Aliança e Livre: "É a liberdade que está em jogo nestas eleições europeias"

São dois europeístas e dois especialistas em questões europeias. Um é de esquerda e foi deputado no Parlamento Europeu (PE) e fundou o partido Livre, outro está à direita e chefiou a delegação do PE em Portugal e agora é cabeça de lista do Aliança, que este fim de semana tem congresso em Évora. Rui Tavares e Paulo Sande debateram a Europa n' O Estado do Sítio da TSF.

Seja por via do financiamento partidário, seja por uma questão de acesso ao espaço mediático, sentem que os partidos que representam, "são discriminados" em relação aos que estão na Assembleia da República: "claramente", dizem. "Criar um partido novo em Portugal implica muita coragem", concordam.

O Aliança é o partido que tem congresso este fim de semana em Évora, partido fundado por um ex primeiro-ministro Pedro Santana Lopes e que apresenta Paulo Sande, um especialista em questões europeias, como cabeça-de-lista para o Parlamento Europeu. Professor na universidade católica, até ontem Conselheiro do Presidente da República para as questões europeias, chefiou durante muitos anos a representação do parlamento europeu em Portugal. Sande entende que "é muito importante perceber aquilo que não move as pessoas ou move em sentidos que não são democráticos. É essa ameaça à liberdade que deve mobilizar os europeus. É importante que os europeus percebam que o que está em causa agora, muito mais que a Europa, é a questão da liberdade. A liberdade está em jogo nestas eleições europeias". O cabeça de lista do partido de Santana Lopes atira: "se não lutarmos pelos nossos valores, os outros não vão lutar por nós".

Rui Tavares, historiador, investigador do Centro de Estudos Sociais do ISCTE, foi eurodeputado, eleito pelo Bloco de Esquerda e depois de sair do partido ficou como independente. Fundou o Livre - que teve congresso no último fim de semana. É um dos fundadores em Portugal do Movimento Primavera Europeia, impedido de se candidatar às próximas eleições enquanto tal porque o Parlamento Europeu chumbou a proposta de listas transnacionais, lamenta Tavares: "podíamos ter feito festas eleições as primeiras verdadeiras eleições europeias das nossas vidas", isto se aos europeus tivesse sido dada a escolher a possibilidade de votar em listas transnacionais, ou seja, "eleições europeias também na altura do voto", com dois boletins, um para os partidos nacionais e outro para os partidos pan-europeus. A proposta foi chumbada, com papel relevante de "Paulo Rangel, cabeça de lista do PSD. O fundador do Livre e que esteve em Bruxelas como independente nas listas do Bloco de Esquerda, entende que é necessário "refundar democraticamente UE, direcioná-la no sentido de um novo contrato social e ecológico".

Para o antigo eurodeputado, as eleições de maio têm uma importância extraordinária, porque "a União Europeia viveu uma experiência de quase morte nos últimos anos, com uma crise da zona euro que foi muito mal gerida mas vivida de uma forma dilacerante", mais o referendo do Brexit e "um perigo que é muito maior porque é existencial para a UE que é o nascimento de estados em regressão democrática, a tenderem para o autoritarismo dentro da União, como a Hungria ou a Polónia que dificilmente entrariam na UE hoje". Tavares salienta no entanto, que a UE "é muito mais resiliente do que os seus críticos eurofóbicos supunham".

Paulo Sande diz que aceitou o convite de Santana porque "há muita coisa a mudar na UE e acho que um partido como a Aliança o pode fazer para mudar a forma como estamos na Europa". E manda o recado a quem já está no hemiciclo em Bruxelas e Estrasburgo: "os deputados portugueses não podem ser os homens e mulheres invisíveis na Europa, não foram até hoje capazes de trazer a Europa aos portugueses". Em Évora, Sande promete dizer aos delegados do Aliança porque é que "Portugal é um país importante na Europa".

"Onde tudo isto falha", replica Tavares, "é numa frase que o Paulo utilizou, o convite que lhe fizeram". Pedindo desculpa ao colega de debate, não tem dúvidas de que "aqui é que a porca torce o rabo. O convite que te fizeram foi o convite que Pedro Santana Lopes fez num novo partido por não ter podido chegar no PSD ao sítio a partir do qual poderia fazer os convites. É um presente envenenado que qualquer candidato por convite descobre rapidamente. Se o candidato revelar ser uma voz incómoda, ou se tiver verdadeira independência, da próxima vez o convite não vem. A política portuguesa é um verdadeiro cemitério de pessoas que demonstraram independência. É algo que está mal e que a Aliança ou tu não são capazes de dizer". O Livre vai ter eleições primárias abertas para escolher os candidatos ao PE: "não tenho confiança em partidos que dizem que vão mudar a Europa mas não conseguem mudar eles, mas acredito em partidos que praticam a democracia em casa e que dizem que a Europa só se refunda com democracia".

Em relação aos populismos, Sande afirma: "nós não podemos ceder aos extremismos, sejam de direita ou de esquerda, porque ambos ameaçam a liberdade, e não lhes podemos ceder às bandeiras que eles reivindicam e que são os medos e preocupações despedidas". Defende que não pode haver receio de abordar "essas questões e dar-lhes soluções" fazíveis e compatíveis com os valores europeus. Mas, lembra, "esta luta só pode ser ganha com as pessoas. Se não votarem a voz que exigem ter, estão a negá-la. É um desafio que temos de fazer ao eleitorado e, já agora com novos protagonistas também".

Na apresentação da sua candidatura na passada quinta-feira, Paulo Rangel desafiou António Costa a dizer se aceita ou não a proposta da Comissão Europeia de redução dos fundos de coesão para Portugal para 7%, quando aumenta para países mais ricos como a Finlândia ouça Italia. A TSF pergunta a Sande se Rangel lhe "roubou" um dos argumentos para o discurso em Évora: "não roubou porque vou usá-lo na mesma, só que vou explicar o que é possível fazer que não feito pelos eurodeputados que estão lá, no caso do Paulo, há dez anos".

*A Hora da Europa é um projeto da TSF com o apoio do Parlamento Europeu.

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