Trabalho

Empregado precisa-se. Os dois setores onde os portugueses não querem trabalhar

Em Portugal há perto de 30 mil vagas de emprego por preencher. A área da Restauração e o setor da Construção são os dois setores em que a falta de candidatos é mais expressiva. Estará este fenómeno relacionado com os salários? A TSF tentou encontrar uma justificação para os números.

"No Brasil, as coisas eram difíceis, por isso, viemos para aqui, e acabámos por gostar". Estas foram as primeiras palavras de Carolina Domingos, assim que o gravador foi ligado. Usou o plural porque não é caso único. O "aqui" tem também um duplo sentido, numa referência a Portugal - o país que a acolheu - e à restauração, o setor que lhe deu trabalho e lhe permitiu ficar por cá, faz já dois anos.

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Lucas Ferreira senta-se à mesa e atira para o ar que "é preciso gostar de pessoas". Lucas é o colega de trabalho de Carolina e, tal como ela, imigrante. Ambos trabalham num pequeno restaurante no centro de Lisboa, A Tendinha.

Gostam do que fazem, mas reconhecem que a hotelaria tem muitos problemas. O salário por exemplo: "É justo para quem começa, mas passado uns anos, deviam pagar conforme a experiência. Assim como há um empregado de primeira, empregado de segunda, de terceira, o ordenado devia ir aumentando consoante os anos de experiência", refere Lucas.

O salário de um empregado de mesa ronda os 800€, fora gorjetas que pode receber. Um valor que a Associação Portuguesa de Hotelaria, Restauração e Turismo (APHOR) considera justo tendo em conta as exigências desta função.

Nos últimos anos, por consequência do turismo, o setor da restauração está em crescimento, a falta de clientes não é um problema - pelo contrário - e à medida que o número de clientes cresce, aumenta também o número de estabelecimentos que afixam na entrada um papel onde se lê "empregado precisa-se".

Durante a procura de um desses exemplos, encontrámos, na Mauritânia, Nuno Rocha. Aqui, a paisagem do mar à beira do paredão é aromatizada pelo que está a ser cozinhado. A Mauritânia de Nuno Rocha não fica em África, mas em Matosinhos. É a marisqueira que herdou da família. Dos pais, herdou também o associativismo, por isso, para além de gerir a cadeia de restaurantes Mauritânia, Nuno Rocha é também o vice-presidente da APHOR.

"Há muita falta de trabalhadores", exclama Nuno Rocha.

O vice-presidente da APHOR confessa que não entende o motivo pelo qual o setor da restauração não atrai trabalhadores. "É um setor com boa margem de progressão e que não paga mal para aquilo que se faz, para as responsabilidades que se possa ter", acrescenta.

Que o setor da restauração necessita de trabalhadores, não há dúvidas, são vários os hoteleiros a identificar esse problema, mas de quantos milhares falamos? Nuno Rocha responde prontamente: "cerca de 8 mil, e raramente contratamos portugueses. O que nos vale são os estrangeiros".

Para este fenómeno, Carolina e Lucas têm explicações: "A restauração para os imigrantes é mais fácil, de mais acesso para quem não tem residência porque os patrões dão contrato", diz Carolina Domingos. Lucas acrescenta que "a imigração que vem para Portugal costuma ser de pessoas com menos estudos, não vêm com o currículo apropriado para assumir um cargo como advogado ou professor, então, vêm para estes trabalhos, como empregado de mesa".

Nuno Rocha concorda com Lucas, aliás, admite que, hoje em dia, "é preciso alargar o critério", ou seja, abdicar de alguns requisitos. Se antes a experiência profissional era obrigatória, agora, aposta-se na formação porque "já se sabe que não têm experiência na área".

No entanto, até em formar trabalhadores o setor atravessa dificuldades. "Aqui, em Matosinhos, tinham de contratar pessoas, e com a ajuda da Câmara Municipal promovemos uma formação. Um caso com emprego garantido. Tentámos fazer duas turmas. Das 220 ou 230 pessoas que foram entrevistadas pelo IFP, e que estavam inscritas no centro de emprego de Matosinhos, não conseguimos fazer uma turma de 24 alunos. E, dos dois estagiários que recebemos, um nem sequer apareceu, o outro estagiou três, quatro dias e depois disse que arranjou emprego noutro sítio", revela Nuno Rocha.

Lucas gosta do trabalho que tem hoje como empregado de mesa, mas no futuro terá um restaurante próprio, diz com confiança. Reconhece, apesar de tudo, os problemas do setor, e considera que, se há falta de trabalhadores, "é porque a expectativa das pessoas já não é servir às mesas, pelo menos para o que ganham." Também Lucas desvia o olhar ao salário que tem, mas apenas porque gosta do que faz. "Gosto disto, gosto de pessoas", diz.

