Europeias 2019

Costa protege a geringonça e Rio diz aos críticos para guardarem as facas

Se alguém ainda tinha dúvidas de que estas Europeias eram uma espécie de primeira volta das legislativas, os líderes dos principais partidos acabaram com elas. De Costa a Rio, passando por Cristas, Jerónimo e Catarina, os discursos da noite eleitoral foram todos a pensar no dia 6 de outubro.

A política nacional entrou definitivamente nos "jogos da fome". Não que durante a noite eleitoral alguém tenha gritado "let the games begin" (que comecem os jogos), mas é seguramente isso que atravessa o espírito dos líderes dos principais partidos políticos. Os que saíram vitoriosos e os que sentiram nos ombros o peso da derrota numas eleições que registaram uma taxa de abstenção historicamente alta.

Daqui até ao início de outubro vai haver pesca à linha pelos votos dos portugueses. Os "iscos" começaram a ser lançados nos discursos da noite europeia. Seguem-se as ideias principais e as entrelinhas dos líderes do PS, PSD, BE, PCP e CDS.

Rui Rio

"Subimos, mas pouco. Não conseguimos aumentar o número de deputados e, portanto, não atingimos o nosso objetivo. Não adianta estar com floreados (...). A mensagem do PS passou melhor que a nossa se não os resultados não eram estes."

Num estilo a que já estamos habituados, Rui Rio não tentou dourar a pílula. O resultado do PSD ficou muito aquém dos objetivos traçados e o presidente do PSD reconhece que o Partido Socialista foi mais eficaz na forma como passou a mensagem. Sem nunca se referir à crise política dos professores, ao admitir que "a mensagem do PS passou melhor", Rio reconhece que os eleitores compreenderam melhor a ameaça de demissão de António Costa do que os argumentos do PSD para defender o reconhecimento das carreiras dos professores com travões económicos que não colocassem em causa as contas públicas.

"Ou o PSD chega a outubro com uma alternativa ao PS, ou não há alternativa ao PS. Só o PSD pode ser alternativa ao PS. Essa alternativa é evidente que Portugal precisa dela (...). É a partir deste ato eleitoral que temos que aprender para fazer melhor daqui a quatro meses."

É uma resposta clara e direta a Assunção Cristas, que anda há meses a dizer que o CDS é a única alternativa ao PS. A líder centrista aproveitou os acordos que Rui Rio assinou com António Costa - para a descentralização e para os fundos comunitários - para tentar capitalizar uma parte do eleitorado do PSD que não gosta da ideia do bloco central. A julgar pelo resultado nestas Europeias, não se pode dizer que os resultados desta estratégia para o CDS tenham sido propriamente bons, mas a verdade é que Cristas tem consolidado esta ideia de que é a única que não faz acordos com os socialistas e que, portanto, o CDS é o líder da oposição em Portugal. No discurso da noite eleitoral, Rui Rio ensaiou uma nova estratégia para resgatar essa liderança e para assumir o PSD como a única alternativa ao Partido Socialista.

"Claro que tenho condições para levar o PSD a um bom resultado. Estamos a falar com alguém que anda há 61 anos nesta vida. Eu não abandono. Eu assumo as minhas responsabilidades. Uma eleição europeia não tem a ver com legislativas. E uma taxa de abstenção de 70% diz o que diz do resultado eleitoral (...). Eu acredito que sim [que tem capacidade para mobilizar o PSD para as legislativas], mas não sou eu que determino isso. Se já foi difícil andar um ano com turbulência interna, o que será se daqui até às legislativas continuarem a fazer a mesma coisa."

Se no PSD já há quem tenha começado a afiar as facas, Rio aconselha os críticos a arrumá-las e lembra que perdeu uma batalha, mas não perdeu a guerra. A quatro meses das legislativas, o presidente do PSD puxa do seu histórico político e avisa que se não fugiu no passado, também não é agora que o vai fazer. Quem está está, quem não está, paciência. Mas, nas entrelinhas, Rio não deixa de partilhar as responsabilidades pela derrota eleitoral nestas europeias com os críticos que lhe deram "um ano de turbulência interna" para avisar, logo de seguida: "O que será daqui até às legislativas se continuarem a fazer a mesma coisa?". Luís Montenegro deve ter ficado com as orelhas a arder.

"Fizemos uma campanha de uma forma tradicional. Temos de ser capazes de arranjar novas formas de fazer campanha. A taxa de abstenção é uma derrota para todos os partidos sem exceção, grandes e pequenos. Temos de atuar diferente e não só nas campanhas eleitorais. Mas também temos que ser criativos no dia-a-dia. Os partidos têm acima de tudo que ser capazes de dialogar com Portugal."

É uma espécie de mea culpa. Rui Rio, que há muito não se identifica com a forma como são feitas as campanhas eleitorais e, sobretudo, com os discursos de gritaria e ataques pessoais, acabou, ele próprio, por seguir essa linha a partir de um determinado momento da campanha. O presidente do PSD reconhece agora que não conseguiu fazer diferente e, sobretudo, não conseguiu que o partido que lidera tivesse uma campanha eleitoral ao nível do que defende. Fica a promessa de uma reflexão e de alterações nas próximas legislativas.

