Portugal vive um "engodo" e está "em muito maior risco. É sol de pouca dura"

Braga de Macedo diz que o país está anestesiado e entende que há um engodo na perceção do país. Hipóteses do PSD nas legislativas? "Falar de outros partidos parece quase impossível".

Jorge Braga de Macedo confessa-se perplexo com a diferença entre a perceção que as pessoas têm do estado do país e a realidade.

Entrevistado na TSF e Dinheiro Vivo, o antigo ministro das Finanças considera que a situação do país "causa perplexidade", e justifica afirmando que "toda a gente parece estar com uma confiança no futuro que é desmentida por uma indicação mais fina do que está a passar" e enumerando alguns dos indicadores que não sustentam otimismos: "a ausência de reformas estruturais, a singular ausência de más notícias - pelo menos do ponto de vista da comunicação -, a situação na Europa, que é bastante preocupante, e a situação mundial".

O economista sublinha um desfasamento entre o país e a imagem que a população tem dele: "as perceções mudaram muito mais do que a realidade", sustenta, argumentando que "há muitos indicadores que dizem que a capacidade do Estado resolver problemas agora é inferior ao que era durante os piores anos da chamada austeridade". E arrisca um motivo: "porque se encontrou maneira de colar «austeridade» à cara de um e colar «sorriso» à cara de outro". Os nomes não foram logo enunciados, mas é evidente que o "um" é Passos Coelho, enquanto o "outro" é António Costa.

Para o professor de economia, Portugal está mesmo "em muito maior risco de voltar a ter um problema do que deveria ser o caso depois de tudo o que passámos". E denuncia aquilo um adormecimento do país: "há uma diferença radical entre o período mais tristonho e o período mais sorridente. O período sorridente", afirma, "é mais anestesiante", continuando com uma interpretação do que irá na cabeça de quem tem uma visão mais otimista: "é uma espécie de... «vai tudo correr bem»", teatraliza, terminando com um termo árabe bem conhecido: "Inshallah!".

Situação portuguesa é "sol de pouca dura"

O antigo responsável pela pasta das Finanças na segunda maioria absoluta de Cavaco Silva no início dos anos 90 considera que há uma "situação de anestesia relativamente às reformas estruturais que permitiriam a Portugal ser competitivo numa ordem global que está mais instável", o que para o economista é também um cenário em que "podem ser capturadas oportunidades porque estamos de facto no mapa, através do turismo, do investimento". O antigo governante avisa no entanto que "se os serviços públicos se deteriorarem como se têm deteriorado estes anos, é impossível. Deixa de ser um sucesso". E remata: "isto é sol de pouca dura".

Vitória do PSD nas legislativas? "Parece quase impossível falar noutros partidos"

Questionado sobre quais as hipóteses de vitória do PSD nas legislativas, o social-democrata lamenta que "falar de outros partidos neste momento até parece quase impossível". Mas afirma, perentório, que "há um engodo" no país. Para Braga de Macedo, "há uma diferença entre a perceção e a realidade, que é contrária ao que existia antes". O economista entende que no governo de Passos Coelho "também havia uma diferença entre a perceção e a realidade - e temos de agradecer ao Tribunal Constitucional ter tornado as coisas muito mais difíceis do que teriam sido no sentido de se encarniçar relativamente aos trabalhadores poupando uma parte deles, considerando que isso era justo e igual, que não era. Foi discriminatório". E exemplifica com a tal perceção do país: "reparem que neste momento não há problemas nenhuns. Não há problemas constitucionais. Está tudo bem". Mas garante que os economistas "olham para isso e duvidam porque têm essa consciência que as perceções não correspondem à realidade".

"Ninguém toca em Centeno porque Costa não deixa"

Braga de Macedo, que foi ministro das Finanças de um governo liderado por alguém que já tinha liderado a pasta, considera que foi no governo de Passos Coelho e Vítor Gaspar que se assistiu ao expoente máximo do poder de um ministro das Finanças. Quanto a Mário Centeno, "parece não ter poder - no sentido de ter as organizações". O economista sublinha no entanto que "a verdade é que ninguém lhe toca. E ninguém lhe toca porque o primeiro-ministro não deixa", garante, acrescentando que "Isto aplica-se não só ao partido que está no governo mas aos outros, cujos ataques são quase completamente lúdicos".

Portugal não fez reformas...

Braga de Macedo lamenta que Portugal não tenha feito, em tempos de menor aperto, as reformas de que precisava: durante o resgate "parecia [haver] um movimento de reformas que nos ia permitir a competitividade" num contexto em que "o grande problema não era o orçamento, era a dívida externa, era o défice externo".

E nesse capítulo, garante, "de facto mudou-se de regime". No capítulo da dívida é que não: "continuamos a exportar, mas a dívida está lá, a pública e a privada". E menciona exemplos de outros Estados que, no seu entender, fizeram mais: "países com dívidas privadas altíssimas, como por exemplo a Holanda, fizeram as reformas que a Alemanha fez, que os países nórdicos fizeram. A Irlanda teve aquele exagero bancário mas também fez reformas." "Porque é que nós não fizemos?", questiona.

... e a Europa também não

Braga de Macedo lamenta que a Europa, que também vive um período de maior desafogo, poderia tê-lo aproveitado melhor, precavendo-se dessa forma para crises futuras. Um dos passos seria completar a União Bancária, composta por três pilares (mecanismo único de supervisão, mecanismo único de resolução e sistema de garantia de depósitos), ​​​​​​ ​dos quais o último está por implementar.

O economista denuncia que Bruxelas "não está a fazer as reformas" porque "como a conjuntura está boa", o entendimento do poder é que "não há problema, 2017 foi um ano extraordinário na zona euro!".

O professor admite que "a arquitetura progrediu na parte orçamental - tem defeitos, mas não é a mesma. A [consequência da] violação do pacto não tem nada a ver com a anterior". Mas lamenta que quanto às "reformas da União Bancária e da União do mercado de capitais, que eram essenciais para completar a arquitetura, fez-se muito pouco!".

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