Minas de lítio: uma ameaça para a aldeia de Covas do Barroso?

Empresa espera começar exploração em 2020, mas a classificação do projeto como de Potencial Interesse Nacional foi, entretanto, adiada. A população promete continuar a luta contra a extração de lítio da mina.

A apreciação do pedido de classificação do projeto de exploração de uma mina de lítio em Covas do Barroso, em Boticas, como de Potencial Interesse Nacional (PIN) foi adiada por nove meses a pedido da empresa promotora.

"O pedido de adiamento por nove meses da reunião prevista para hoje na Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) foi justificado pela empresa como o período considerado necessário para o amadurecimento do projeto", revelou à TSF fonte da Câmara Municipal de Boticas.

A notícia fez respirar de alívio a população de Covas de Barroso que, no entanto, promete não esmorecer os protestos contra a exploração da mina de lítio por considerar que vai "destruir" a aldeia, prejudicando a atividade agrícola e apícola, principal sustento das famílias.

"Se fosse considerado PIN ia haver um facilitismo e um aceleramento dos processos que visam proteger o ambiente e as populações e o adiamento já nos deixa mais sossegados", comenta Nelson Gomes. É o presidente da Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso, constituída para tentar travar a intenção de explorar lítio nos montes da aldeia. Com a mulher, Aida Fernandes, têm uma exploração agrícola que temem ficar comprometida com o projeto. "Quando ouvimos falar de um projeto destas dimensões e sempre a aumentarem claro que ficamos receosos e tememos pelo pior", refere Aida Fernandes.

A exploração de lítio em mina a céu aberto é também uma preocupação para os habitantes mais velhos da aldeia, que temem pelas consequências para a saúde. "Quando andar esse pó pelo ar, eles não conseguem ter mão nele. Porque aquelas máquinas a moerem na pedra faz muita poluição", antevê António Gonçalves, 82 anos.

Carlos Gonçalves é apicultor (produz entre 3 e 5 mil quilos de mel por ano) e teme que o início da exploração de lítio ponha fim ao sustento da família. "A poluição vai diminuir a qualidade e a quantidade porque as flores ficam poluídas e as abelhas não têm onde ir buscar o néctar", refere.

Os trabalhos de prospeção já estão a deixar marcas na paisagem, alerta João Fernandes Martins, que conhece estes caminhos "desde pequeno, quando ia para lá com as cabras, e ontem passei por lá e já não conhecia a serra".

A empresa responsável pelo projeto, a Savannah Resources, prevê investir na mina de lítio em Boticas cerca de 500 milhões de euros e criar 300 postos de trabalho, mas, para o economista Fernando Gonçalves - que divide o seu tempo entre o Porto e Covas do Barroso, de onde é natural -, trata-se de um "presente envenenado, porque a maior parte da população é idosa e não são esses que vão ser contratados. E os poucos casais jovens que ficaram podem, num cenário desses, ir-se embora, porque não têm condições para continuar a desenvolver a atividade que até agora tinham que é agrícola".

A área de concessão em causa situa-se em área de Reserva Agrícola Nacional (RAN) e Reserva Agrícola Ecológica Nacional (REN), num território que em 2017 foi classificado como Património Agrícola Mundial.

Leia também: Um filão por explorar. Novos concursos para minas de lítio ainda não estão na agenda do Govern o

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