pesca

E se o carapau fosse o rei da ceia de Natal? A ideia já esteve em cima da mesa

Os ministros das pescas entram, esta terça-feira, na reta final da maratona para a discussão da proposta da Comissão Europeia sobre os Totais Admissíveis de Captura para 2019.

Se for mantida a proposta da Comissão Europeia, haverá mais lagostim, solha, pescada do Norte, o carapau Ocidental e o carapau do Sul, o linguado e a solha no mar da Irlanda, o linguado e o areeiro no golfo da Biscaia e, em certas regiões, até o "fiel amigo" pode vir à rede com mais abundância.

Por outro lado, o bacalhau do oeste da Escócia, o bacalhau do mar Céltico e num número reduzido de outras zonas terão a quota reduzida. No caso do robalo do Norte, a Comissão faz ligeiras alterações à forma de cálculo, propondo medidas, "expressas em limites de captura e não em Total Admissível de Captura, na sequência dos mais recentes pareceres científicos".

Ainda assim, a proposta não escapa à crítica dos especialistas. Ouvido em Bruxelas, pela TSF, o coordenador da Plataforma que reúne um conjunto de Organizações Não Governamentais portuguesas de referência sobre a Pesca, Gonçalo Carvalho, apela à Comissão Europeia aos ministros para "que os pareceres científicos sejam seguidos".

Nesse caso, "quando os pareceres científicos ditam aumentos, pois muito bem, para nós, não há problema nenhum em serem seguidos, mas o importante é respeitar a ciência, manter os stocks a nível sustentável, porque isso também vai assegurar que estes estão lá para serem pescados por gerações futuras de pescadores", afirma.

Carapau

Em 2019, Portugal terá um aumento sem precedentes do Total Admissível de Captura de carapau, mas o especialista alerta que "mais quota não é necessariamente mais rendimento para os pescadores", por o que tem acontecido, com o aumento da quota para esta espécie, é que "o preço continua a muito baixo e continua a ser um stock muito pouco apetecível, para os pescadores portugueses".

Porém, o especialista considera que há trabalho a fazer "com o mercado" para que as espécies de maior abundância cheguem mais facilmente aos consumidores.

"Os portugueses deviam comer mais carapau e isso é gritante", afirma o coordenador da Plataforma das ONG para a pesca, acreditando que "há forma de aumentar esse consumo e de valorizar, nomeadamente, o carapau produzido por alguns segmentos da frota".

Para Gonçalo Carvalho "isto é possível diversificando o tipo de oferta que se faz", isto é, "o carapau capturado pelo cerco é diferente do que é capturado pelo arrasto e isto pode ser trabalhado do ponto de vista do consumidor".

"É possível fazer produtos, jogando com a restauração, com o turismo, para tentar adicionar valor ao carapau, inclusivamente, a industria conserveira", sugere, embora reconheça que "o carapau é mais difícil de trabalhar nas conservas" do que espécies "como a sardinha ou a cavala".

Um trabalho concertado com o mercado potenciaria "uma margem de lucro adicional", que por si só, através das variações em alta do Total Admissível de Captura anual, pode não ser possível de alcançar. Por essa razão Gonçalo Carvalho salienta que "para o setor [da pesca] também não é bom quando há grandes variações do Total Admissível de Captura".

"Há mais para além da quantidade que se leva. Há uma gestão que pode ser ponderada com outros fatores para permitir um rendimento melhor ao setor", afirma.

Carapau no Natal?

Ouvido pela TSF, em Bruxelas, o coordenador das ONG para a pesca admite que dentro da organização chegou a discutir-se a possibilidade de realizar uma campanha para promover o consumo do carapau, por exemplo sugerindo que, na quadra natalícia, se substituísse o bacalhau pela espécie que seria "mais sustentável" de ser consumida pelos portugueses, o carapau.

Porém, Gonçalo Carvalho acabou por sugerir "precisamente o contrário", pois se "as pessoas consumirem o bacalhau somente no Natal e o carapau no resto do ano, vai conseguir-se o objetivo pretendido, sem quebrar as tradições".

Pescadinha de rabo na boca

A quota da pescada vai também estar no centro das atenções, neste Conselho. "É um stock que já esteve bastante mal", salienta o especialista, notando que "tem havido uma recuperação" nos últimos anos, embora "ainda esteja a ser explorado acima do rendimento máximo sustentável".

"No ano passado, Portugal e Espanha comprometeram-se a aceitar metade do corte que teriam de sofrer para alcançar o rendimento máximo sustentável, e atingir essa meta este ano, mas parece que está a haver hesitações e está a pensar-se adiar mais uma vez, para chegar a esta meta na pescada", disse.

  COMENTÁRIOS