Sem mãos para as obras

Não quer revelar a identidade, mas conta que "desde miúdo" que está habituado ao preconceito. "Sempre houve", diz-nos com naturalidade. Tornou-se senso comum de que só trabalhava nas obras quem "não tinha outro recurso".

Aos cinquenta e sete anos, mais de quatro décadas depois, ainda continua a gostar do que faz, apesar de não ser um trabalho fácil. E ganha-se bem. Nos últimos anos tem exercido trabalhos na área da instalação elétrica, esfrega o polegar no indicador: "Se correr bem, se demorar umas quatro horas... epá, aí uns... duzentos e cinquenta euros, trezentos" [euros].

O exemplo contrasta com a atual situação do setor, a construção civil está em crise de mão-de-obra. Carece de setenta a oitenta mil trabalhadores. O setor garante que o mercado europeu paga muito mais, por isso, são muitos os trabalhadores que escolhem emigrar.

Num panorama nacional, olha-se para Sociedades como a SETH -a Sociedade de Empreitadas e Trabalho Hidráulico - que oferecem o seu ponto de vista sobre o setor. Aqui é difícil não reparar no design moderno e tecnológico que compõe o edifício. Quem entra pela primeira vez, dificilmente adivinha que esta empresa de Oeiras tem oitenta e cinco anos.

É numa sala com vista para o estaleiro de construção que Ricardo Gomes, Presidente da SETH e também da Associação de Construção AECOPS, explica que dois terços do trabalho desta empresa está no estrangeiro. Em Portugal, verificou uma enorme dificuldade em encontrar mão-de-obra.

"É exigente do ponto de vista físico, porque é um trabalho exposto. Eu costumo dizer que, na minha geração, quando eu era miúdo, era engraçado brincar a colocar tijolos um em cima do outro. Os jovens, hoje, se calhar até constroem coisas, mas é num ecrã de um computador. E este tipo de diferença também se nota depois, quando se tem de escolher uma profissão", acrescenta.

A dificuldade da Construção Civil em atrair trabalhadores é transversal ao país. Mais a norte, no Porto, o Presidente da Associação dos Industriais de Construção Civil (AICCOPN), Manuel Reis Campos não só concorda com Ricardo Gomes como esclarece a urgência do setor: "Falamos de mão-de-obra especializada e não especializada. As profissões que registam mais procura são pedreiros; ladrilhadores; pintores; canalizadores; serralheiros; condutores; manobradores de equipamentos; técnicos de construção civil; técnicos de medição e orçamento; técnicos de desenho; soldadores e serralheiros; eletricistas. Eu diria que estão cá todos".

No entender de Ricardo Gomes, recorrer a mão-de-obra estrangeira para colmatar o número insuficiente de trabalhadores em Portugal pode ser uma solução. Aliás, o mesmo já aconteceu na década de 90, os tempos áureos do setor.

"Podemos, por exemplo, recorrer à comunidade CPLP ou a uma comunidade mais alargada da língua portuguesa. Está na ordem do dia, por exemplo, o caso da Venezuela, que sabemos que tem uma série de descendentes que procuram vir para Portugal", diz. Para Ricardo Gomes é essencial haver uma utilização inteligente, "até porque em muitos casos, essas pessoas de outros países já trabalham para empresas portuguesas.

À medida que o setor tenta solucionar este problema, outros persistem: falta de modernização, pouca capacidade para atrair trabalhadores, mas também uma fiscalização deficiente que acaba por permitir o aumento da clandestinidade.

"Não consigo entender como é que as autarquias, que foram rapidíssimas e eficientíssimas a montar o sistema de parqueamentos e de cobrança de portagens, com quadros e pessoas tecnologicamente equipadas para fazerem esse tipo de atuação, são incapazes de olha para a varanda de um prédio, ver que está ali um indivíduo pendurado - que às vezes nem tem o mínimo de equipamento de proteção - e não proceder de imediato a um auto ou uma queixa", reclama Ricardo Gomes.

"Sim é verdade, pode acontecer", confirma o trabalhador que nos pediu anonimato. Também ele não declara os trabalhos que faz.

Quem encomenda trabalhos, "quer uma pessoa qualquer, a baixo custo. São os chamados xanados", acrescenta.

Este é um problema difícil de combater, explica, porque estes trabalhadores são muitos e estão protegidos. "Quer queiramos quer não, há uma coisa que é importante: as empresas [que contratam trabalhadores clandestinos] sabem de antemão quando é que vão ser fiscalizadas nas obras", revela.

"Portanto, é muito fácil contratar ilegais porque, no dia em que lá for a fiscalização, eles não estão lá. Isto é a realidade".

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