Entrevista TSF Dinheiro Vivo

"Neste momento não estão previstos despedimentos na Altice Portugal"

Em entrevista à TSF e Dinheiro Vivo, o presidente da Altice Portugal garante que a empresa já não vai despedir três mil trabalhadores e adianta que a empresa está próxima de um acordo com alguns sindicatos.

Chegou a Portugal em 2012 e três anos depois já era dona da maior operadora de telecomunicações portuguesa, a Portugal Telecom. Hoje emprega direta e indiretamente cerca de 20 mil trabalhadores e é líder incontestada do mercado no setor das telecomunicações. A Altice está presente em 10 territórios e tudo somado são já 50 milhões de clientes em todo o mundo, que ajuda a uma faturação anual que ronda os 25 mil milhões de euros.

No espaço de um ano a empresa teve três presidentes executivos e viveu várias convulsões internas. O nosso convidado é o homem em quem os acionistas confiam para pôr a Altice de novo nos carris, Alexandre Fonseca.

Uma das tarefas mais desafiantes quando assumiu a liderança da Altice teve a ver com a reestruturação da própria empresa, um objetivo que foi traçado logo de início quando a Altice entrou no capital da PT. É ou não verdade que a Altice chegou a contactar o governo dizendo que estava a ponderar despedir cerca de 3 mil trabalhadores?
Muito se tem falado da temática laboral e de RH da Altice Portugal. Mais do que falar do passado e das questões que foram veiculadas por diversas fontes não oficiais, gostava de deixar aqui, porque este é um tema sensível porque estamos a falar de pessoas e de famílias, uma mensagem de tranquilidade. Aquilo que eu, enquanto líder desta organização tenho como objetivo estratégico é criar estabilidade laboral. Esse é o nosso objetivo e o nosso compromisso. Queremos estabilidade laboral através da paz social, do diálogo e de mecanismos que possam garantir que nós contamos com todos os colaboradores que estão hoje ao serviço da PT, agora Altice Portugal, colaboradores esses que sejam produtos, empenhados e que façam parte de forma motivada deste projeto.

Não quer esclarecer se essas fontes não oficiais correspondem ou não à verdade?
Não posso dizer se o governo foi ou não informado porque não estava nesta responsabilidade. O que posso dizer é que foram feitas análises de vários cenários que tiveram de ser considerados face aquilo que é a dimensão e o peso da estrutura laboral da Altice. Volto a dizer: mais do que falar de planos anteriores, penso que estarão hoje interessadas em conhecer aquilo que são os planos para o futuro.

Vamos a esses: não vai haver despedimentos na Altice Portugal?
Neste momento esse é um tema que não está na nossa prioridade, na nossa lista de atividades. Não está nada previsto, portanto o nosso objetivo é criarmos estabilidade laboral e reforço aquilo que disse há pouco: contamos com todos os colaboradores que estejam produtivos e empenhados em colaborar de forma ativa neste projeto ambicioso que temos de continuarmos a liderar o setor das telecomunicações e tecnologias da informação em Portugal.

Quando diz "neste momento" não pode garantir que num futuro próximo isso não venha a acontecer?
Estamos a falar de pessoas e famílias. Qualquer gestor que assuma compromissos ad aeternum e sem um time frame temporal é irrefletido. Temos de viver a vida das organizações à luz daquilo que são os momentos que elas atravessam. Neste momento, dentro das prioridades estratégicas que temos, essa não é uma prioridade. O que posso é garantir estabilidade laboral e que contamos com todos os colaboradores. É importante também que lhe diga que nós temos vindo não apenas a dizê-lo mas a caminhar e a traçar um plano para garantir esta estabilidade e este contexto, que hoje vivemos um contexto laboral como que vivemos hoje, com tanta estabilidade, nos últimos 3 meses. E isso é fruto da atividade que temos vindo a desenvolver com as estruturas dos trabalhadores, portanto diria que mecanismo como aquele que recentemente anunciamos de um conselho consultivo para a relações laborais, que diria que é é único em Portugal em organizações desta dimensão, a criação deste conselho para que possa ter um papel ativo nas relações entre a companhia e os colaboradores e as estruturas que os representam é já de si um passo concreto. Gostaria de vos dizer também que estamos a colocar uma ênfase muito grande nesta estrutura porque acreditamos que é decisiva numa perspetiva de equilibrar e de dar uma visão independente neste tipo de relações. Para tal, contamos não só da definição deste órgão mas também um cuidado extremo identificação de comunidades e pessoas que possam fazer parte deste conselho. Neste momento estamos, eu próprio tive oportunidade de falar na passada semana e estamos em contacto neste momento com o engenheiro João Proença, que é um dos convidados e que teve já um conjunto de conversas connosco neste sentido para que assuma o papel de liderança e participação ativa e ser um dos líderes deste conselho consultivo. Isto mostra claramente o nosso empenho e abertura ao diálogo, porque estamos a falar de uma pessoa que dispensa apresentações na sua capacidade de comunicação, é uma evidência clara da importância que a Altice Portugal coloca neste órgão. Só assim é que posso afirmar com a convicção que fiz há pouco que queremos e vamos ter estabilidade laboral na Altice em Portugal.

