancos e de hipermercados, com uma quota de mercado muito relevante: 80% dos portugueses podem e conseguem abastecer nesses postos. A partir do momento em que se força a entrega e venda, estamos inevitavelmente a dizer que o cliente vai ter menos escolha, porque tivemos, em grande parte dos casos, que subtrair um produto para introduzir outro. É uma medida que não tinha sentido e que não é boa para o ambiente. As emissões deste tipo de produto são superiores às dos combustíveis ditos aditivados. É uma medida que não é boa para o consumidor no plano da qualidade. Pode-se discutir se o produto simples é bom ou não, mas não é certamente tão bom como o aditivado, pois está comprovado que estes promovem uma redução de consumo. Não consigo perceber a quem é que a medida traz algum tipo de proveito, a não ser uma tentação de intervir num mercado liberalizado e que funciona.

Este ano o Governo mandou investigar as margens das gasolineiras, com o argumento de que, antes do pagamento de impostos e antes de se ter em conta o transporte do combustível até à bomba, a margem de lucro das petrolíferas aumentou de 17% para 28%, e só no gasóleo subiu 6%. O senhor diz que as contas são um "lapso matemático". Estão mal feitas? São irreais?

As contas podem ter várias interpretações, mas não se pagam salários nem custos com percentagens. Não faz sentido avaliar as margens de combustíveis em termos percentuais, porque da mesma maneira que não seria legítimo que sempre que o crude sobe ou os impostos sobem, as petrolíferas vissem as suas margens aumentadas percentualmente; também não faria sentido que quando o crude desce ou os impostos descem, a nossa margem fosse contraída por força desse efeito. Do ponto de vista percentual, num ano em que o crude desce substancialmente, é natural que mesmo que a margem seja a mesma, se o denominador da fração for mais pequeno isto vai aumentar - que foi o que aconteceu. Por isso, é que é um lapso de interpretação do ponto de vista percentual. A rentabilidade destas companhias mede-se com margem na base absoluta que gerem, por isso digo que foi um lapso de interpretação matemática. Do ponto de vista percentual as margens aumentaram, mas isso não quer dizer nada do ponto de vista prático.

Rejeita falhas no mercado?

O mercado de combustíveis é liberalizado e, manifestamente, funciona. As pessoas sofisticam muito a análise, quando ele tem de ser visto à imagem de outro mercado qualquer. A mãe de todas as medidas sobre um possível enviesamento do mercado é a rentabilidade de capital empregue no mercado. As contas são públicas. O capital de mercado empregue destas companhias é inferior ao custo de oportunidade de capital em séries longas. Podemos dizer "bom, chegamos a estes resultados porque estas companhias são ineficientes, por isso é que a rentabilidade do capital é a que é", mas se olharem para tudo o que são indicadores de custo, investimentos, etc, Portugal tem dos melhores indicadores a nível europeu. É uma indústria que do ponto de vista dos custos é eficiente e que ainda assim tem uma rentabilidade de capital abaixo do custo de oportunidade de capital em séries longas de análise, não vamos analisar um ano especificamente. Nesse plano é muito claro e percebe-se que há um ambiente de concorrência praticamente perfeito. Não vale a pena andar à procura de fantasmas onde eles não existem.

Os preços nas autoestradas parecem iguais. Quando vamos a Espanha há diferenças. Afinal, cá combinam-se os preços?

É uma ótima pergunta. Hoje tenho responsabilidades sobre Espanha e não consigo perceber essa maior dispersão. Relativamente ao português, está escrito nos livros que quando se dá excessiva visibilidade aos preços, estes têm uma maior velocidade de convergência. É óbvio. Exemplos: quando são as entidades oficiais que promovem o facto de terem de existir sites em que as companhias e operadores têm de refletir os preços diários, quando são os próprios media que antecipam os preços da semana seguinte, o simples facto de termos de nos deslocar para ir ver o preço do vizinho é um ato que deixa de ter que existir. Não há nenhuma companhia petrolífera que se possa dar ao luxo de poder estar dois ou três cêntimos acima ou abaixo sem que o vizinho reaja. O facto de os preços terem convergência e refletir-se em preços relativamente parecidos, pode ser de facto o reflexo de alinhamento de preços ou por concorrência perfeita, ou por conluio. Se a rentabilidade das companhias não reflete esse conluio, esse conluio não existe.

Falando de regulação, o Governo seguindo uma recomendação da Autoridade da Concorrência, quer declarar interesse público nas instalações de armazenagem de gás para que entrem operadores no mercado e os preços de gás da garrafa desçam. Acredita que vão baixar?