António Costa

"O secretário-geral do PS não era candidato, por isso o mérito é dos candidatos, do Partido Socialista e de todos os que votaram no PS nestas europeias."

Entre esta frase e toda a postura de António Costa durante a campanha eleitoral, vai uma enorme distância. Foi Costa quem nacionalizou estas eleições Europeias, quando disse que elas serviam para avaliar o trabalho do Governo nos últimos três anos e meio. Uma decisão arriscada, mas que acabou por correr bem ao secretário-geral do PS. Sendo verdade que António Costa não era candidato, foi ele que ocupou grande parte do espaço mediático do PS nas últimas semanas, não se coibindo, sequer, de aparecer nos cartazes do partido ao lado de Pedro Marques.

"Este resultado significa um voto de confiança no PS. É evidente nestas eleições a derrota muito clara que o PSD e o CDS sofreram. É também muito claro que os partidos que apoiaram esta solução governativa há três anos e meio não tiveram essa derrota, pelo contrário, tiveram uma vitória na noite de hoje em Portugal."

No balanço que fez dos resultados destas eleições, há duas notas muito claras: a primeira é de que António Costa procurou capitalizar, o mais possível, os méritos da governação para o PS. Mas fez mais: o secretário-geral do Partido Socialista fez questão de salvaguardar o futuro e decidiu nomear apenas dois derrotados nestas Europeias: o PSD e o CDS, deixando de fora o PCP. Ora, nem Jerónimo de Sousa foi tão longe. O próprio secretário-geral dos comunistas assumiu que o resultado tinha sido "negativo". Mas Costa conseguiu contornar isso e elogiar o Bloco de Esquerda e o PCP pelos resultados que tiveram e nacionalizando, mais uma vez, estas eleições, ao deixar subentendido que "a vitória" de bloquistas e comunistas se deve ao facto de terem apoiado a atual solução governativa.

Jerónimo de Sousa

"Um resultado negativo, assumimos (...). As eleições legislativas serão um momento decisivo para determinar o rumo da vida política nacional e a vida do povo português nos próximos anos."

Depois de uma derrota pesada nas autárquicas e de "um resultado negativo" que o próprio PCP assume, Jerónimo de Sousa parece apostar todas as fichas nas legislativas de outubro. E pode não ser apenas "o rumo da política nacional" que terá um momento decisivo. Pode ser também o da própria liderança de Jerónimo de Sousa.

"Olhando para o futuro, a CDU aponta a necessidade do desenvolvimento da luta contra as normas gravosas da legislação laboral, contra a precariedade e desregulação dos horários de trabalho. A CDU coloca como uma emergência nacional o geral aumento dos salários para todos os trabalhadores incluindo o salário mínimo nacional para 850 euros. A CDU sublinha a exigência de avançar e dar resposta imediata ao financiamento dos serviços públicos."

O secretário-geral do PCP deixa uma espécie de caderno de encargos ao PS. Sabendo que tudo isto não será feito em quatro meses, Jerónimo de Sousa - que não exclui novos entendimentos com os socialistas - deixa claro o "preço" do apoio dos comunistas a um governo PS.

Catarina Martins

"O Bloco de Esquerda foi crescendo nesta campanha, vejam lá a fazer o quê? A falar da vida das pessoas (...). A disputa política está nos projetos que a esquerda tem para apresentar (...). A direita que cortou salários e pensões, a direita que não deu resposta, foi penalizada (...). Cabe à esquerda dar resposta no Parlamento Europeu e na Assembleia da República, no tempo que ainda temos."

É um recado para quem andou a discutir o familygate e outros casos que marcaram esta campanha eleitoral. Mas é, sobretudo, uma mensagem clara para o PS de que é melhor virar-se para a esquerda do que para a direita. No discurso de vitória do Bloco de Esquerda, Catarina Martins insistiu nesta ideia de que a esquerda é a única que tem propostas para melhorar a vida das pessoas e que é neste campo político que o debate e os "entendimentos", acrescentamos nós, devem acontecer.

Assunção Cristas

"Ficámos aquém do objetivo traçado (...). Sabíamos que a abstenção era o nosso maior obstáculo e foi assim com uma abstenção histórica de 70% (.... A polarização dos votos à direita é outro fator a ter em conta (...). Compreendemos bem o sinal que os eleitores nos quiseram dar."

É o reconhecimento de uma derrota, mas é muito mais que isso. Assunção Cristas reconhece que esta campanha do CDS não correu tão bem como a das autárquicas. Mas, para Cristas, nem tudo será responsabilidade própria do partido. A presidente do CDS responsabiliza a elevada abstenção e a dispersão dos votos à direita, para justificar o fraco resultado. Esses votos, que o CDS sente que perdeu, foram para partidos como o Aliança ou o Basta. Tudo somado, o CDS não só ficou longe do objetivo traçado - eleger dois eurodeputados - como tem agora que afinar a agulha para as legislativas.