A administração já chegou a acordo com os sindicatos ou está à espera que o conselho consultivo ajude a chegar a esse acordo?
É um trabalho que temos vindo a fazer e que gostava de destacar. Estou há 3 meses enquanto responsável executivo da Altice Portugal. Tive oportunidade de reunir com as estruturas sindicais e com a comissão de trabalhadores por 3 vezes em 3 meses. Não me recordo, mesmo enquanto espetador, de termos tido tantos pontos de interação entre aquilo que é a gestão da empresa e estas estruturas num passado recente. Acredito que este é um trabalho que tem vindo a ser feito, não é fácil, até porque existem níveis de flexibilidade e compreensão para a discussão de assuntos laborais que são distintos nas várias fontes de interlocução que temos. Fruto deste trabalho intenso que temos feito, hoje temos já vários caminhos apontados. Temos algumas estruturas que ainda não compreenderam a importância do diálogo e da flexibilidade, temos já algumas estruturas sindicais que foram capazes de compreender aquilo que é o nosso trabalho em prol do desenvolvimento desta paz social interna e que connosco estão já a trabalhar no sentido de chegarem a um acordo sobre alguns temas que têm vindo a ser discutidos. Isto é fruto de um trabalho que... vamos ser muito honestos, não podemos agradar a todos. Uma empresa que tem mais de 10 mil colaboradores diretos tentar agradar a todos não é ser realista, até porque alguns não têm como objetivo ser agradados, apenas causar alguma distorção nestas conversas. Focamo-nos nos que têm razoabilidade e que compreendem os problemas da organização e dos trabalhadores.

Para quando um acordo?
Tenho a minha profunda convicção de que nas próximas semanas teremos condições para começarmos a anunciar algumas medidas que revelam o acordo entre a empresa e as estruturas sindicais.

Ainda este mês?
Tentativamente eu diria na próximas semanas, vamos com tranquilidade porque quando falamos neste tipo de acordo a velocidade é inimiga da quase perfeição. Não estou preocupado se é esta semana, na próxima ou na outra, estou preocupado que seja um acordo sólido, que tenha reflexo na vida profissional e pessoal dos colaboradores.

Que impacto tem a nova lei que facilita a transmissão de estabelecimento? A Alice tem utilizado esta figura... vão continuar a usar este mecanismo?
Sobre a lei em concreto não nos compete comentar. Somos um grupo empresarial, fazemos telecomunicações e tecnologia, não fazemos política e limitamo-nos a cumprir escrupulosamente a lei e foi isso que fizemos no passado. Quando foi aplicada a figura da transferência de estabelecimento fizemo-la no cumprimento escrupuloso daquilo que era o enquadramento legal à data, fizemo-lo em subterfúgios, sem nenhum objetivo escondido e de forma transparente. Nessa perspetiva estamos tranquilos com qualquer legislação laboral. Pode-nos ser mais desafiante ou não, iremos com certeza analisar o novo enquadramento, iremos cumpri-lo na íntegra. Nem sequer é discutível na Altice Portugal, e com certeza encontrar a melhor forma de implementar as medidas laborais à luz da legislação vigente. Sobre o passado, o passado é passado, implementamos esse mecanismo e eu já tive oportunidade de dizer aos sindicatos que é um mecanismo que não faz sentido ser revertido porque teve o seu enquadramento, foi executado no cumprimento da lei e é um tema que, perdoem-me a analogia futebolística, é como marcar um penalti só porque nos enganamos no penálti do outro lado. Não vamos agora corrigir uma situação que pode ser entendida por alguns, não por nós, como um erro... entendemos que foi um passo que teve de ser dado e não vamos só porque existe alguma insatisfação no mercado alterar revertendo uma decisão. Posso também dizer que vamos ser cautelosos na escolha de qualquer mecanismo laboral que possa implicar risco do ponto de vista laboral e também nesta perspetiva comunicacional por causa da estabilidade que referi atrás. Neste momento a questão da transferência de estabelecimento não se coloca porque não temos objetivos de curto prazo de reduzir account ou de fazer o que quer que seja em termos de redução de massa laboral. Agora se efetivamente existirem situações particulares em que aquilo que é uma mecânica de mobilidade dos colaboradores seja adequada, vamos olhar para esta lei como para outros mecanismos que aliás a legislação laboral já tem hoje para podermos avaliar as situações.

