O país tem má memória de greves de motoristas. Há 11 anos, eles também pararam o país

Em 2008, uma pessoa morreu, as prateleiras dos supermercados ficaram vazias e houve uma corrida aos combustíveis. O protesto foi particularmente conflituoso entre os próprios motoristas, que nunca se entenderam quanto à forma da greve.

A greve de motoristas não é inédita, embora os seus efeitos sejam sentidos sempre como se fosse a primeira vez. A situação encontra paralelo na paralisação de 9 a 11 de junho de 2008, governava ainda José Sócrates. Falava-se, então, de um "bloqueio total".

Nessa altura, foram os motoristas de pesados de mercadorias a parar o país de norte a sul, num protesto contra a escalada de preços dos combustíveis. As estradas ficaram obstruídas por centenas de veículos pesados, uns em piquetes de greve e outros que foram proibidos de circular. Também em 2008 se sentiram, por isso, os efeitos ao nível dos postos de combustível, que secaram, sem possibilidade de dar resposta a tanta procura.

Mas houve mais... As prateleiras dos supermercados esvaziaram, porque o fornecimento foi bloqueado. No centro e sul de Portugal, começaram a escassear produtos como a carne, o peixe e os legumes. Aliás, o desperdício alimentar materializou-se em 2,5 milhões de litros de leite a ir diretamente para o lixo. Os pescadores também sentiram os efeitos deste protesto na pele, com dificuldades no escoamento do peixe recolhido do mar. Os serviços de emergência foram igualmente afetados.

Os ataques aos camiões, que incluíram apedrejamento e o deflagrar de chamas nos veículos, levaram a que os bombeiros tivessem de interceder, através da limitação de saídas de emergência. Por sua vez, as autoridades foram obrigadas a garantir a proteção de caravanas carregadas de combustíveis de emergência. Os incidentes que se acumularam nas estradas portuguesas tiveram ainda um desfecho mais grave. Um motorista de pesados perdeu a vida em Alcanena.

O trabalhador foi atropelado na zona de Zibreira, quando tentava impedir o proprietário de uma transportadora de furar o piquete de greve. "O indivíduo foi tocado pelo camião e ​​​​​​​projetado para a frente do veículo, tendo-se levantado e atirado uma pedra contra a porta do lado do condutor", contou uma fonte à Lusa.

O movimento não reuniu consenso, nem na forma, nem no conteúdo das motivações, e avançou mesmo sem a concordância da Associação Nacional de Transportadores Rodoviários Públicos de Mercadorias (ANTRAM). Muitos exigiam condições melhores para incentivar a renovação de frotas.

A Associação Nacional de Transportadoras Portuguesas (ANTP) dava os primeiros passos em 2008. A associação, em conjunto com a ANTRAM, deu por concluída a paralisação quando os grevistas e o Governo assinaram um acordo, que contemplava 16 medidas para atenuar as consequências do aumento de preços dos combustíveis.

A greve não teve uma adesão total por parte do setor, mas o presidente da Federação dos Sindicatos dos Transportes e Comunicações dizia sentir que havia pressões por parte dos grevistas para que os que queriam trabalhar não entrassem ao serviço. As entidades patronais foram, então, acusadas, com um apelo dos sindicatos para que se denunciasse as empresas que não deixassem os motoristas trabalhar. Vítor Pereira alvitrou, além disso, que os trabalhadores estavam a ser usados pelos patrões em lutas que não eram suas.

O sindicalista aproveitou, no entanto, para apontar outros problemas transversais ao setor e que poderiam estar na pista de futuras greves: baixos salários, precariedade laboral e concorrência desleal entre empresas. Era a estas reivindicações que Vítor Pereira esperava que o Governo de então desse respostas. O responsável sindical acusou, há 11 anos, o Executivo por ter deixado arrastar o problema do transporte de mercadorias, considerando que era um setor "indisciplinado e com imensas ilegalidades", em declarações à agência Lusa.

Três anos depois, em 2011, houve uma nova greve. Durante dois dias, o aeroporto de Lisboa e de Faro viram as suas atividades comprometidas por falta de abastecimento. A contestação voltava a reivindicar o reconhecimento da categoria profissional específica.

Ao longo de mais de uma década, as mudanças que foram sendo feitas no setor não foram suficientes para impedir que uma nova greve ameaçasse de novo parar o país.

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