Europeias 2019

Quem ganhou e quem perdeu? Cinco opiniões sobre estas Europeias

Paulo Baldaia, Anselmo Crespo, Pedro Adão e Silva, Pedro Marques Lopes e Ricardo Alexandre analisam os resultados destas eleições Europeias.

Pedro Adão e Silva: E se a geringonça for um arco-íris?

1. Em oito eleições europeias, por quatro vezes o partido do Governo venceu. É um facto que o voto em europeias tende a ser mais livre e com menos cálculos estratégicos sobre as consequências de cada escolha individual. Em todo o caso, em metade das eleições essa liberdade não foi suficiente para penalizar excessivamente quem governava. Talvez mais significativo, quando o partido de Governo venceu as europeias, nas legislativas seguintes cresceu sempre - foi assim com Cavaco Silva em 1987 (no mesmo dia teve 37,4% em europeias e 50,2% em legislativas), de novo em 1989 e 1991 (cresceu de 32,75% para 50,6%) e com Guterres em 1999 (de 43% para 44,1%).

Vinte anos decorridos, os 33,4% do PS nestas europeias representam um pequeno crescimento face às últimas eleições (um ponto acima das legislativas e dois acima das europeias de 2014), mas abrem boas perspetivas para outubro. Com mais de dez pontos de vantagem face a um PSD sem alternativa, o resultado de António Costa é, por isso, melhor pelo que sugere do que pelo feito de ontem.

2. Há um equívoco muito generalizado: quando um partido de direita cai, seria possível a outro, no mesmo espaço, capitalizar as perdas. A mesma asserção seria válida à esquerda. Não tende a ser verdade. Quer o bloco de direita (PSD+CDS), quer o bloco de esquerda (PS+BE+PCP) tendem a crescer em conjunto e a cair em conjunto. Nestas eleições, o CDS não capitalizou nada as perdas do PSD (não terá ajudado ter-se apresentado com um candidato com reminiscências da direita ultramontana) e Cristas falhou em toda a linha aquilo a que se propôs em Lamego há um ano. O CDS está longe de ser alternativa e ainda mais distante de liderar a oposição. Se há bloco que continua em perda é - cá como um pouco por toda a Europa - o bloco central. PS e PSD tiveram, juntos, 55% dos votos. Nas europeias de há vinte anos, tinham 74%.

3. O PAN está longe de ser uma moda passageira. Há muito tempo que era claro que, na sociedade portuguesa, existia espaço para a afirmação de um partido verde, sem grande ancoragem nas clivagens ideológicas tradicionais, acompanhando a onda europeia de crescimento de partidos ecologistas. Afirmando-se para além da esquerda e da direita, o PAN rompeu a barreira da invisibilidade mediática e tem, de novo, um grande resultado. Mais relevante, a votação no PAN está longe de ser concentrada num par de distritos. Pelo contrário, nas zonas do litoral, mais populosas, o PAN alcança sempre votações significativas (6,8% em Lisboa, 5,6% no Porto, 6,6% em Setúbal e 6,2% em Faro). Com um resultado semelhante em legislativas, pode ambicionar um grupo parlamentar entre quatro/cinco deputados.

4. As declarações dos líderes do PS, BE e PCP e, acima de tudo, os resultados das europeias não deixam grandes dúvidas. Há uma ampla maioria de esquerda, o PS não tem possibilidade de alcançar uma maioria absoluta e os eleitores estão contentes com a geringonça. Sintomaticamente, na noite eleitoral, nem Costa, nem Catarina Martins, nem sequer Jerónimo (que averbou uma derrota, em parte explicável pela viabilização do Governo PS) colocaram de lado novos entendimentos depois de outubro. Contudo, com alterações na correlação de forças entre partidos à esquerda e com a emergência do PAN, as opções para António Costa serão maiores. Razão tinham todos aqueles que diziam que a geringonça era irrepetível. Pode bem ser esse o sinal dado pelos eleitores. Em lugar de uma nova geringonça, uma coligação arco-íris, mais ampla, com verdes a dar novas tonalidades ao Governo que sairá do próximo Parlamento.

Pedro Marques Lopes: Nós por cá (quase) todos bem

O sistema partidário continua estável e sem derivas populistas e extremistas, ou seja, nós por cá todos bem. Mas, claro, uns melhores do que outros.

O PS ganhou as eleições, o BE teve um crescimento robusto, o PAN afirmou-se como partido relevante, o PCP acentuou a sua crise e o CDS mostrou que a única coisa que pode aspirar a liderar é uma qualquer pequena carrinha. Nada de extraordinário.

O facto mais significativo foi a enorme derrota do PSD, e essa, sim, pode ter consequências políticas mais profundas.

Rui Rio tinha definido uma estratégia clara. Tentar atrair o centro fazendo um discurso moderado sem temer concordar com propostas viessem de onde viessem. As coisas começaram a correr mal porque Centeno ainda foi mais moderado do que ele e conseguir passar a imagem de que gostava ainda mais de boas contas do que o ex-autarca do Porto. No entanto, foram três erros de palmatória que resultaram na debacle de domingo.

O primeiro foi a oposição à medida do Governo sobre os novos passes sociais que, ninguém duvida, o Rio presidente da câmara apoiaria. Essa perceção de que Rio estaria a criticar por criticar começou a minar a ideia do homem que diz sempre o que acredita.

O segundo foi a escolha de Paulo Rangel. O ex-candidato à liderança do PSD foi o anti-Rio. Quando se esperava que Rangel seguisse a linha do PSD, não refreou a sua veia costumeira (a velha história da tartaruga e do escorpião mais uma vez comprovada) e desatou numa campanha de berraria que apenas serviu para confundir os eleitores sobre o suposto novo caminho do PSD. Como espécie de sobremesa, no discurso de derrota sacudiu a água da derrota do capote e atirou-a para Rui Rio, uma coisa que até os opositores internos ao presidente do PSD deve ter arrepiado.

