Eleições no Montepio

Dia D no Montepio. Três listas, quantas ideias?

Tomás Correia, António Godinho ou Ribeiro Mendes: um deles vai liderar a Associação Mutualista nos próximos três anos. Com que estratégia? Esta sexta termina a eleição no Montepio.

Cortar salários da administração ou ter maior controlo sobre o banco? Combater a corrupção ou recuperar a confiança dos associados?

Os mais de 600 mil associados da Associação Mutualista Montepio Geral (AMMG) vão nesta sexta-feira conhecer a liderança da instituição para os próximos três anos. A escolha pode ser feita pelos 480 mil habilitados a votar (a maioria costuma votar por correspondência, processo que começou há duas semanas) e acontece depois do período de maior foco mediático da instituição, com a entrada da Santa Casa no capital do banco, exigências do Banco de Portugal que quer uma divisão clara entre a acionista e a instituição financeira, uma alteração na supervisão, que passou a ser feita pela Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF), e notícias de casos de tribunal envolvendo o atual presidente António Tomás Correia.

Os resultados devem ser conhecidos entre o início da noite e as primeiras horas da madrugada de sábado.

António Tomás Correia: "um grande banco da economia social"

Líder da AMMG há dez anos - e até 2015 também da Caixa Económica Montepio Geral (CEMG) - António Tomás Correia quer ficar mais três. O presidente da Mutualista, defensor da criação de "um grande banco da economia social" para a qual a entrada da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa no capital da CEMG terá sido um primeiro passo, propõe "aprofundar" esse processo.

Para isso deverá contar com a cooperação de Carlos Tavares, presidente executivo do CEMG, cuja carta de missão assinou. O presidente recandidato quer que a Caixa Económica prossiga um caminho diferente da restante banca comercial.

António Tomás Correia, presidente da Associação Mutualista Montepio Geral e recandidato ao cargo

Tomás Correia quer também um maior alinhamento das restantes participadas - incluindo a seguradora Lusitânia - com a missão da mutualista e para garantir isso mesmo propõe a criação de um Comité Estratégico presidido por si.

Ao contrário dos outros dois candidatos, Tomás Correia não promete um corte nos salários da administração da AMMG, argumentando que não se pode prometer medidas que a equipa gestora não pode tomar sozinha.

Entrevistado na TSF, o candidato da Lista A garantiu que os inquéritos de que é alvo, no Banco de Portugal e no Ministério Público, não impedem nem a sua candidatura nem, em caso de vitória nas eleições, a sua futura liderança .

Sublinhando a evolução da Associação e do banco nos últimos anos soba sua liderança, Tomás Correia sublinha que "não há lesados do Montepio".

António Godinho: acabar com "compadrio"

António Godinho quer acabar com o "compadrio" que diz existir no Montepio. Em entrevista à TSF, o candidato (já tinha concorrido em 2015) fala em " ligações perigosas e privilegiadas no Montepio nos últimos 10 anos " contra as quais lutará se for presidente.

A opção é sublinhada no programa eleitoral: Godinho quer uma "alteração das políticas promovidas em algumas das empresas do grupo que desde há alguns anos premeiam o amiguismo, a falta de critério e a subserviência". Políticas que, escreve o candidato, atribuem "mordomias, prendas e gratificações a pequenos grupos de trabalhadores esgotando recursos que podem e devem ser melhor aplicados no melhoramento dos salários base de todos".

O programa coloca por isso como objetivo um " combate ativo ao compadrio e corrupção na avaliação e seleção dos "amigos" em detrimento do mérito e capacidades".

Godinho quer ainda reservar para os trabalhadores uma "quota de 10% numa Assembleia de Representantes a criar com os novos estatutos no prazo de ano e meio".

Lisboa, 22/11/2018 - António Godinho, candidato à liderança da Associação Mutualista Montepio Geral em entrevista à TSF e Dinheiro Vivo. (Bruno Raposo/Global Imagens)

Face às acusações que recaem sobre Tomás Correia, o candidato admite não conhecer os detalhes dos inquéritos do Banco de Portugal e do Ministério Público mas confessa sentir "muita perplexidade" perante a "estratégia incompreensível de banca comercial" de Tomás Correia, que passaria pela concessão de crédito a projetos "em que os outros bancos não queriam estar por causa do risco". Godinho sublinha que "o Montepio não tem necessidade, de envolver-se nestas ligações perigosas e noutros créditos, noutras aventuras".

António Godinho até admite que Tomás Correia possa não ter responsabilidade nestes casos, mas defende que as suspeitas deveriam levar o presidente da mutualista a abandonar o cargo. "Para defesa da Associação", Tomás Correia "deveria sair".

São, considera o líder da Lista C, suspeitas que "não fazem bem" ao Montepio, cujas contas quer ver auditadas. Depois de muitas notícias que dão conta de dificuldades e falta de transparência nas contas da AMMG, Godinho promete "uma auditoria à AMMG e às principais empresas do grupo com o objetivo de dar a conhecer a verdadeira situação delas e tomar as medidas apropriadas."

A Lista C promete ainda fixar "um salário mínimo para cada uma das empresas do grupo" e cortar - embora não diga quanto - os ordenados da equipa de gestão: "serão diminuídos os salários auferidos pela administração", que são hoje de 30 mil euros mensais para o presidente e de 24 mil para os vogais.

Ribeiro Mendes: Associação tem "contas "um pouco mascaradas"

Fernando Ribeiro Mendes - que faz parte da equipa de Tomás Correia desde 2015 - entende que parte das contas da AMMG "não tem consistência" , apesar de cumprir lei. O candidato à sucessão de Tomás Correia refere-se ao impacto que as alterações de âmbito fiscal no ano passado tiveram nas contas da Associação Mutualista Montepio. (A AMMG deixou de estar isenta de impostos, passando a pagar IRC. A alteração melhorou os ativos da mutualista em mais de 800 milhões de euros).

O administrador, ex-secretário de Estado de António Guterres, foi crítico de muitos dos atos de Tomás Correia e por isso escreve no programa eleitoral que "o Montepio enfrenta uma crise de reputação fatal para a sua ação e, principalmente, para a sua capacidade de desenvolvimento". Para Ribeiro Mendes, "a confiança no Montepio, entre os seus Associados e no público em geral, encontra-se profundamente abalada."

O candidato entende que depois de uma fase mais complicada, a Associação Mutualista Montepio entrou "num período de acalmia", mas sublinha que a instituição ainda perde ativos: "Continuamos a ter uma sangria financeira desde o início do ano, há mais saídas de recursos financeiros confiados à associação do que entradas", nota.

Lisboa, 25/10/2018 - Ribeiro Mendes, administrador do Montepio Geral, fotografado esta tarde na redacção da TSF, antes duma entrevista TSF/DV. ( Gustavo Bom / Global Imagens )

A associação perdeu 100 milhões de euros em ativos no primeiro trimestre. "Não está, portanto, superada a crise de confiança", conclui.

Tal como António Godinho, o candidato da Lista B promete tentar baixar os salários da administração. Ribeiro Mendes sublinha que o salário de Tomás Correia "foi fixado no tempo em que a administração geria não só a associação como a Caixa Económica". Para o candidato à liderança da mutualista, esta é "uma razão histórica que se compreende", mas que "agora já não faz sentido".

E por isso promete que "uma das primeiras medidas a propor à Assembleia-Geral é uma revisão em profundidade do sistema remuneratório da administração, para adequá-lo ao trabalho e à responsabilidade do gestor da Associação Mutualista".

Ribeiro Mendes não não quer, para já, apontar qualquer valor antes de ser iniciada a discussão com os associados da mutualista.

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