Não me alongarei, porque a BP deixou de operar nesse segmento em Portugal desde 2014. Ainda assim somos hoje um enorme distribuidor de garrafas. Vejo essa medida, mais como uma tentação de intervenção num mercado que, até prova em contrário, provou que funciona. Deixaria aqui um desafio: no mercado de gás em Espanha, em que também houve tiques de intervencionismo, as companhias estão a ter de ser compensadas em largas centenas de milhões de euros. Volto ao mesmo: quando se quer perceber se de facto um mercado destes funciona, basta olhar para as contas e principais indicadores e perceber se a rentabilidade de capital é anormal ou não. Se for anormal para cima, o que inevitavelmente acontece é que é um terreno propício para novos operadores. Em Portugal, a nível do gás e dos combustíveis líquidos, as multinacionais têm saído de Portugal...

Contestou a contribuição extraordinária para o setor energético? Discorda do imposto?

Sim. Não faz sentido, porque foi inicialmente criado para reduzir rendas em mercados regulados. E nessa franja dos mercados regulados, feitas as contas, parece que não era suficiente para fechar esse buraco orçamental e estando a falar em energia, decidiram estender ao mercado dos combustíveis. Mas se é um mercado liberalizado e em funcionamento, não faz sentido colocar estas linhas de ajustamento da rentabilidade, porque se quiserem regular o mercado de combustíveis, regulem. Se lhe derem o nível de rentabilidade que dão a outros mercados em Portugal, nós aplaudimos. O nosso nível de rentabilidade é inferior aquele que se dá aos mercados regulados em Portugal. E muito provavelmente por isso é que nenhum governo até hoje, e pese embora todas as suspeições que existem sobre o mercado em Portugal, ninguém teve a coragem de regular. Se regular implicasse redução de preços, não tenho a mínima dúvida de que já o teriam feito.

O que é que espera da evolução do preço do petróleo nos próximos anos? É expectável que volte aos 100 dólares, como tantos mercados sonham?

Isso é uma pergunta de um milhão de dólares e eu respondo dizendo que se soubesse não estaria a trabalhar na BP, estaria a trabalhar a comprar e a vender crude, muito provavelmente. Tenho como certo que quem disser que sabe responder a essa pergunta, está a mentir. Ainda assim, a BP enquanto operadora de referência no mundo, neste mercado tem pelo menos... um modelo dentro do qual acredita que pode de algum modo enquadrar aquilo que possam vir a ser as latitudes desse preço.

É um modelo muito simples que assenta em 4 pressupostos: o primeiro fator que sempre esteve por trás do preço do petróleo foi a perceção de escassez, mas quem olhar pragmaticamente para as coisas, chega à conclusão que nos últimos 30 anos, por cada barril de petróleo consumido no mundo, comprovou-se a existência de dois barris de petróleo exploráveis. O segundo fator tem que ver com o facto de que a indústria petrolífera até há 10 anos tinha um modelo de produção muito rígido, o que fazia com que os preços, quando a procura acelerava muito não conseguíamos responder, os preços subiam muito rapidamente mas também quando havia arrefecimento de procura, os preços desciam muito rapidamente porque não se desliga o sistema produtor. Esta história do petróleo de xisto, veio trazer à produção mundial uma almofada de amortecimento que faz acreditar que as curvas de preço, por força desta linha de produção, que representa 10% da produção mundial, faz acreditar que as curvas de preço sejam mais suaves no futuro, seja para cima ou para baixo. O terceiro fator é o peso da OPEP... que já esteve acima de dois terços e que neste momento está abaixo de 30%, portanto tem uma capacidade de influenciar o preço muito menos do que se pensa. E vê-se hoje em dia. O quarto fator, também posto em causa nos últimos anos, é que os fluxos financeiros e de matéria-prima no passado eram clássicos e muito previsíveis. Hoje em dia não é assim, são totalmente aleatórios no mercado de petróleo. Estes quatro pilares que faziam poder prever o preço do petróleo estão totalmente abalados na indústria e, portanto, não respondendo à sua pergunta, digo que os fatores que permitiriam prever também estão abalados e a previsão é difícil. Acho altamente improvável que o petróleo, nos próximos anos, possa subir acima dos 100 euros por barril.

Os resultados da BP a nível internacional foram penalizados pelo Golfo do México. Esse custo já foi diluído e no impacto que terá nas contas da BP? A BP aprendeu uma lição? O que aprendeu?

