Centeno admite "gestão conservadora" e diz que dívida nominal desce "já amanhã"

Criticado à esquerda e à direita pela falta de investimento, o ministro das Finanças reconheceu que "o Governo fez uma gestão cautelosa, talvez até conservadora" mas evitou "que o Diabo aparecesse".

O Programa de Estabilidade é para os próximos cinco anos, mas foi do passado que o Governo mais falou durante o debate, com o ministro das Finanças a admitir "uma gestão cautelosa e até mesmo conservadora" da despesa corrente.

"Apenas com rigor garantimos o desenvolvimento do país, quem entender de outra forma estará a enganar-se a si próprio e a hipotecar o futuro das gerações vindouras", avisou Mário Centeno num claro recado aos partidos da esquerda.

Criticado pela esquerda mas também pela direita pelo nível "poucochinho" do investimento, como definiu o centrista Mota Soares, o ministro das Finanças garantiu que "o investimento financiado com impostos aumentou" e que "o investimento não foi usado para promover o ajustamento no saldo orçamental. Foi, de facto, o contrário o que aconteceu", disse.

Durante o debate, o ministro das Finanças insistiu na crítica a quem previu " a vinda do Diabo", numa alusão a palavras do antigo líder social-democrata Pedro Passos Coelho.

"Acreditaram em imagens fantasmagóricas, às vezes com asas, outras vezes sem elas, mas sempre montadas no dorso de alguma coisa alada que levaria Portugal para os infernos e nada disto aconteceu".

Não foi a única referência a Passos Coelho, Centeno citou a melhoria nos dados sobre a taxa de desemprego para traçar a diferença com o anterior Governo.

"Em vez do que se lixem as eleições, era que se lixem os desempregados", ironizou o ministro.

Dívida nominal desce "já amanhã"

Apesar do Programa de Estabilidade só prever que a divida desça abaixo de 100 por cento, a partir de 2023, o ministro das Finanças adiantou que "hoje, a dívida pública desce em percentagem do PIB (Produto Interno Bruto) e, já amanhã, vai começar a descer em termos nominais".

Mário Centeno reforçou a ideia de que o país não terá futuro sem baixar a dívida.

"Nós não temos futuro para o país se a dívida não baixar. Não é possível projetar uma sustentabilidade para as políticas públicas se não tivermos uma trajetória de redução da dívida pública", disse o ministro depois de ouvir Paulo Sá do PCP criticar o Governo por querer "receber o certificado de bom aluno da União Europeia".

O regresso de Maria Luís Albuquerque

A antiga ministra das Finanças de Passos Coelho regressou à tribuna para denunciar mais que os "filmes" do PS seja com António Guterres, seja com José Sócrates acabaram "mal".

"Já vimos este filme de produção socialista no passado, até os atores são quase todos os mesmos, estava tudo a correr muito bem, até começar a correr muito mal. Na versão original do filme, acabamos num pântano, na sequela o fim foi uma bancarrota. Qualquer dos filmes foi mau e os portugueses preferiam não ter de ver nova produção, até porque já não é difícil não adivinhar como acaba", criticou Maria Luís Albuquerque.

No debate, Pedro Filipe Soares do Bloco de Esquerda considerou que Mário Centeno tem sido "mais alemão do que o ministro alemão" e constatou a existência de "uma cedência do PS ao velho PS, ao PS que ignora que foi o aumento do salário mínimo nacional que retirou pessoas da pobreza, que desiste do caminho que fizemos durante quatro anos".

Já Cecília Meireles do CDS considerou que a marca da gestão Centeno é "no que toca a crescimento económico sempre abaixo do prometido, no que toca à carga fiscal, sempre acima do previsto".

A votação dos projetos de resolução do PCP, PSD e CDS que visavam rejeitar o Programa de Estabilidade apresentado pelo Governo devem ser chumbados na sexta-feira, porque apesar das críticas nem à esquerda, nem à direita, existe disponibilidade para viabilizar os diplomas alheios.

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