A Vida do Dinheiro

Presidente da Vodafone compara Operação Marquês ao negócio da Media Capital

O presidente executivo da Vodafone, Mário Vaz, não poupa críticas à intenção de compra da Media Capital pela Altice.

Se o negócio for para a frente e se, hipoteticamente, a NOS avançasse sobre a Impresa, como ficaria a Vodafone entre duas superpotências das telecomunicações e conteúdos?

Passe a imodéstia, também somos um bocadinho superpotência!

Num cenário hipotético, como mudaria essa relação de forças?

Mesmo sendo hipotético, os comentários que temos feito e os alertas que temos lançado sobre este tema não têm que ver com qualquer tipo de receio da Vodafone, porque aquilo que refere hoje referiu-se no início da convergência, quando disseram que a Vodafone ia ser esmagada e sair do mercado. Não fomos! Não vou repisar o sucesso que a nossa estratégia tem demonstrado. Há dois anos houve o tema dos conteúdos desportivos, a Vodafone ficou fora e ninguém viu a Vodafone andar a comprar conteúdos a clubes de futebol. Diziam que íamos ser aniquilados, mas nós encontrámos uma solução. Há bem pouco tempo, quando um outro operador decidiu não dar continuidade a um acordo que tínhamos na fibra, foi dito que a Vodafone não ia ter acesso à fibra, ia ter uma cobertura muito limitada. Esperámos que o regulador arranjasse uma solução, não arranjou... a Vodafone fez um acordo com outro operador e vamos chegar a quatro milhões de casas em Portugal. Ao que vier, nós saberemos encontrar uma solução. A Vodafone tem sido penalizada por ser tão criativa e por ser tão esforçada a encontrar soluções quando outros não as ousam encontrar.

Soluções com parcerias?

Parcerias, colaborações, muitos modelos podem surgir. Espero que não surjam porque é mau sinal para o país. Desenganem-se aqueles que acham que operadores de telecomunicações a comprar produtores de conteúdos são a solução para os grupos de media em Portugal. Ou no caso dos media que vêm do passado, e que nunca tiveram um papel tão importante para a democracia em Portugal, que vão resolver os seus problemas se os operadores os comprarem. Não acreditem nisso, é uma solução de curto prazo, mas a longo prazo é o país que vai perder e vai ser a comunicação social em Portugal que vai ser penalizada. Um operador ao comprar e ao valorizar um ativo de conteúdos, da forma como está a ser valorizado o conteúdo da empresa de que estamos aqui a falar, tem o objetivo único de potenciar o negócio principal das telecomunicações. Cumprido esse objetivo, o ativo deixa de ser relevante, ou porque outros fizeram exatamente o mesmo e ficaram em igualdade de circunstância ou o benefício já está atingido e não interessa continuar a investir nesse conteúdo. Em particular, uma empresa que vive do core de conteúdos de entretenimento mais informação, no dia em que ela estiver ao serviço de outro valor, há conteúdos que vão ser irrelevantes. O primeiro, naturalmente, será o da informação. Haverá uma aposta clara em entretenimento e não em informação.

Está a dizer que os media serão instrumentalizados?

Instrumentalizados no sentido de serem utilizados a favor de um negócio, não estou a pôr segundas intenções. Curiosamente, em Portugal não há muitos anos, quando houve rumores da PT, hoje já comprovados, de que havia intenção de comprar a Media Capital, falou-se muito dos riscos que isso significava para a democracia, para a pluralidade dos órgãos de informação. Hoje, estranho que sejamos tão poucos a falar sobre os riscos e os que falam possam ser acusados de estar a defender interesses corporativos e do seu negócio. Intriga-me como é que há tanto silêncio à volta deste tema quando já foi um tema tão crítico. Desta vez ninguém está preocupado com quais serão os objetivos desta aquisição.

O primeiro-ministro parece preocupado...

A propósito da aquisição da Media Capital pode ter estado preocupado, mas à volta disso não tenho visto muito ruído.

Acha que, em última instância, o governo deve intervir?

Para nós, a decisão está tomada e bem tomada pelo regulador. Acho que é bom para o país - quando o tema tem esta criticidade, e tem de ter - que o debate deve existir. Tentar perceber o que é que pode acontecer aos grupos de media em Portugal, aos conteúdos em português, ao setor das telecomunicações e para uma democracia que se quer plural e com órgãos de comunicação social claramente independentes e ao serviço do objetivo primeiro que é a produção dos conteúdos e não ao serviço de outro objetivo. Isto é curioso, aqui há tempos revi um caso de 1950 nos EUA quando os estúdios de cinema tinham a produção, a distribuição e a exibição e o Departamento de Justiça, entre 1948 e 1950, veio dizer que não era bom para a concorrência, novos conteúdos e dinamizar o setor - estamos a falar do cinema na altura - e que tinham de desinvestir e deixar de estar presentes na sala de exibição. Veja-se a semelhança, passados estes anos todos. Já na altura era importante, quando o cinema tinha a importância que tinha. Hoje estamos outra vez a falar de conteúdos, mas em vez das salas de cinema estão a falar do ecrã da TV e do smartphone.

A entrevista a Mário Vaz vai para o ar este sábado, às 13h, na TSF. É também publicada na edição em papel do Dinheiro Vivo deste sábado, que sai com o Diário de Notícias e com o Jornal de Notícias.

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