O Golfo do México é um evento de que, naturalmente, não nos orgulhamos mas a maneira como resolvemos, não só nós mas também a indústria, é algo de que nos orgulhamos muitíssimo, seja por força da operação que colocámos na altura, seja tudo o que temos vindo a fazer ao longo dos anos para recuperar o Golfo do México. Relativamente ao impacto nas contas da BP estão, na sua grande maioria, diluídos nos nossos resultados passados e os resultados futuros não se prevê que venham a ser impactados por surpresas do Golfo do México, até porque a única frente ainda aberta era a compensação ao estado americano, mas também já foi fechada.

Estamos a falar de um impacto de quanto?

Preferia não partilhar esse número mas posso dizer que vale o valor de várias companhias regionais cotadas em bolsa várias vezes. De várias Galps e Repsois!

A BP prendeu alguma coisa?

Sem dúvida nenhuma. Hoje, se na altura a dimensão da segurança era algo que a BP já leva a muito a sério, mas operava a 3500 metros de profundidade é de facto ciência da NASA, ainda assim, foram desenvolvidos procedimentos extraordinários, e de que a BP Portugal bebeu imenso e hoje é afiliada do grupo que é uma referência em segurança. Há 3 anos que a BP Portugal não tem um acidente e há 10 anos que na área da aviação não temos um acidente e somos hoje, nesse plano, um extraordinário aluno da casa mãe. Não há muitas operações regionais da BP que se possam orgulhar de ter zero acidentes.

A BP fez aquisições recentes nos EUA na área das renováveis? Qual a estratégia?

Sim, é um dos grandes produtores eólicos dos EUA. A BP tem muito claro que as renováveis são uma dimensão muito grande para a redução das emissões, aliás a BP defende que as políticas que promovam a emissão de reduções não promovam nenhuma discriminação positiva de uma tecnologia em relação à outra. O que defendemos é que um mercado de carbono e de emissões perfeitamente estabelecido para depois os agentes económicos, em função dessa regra, decidam como querem cumprir. A BP quer cumprir e vai promover a redução das emissões. O que não faz sentido é que se promovam uns em detrimento de outros. Para que o mercado funcione e de facto as renováveis mais eficientes sejam aquelas que vinguem e que depois se traduzam em menor custo para o consumidor. Em Portugal, haver discriminação positiva em relação aos biocombustíveis não faz sentido nenhum. O que se tem de dizer é quanto queremos reduzir de emissões e cada um vai ter de fazer o seu caminho para lá chegar e vai decidir.

A GALP e EDP têm adotado a mobilidade elétrica. No caso da BP, qual é o caminho a ser feito nesta área?

A BP pode, pela sua posição global, dar-se ao luxo de estudar bem estas coisas.

Os outros players estudaram mal o assunto?

Não, quer dizer que pode estudar bem com uma visão global do sistema. Os estudos que temos feito apontam para o crescimento do carro elétrico, numa lógica composta, nos próximos 20 anos, de cerca de 20% ao ano. Parece um número extraordinário e é de facto um crescimento relevante. Isto quer dizer que dentro de 20 anos teremos 100 milhões de carros elétricos no mundo. Vamos admitir que a BP foi conservadora na sua análise e afinal são 200 milhões... vamos por estes números em perspetiva: o que se espera também do aumento do parque automóvel por força da emergência da classe média é que nos próximos 20 anos duplique, que passemos de mil milhões de carros para 1.9 mil milhões de carros. A velocidade de crescimento do carro elétrico é muito relevante mas a base em que incide... 100 milhões de carros elétricos no mundo... quer dizer que vão deslocar 1% do consumo de petróleo no mundo.

A mobilidade só é responsável por 25% do consumo de petróleo no mundo. O problema está a montante. O carro elétrico emite zero mas a energia que consome vai refletir o mix de cada país. Em Portugal, por cada unidade consumida por um carro elétrico, 70% em energia fóssil e nos melhores dias 30% são renováveis. No carro elétrico sai a zero mas na origem não é correto que o carro elétrico seja limpo.

A BP não tem nenhum projeto de carro elétrico?

Não. Temos em Portugal alguns postos de carregamento porque não queremos deixar de estar na rede. Estaremos atentos a ver, agora o carro elétrico não é a solução para as emissões.

PERFIL

Pedro Oliveira é licenciado em engenharia mecânica pelo Instituto Superior Técnico, foi campeão nacional de judo e ficou em terceiro lugar no campeonato do mundo de judo em veteranos. Vibra com a competição e não receia adversários nem árbitro. Acusa o governo de tiques de intervencionismo. Discorda da "discriminação positiva para os biocombustíveis" e diz que é preciso que o país defina "quanto quer reduzir em emissões e cada um vai ter de fazer o seu caminho para lá chegar e decidir". Quanto à mobilidade elétrica, "pelos nossos estudos, em 20 anos vai deslocar apenas 1% de consumo de petróleo do mundo".

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