Houve alguns trabalhadores que recorreram para tribunal em relação a esta decisão. Esses casos estão a ser trabalhados ou a administração vai pura e simplesmente aguardar pela decisão judicial?
Quando falamos de diálogo laboral... a posição de aguardar é algo que para mim, pessoalmente, não me agrada. Não gosto de aguardar, prefiro encarar os problemas de frente e resolvê-los de forma rápida, concisa e objetiva e esse era de facto um problema. Tínhamos um conjunto de trabalhadores que, deixe-me que lhe diga, tenho algumas dúvidas em relação às motivações desses processos que foram colocados. Sabemos que infelizmente existem forças que se aproveitam de momentos de maior fragilidade dos colaboradores em processos como este, que é sempre algo que cria alguma instabilidade emocional nas pessoas e é normal... pessoas que estavam ligadas à PT e que de repente que sentem que vão perder um cordão umbilical a uma organização como esta e criam alguma fragilidade emocional... existem entidades que procuram este tipo de momentos para tirarem partido das pessoas para se posicionarem.

Está a falar dos sindicatos?
Não vou nomear mas quem está na gestão empresarial conhece perfeitamente este tipo de situações. Mas mais importante do que quem, acredito convictamente que se tratou em boa parte de um aproveitamento desta situação de fragilidade de alguns colaboradores aquilo de colocar estes processos em tribunal. Hoje, na data em que estamos a conversar, estamos na iminência de ter um volume significativo de colaboradores desses que irão retirar esses processos de tribunal.

O que é que lhes deu em troca?
Acima de tudo a primeira coisa que se dá em troca é conversar, discutir e analisar. Nestas questões, como em tudo na vida, não podemos fechar os olhos e tapar os ouvidos, temos de perceber. Se alguém se queixa de algo é porque tem uma razão e portanto ouvimos essas pessoas. Compreendemos quais eram as suas preocupações, algumas como a reversibilidade do mecanismo não é possível e já o dissemos, mas passamos a um segundo nível que é perceber o que há por trás disso. E percebemos que existiam outras situações que preocupavam as pessoas. Tentamos conversar e encontrar caminhos de forma a que algumas dessas preocupações...

Quer dar-nos um exemplo dessas preocupações?
Questões que têm que ver com proteção na saúde, de questões tão simples como benefícios de produtos e serviços que teriam quando estão ligados à Altice enquanto fornecedora desses serviços... são coisas simples, mas que são muito importantes porque mexem com a vida das pessoas, com o seu ambiente económico e financeiro. Não posso ainda afirmar a 100% infelizmente porque não o conseguimos fazer hoje, mas posso dizer que estamos na iminência, por horas, de poder ter uma parte significativa desses colaboradores a levantarem esses processos, a olharem para a frente e a virarem a página. Estive a oportunidade de estar nos escritórios de Viseu, Braga e Porto e falei com pessoas dessas. Bebi um café depois de um almoço na cantina com dois colaboradores transferidos que me manifestaram a sua preocupação, sem qualquer animosidade, conversamos como pessoas civilizadas. Foi também aí que percebi algumas das outras motivações que estavam subjacentes. Acredito que algumas destas pessoas vendo satisfeitas algumas destas preocupações e salvaguardadas algumas das questões que têm vindo a levantar, consideram também ter oportunidades interessantes neste mecanismo. Porque estas empresas a quem fizemos a transferência de estabelecimento são empresas que trabalham para outros universos, algumas delas abrem expectativas de trabalho internacional com outros operadores em áreas distintas, portanto nestas questões há sempre o copo meio cheio e o copo meio vazio. Também conheço pessoas que estiveram no âmbito desta movimentação e que viram este movimento contribuir para um virar de página na sua carreira e uma progressão até.

Uma reestruturação implica sempre redução de trabalhadores, seja através de rescisões amigáveis, reformas antecipadas... o que está previsto nesta área?
Penso que fui claro. O nosso objetivo é garantirmos a estabilidade laboral portanto nenhum desses mecanismos está no nosso horizonte. Estamos focados na tal paz social e de conseguir levar este nosso ambicioso projeto de criação de valor e conhecimento em Portugal para a frente. Não se pode criar valor e sinergias sem pessoas. O objetivo é que as pessoas estejam focadas no seu dia-a-dia no projeto, naquilo que é o sentimento de pertencer a um projeto único em Portugal e com ele colaborarem para desenvolver trabalho e ajudarem no crescimento.

Não há trabalhadores neste momento sem funções atribuídas?
Há, sim, é verdade. Temos, como é conhecido, aliás é um tema que tem décadas, que quando a Altice adquiriu a PT existiam situações de colaboradores em pré-reforma, que estão com contratos que são conhecidos e que fazem parte e que nós não tocamos. É uma situação que vinha do passado, a Altice herdou com a aquisição e estão hoje com as mesmas situações que tinham quando a Altice chegou.

Consegue dar-nos uma ideia de quantos?
São uns milhares de colaboradores que estão nessa situação e que são situações que estão reguladas até ao momento da reforma desses colaboradores. É algo em que não vamos tocar e essas pessoas estão protegidas pelos acordos estabelecidos há anos e não haverá alteração. É uma herança que temos e que vamos viver com ela sem problema.

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