O terceiro erro foi a posição do PSD na questão da reposição das carreiras dos professores. O homem austero e das contas certas acha que o Estado deve aumentar a despesa fixa e esquecer a crise por que passamos? Incompreensível.

Estes erros têm em comum irem contra a estratégia que Rio definiu e que, de uma forma interessante, voltou a enunciar no discurso de derrota de ontem.

Rui Rio deixou-se levar na cantiga de quem passa a vida a repetir que a oposição tem que ser violenta, de ser sempre do contra e de repetir a toda a hora a bancarrota e o fantasma Sócrates. Deu este lindo resultado.

Resta a Rui Rio voltar à sua estratégia inicial e rezar para que não seja demasiado tarde.

Paulo Baldaia: Em 2019 como em 2014

A direita foi derrotada, sobre isso não ficou nenhuma dúvida. A derrota foi tão estrondosa ontem à noite como tinha sido há cinco anos. E o PS ganhou, como tinha ganhado em 2014. O Bloco de Esquerda trocou de lugar com o PCP como terceira força política e o PAN fez a vez de Marinho e Pinto. Demasiado parecido com o que se passou nas últimas europeias, para que vingasse a tese de que o bloco de direita (PSD+CDS) teve uma grande queda.

Não foi verdade que a uma grande vitória do PS tivesse correspondido uma queda da direita. Na verdade, a vitória por poucochinho de 2014 teve mais dois pontos percentuais nestas eleições e o bloco de direita teve mais um ponto percentual - se lhe juntássemos o resultado do Aliança seriam mais três pontos percentuais.

O que também aconteceu ontem, como tinha acontecido há cinco anos, foi o recorde, uma vez mais batido, da abstenção. Por cá, os eleitores que se cansam dos partidos tradicionais ora engrossam a fileira dos abstencionistas, ora votam em partidos da moda, mas nunca dando força à extrema-direita. Ainda bem!

Anselmo Crespo: A noite em que todos perderam, sobretudo nós

A taxa de abstenção destas eleições europeias - quase 70% - é uma tragédia para a democracia que deve fazer soar todas as campainhas, em todos os partidos, em todas as instituições e, sobretudo no espírito de todos os políticos. Não foi o calor, nem a praia que afastou os eleitores das urnas. Foram os partidos e os que os representam que criaram as condições para que apenas 30% decidam o futuro da Europa e de Portugal.

As causas são várias. Campanhas eleitorais que continuam a ser feitas como se ainda estivéssemos na década de 1980, completamente desfasadas da realidade, que nada esclarecem, nada aproximam, pelo contrário, só criam uma rejeição ainda maior dos cidadãos em relação à política. Candidatos que insistem em calcorrear ruas vazias rodeados de jotas, que percorrem feiras e mercados à procura de um momento engraçadinho para as televisões e que caem sistematicamente no ridículo. A forma como se fazem campanhas eleitorais é uma das reflexões mais urgentes que os partidos políticos devem fazer. Bem sei que há quem queira juntar a esta reflexão a comunicação social, e não digo que os jornalistas não tenham também que a fazer. Mas lembro que não são os jornalistas que pedem aos candidatos para andarem de bicicleta.

Há uma outra grande reflexão a fazer, esta de substância e que é a mais importante de todas: a mensagem política dos partidos - sobretudo os tradicionais - está a criar uma rejeição cada vez maior no eleitorado. Não é que ela não chegue às pessoas, porque chega. As pessoas é que já não a querem ouvir. E não é estranho que assim seja. Não se pode estranhar a queda do PSD e do CDS, quando estes dois partidos não conseguem afirmar qualquer alternativa para o país. Quando fazem uma campanha de casos e de guerrilha, em vez de apresentarem propostas, ideias e formas de as implementar.

Coisa parecida se pode dizer sobre o PS que, apesar de não ter ganho por poucochinho, também não ganhou por muito. Um fenómeno cada vez mais comum, um pouco por toda a Europa: quem ganha, já não o consegue fazer com votações expressivas, nem com grandes diferenças face aos principais adversários. O discurso hermético, as propostas velhas, ultrapassadas e, tantas vezes vazias, juntamente com uma campanha que assumiu tantas vezes contornos patéticos, ajudam a explicar porque é que o PS, face a adversários tão debilitados, não conseguiu mobilizar o eleitorado e ter uma vitória esmagadora nestas Europeias.

Em sentido contrário, é a novidade e o pragmatismo da mensagem dos pequenos partidos - como o PAN, por exemplo -, que está a tornar a dispersão de votos numa realidade cada vez mais frequente. Quando a mensagem é clara e, sobretudo, quando as propostas são feitas a pensar na vida quotidiana das pessoas, elas acabam por se identificar.

Os chamados partidos grandes perderam essa capacidade. E, ao perdê-la, estão a abrir espaço a novos partidos que nuns casos são uma lufada de ar fresco na política, mas noutros são um escancarar de portas aos populismos, aos radicalismos e aos muitos que andam por aí à espreita para destruir a democracia.

Tudo somado, o grande vencedor destas eleições não foi o PS, não foi o Bloco, nem tão pouco o PAN. Quem venceu estas Europeias foi a abstenção. O que faz com que a grande derrotada tenha sido a democracia. Ou seja, todos nós.

Ricardo Alexandre: Poucochinhos a votar, alguns a ganhar pouco, poucos a ganhar muito e todos perdemos

Seguro. Foi seguro o triunfo do PS. Confortável em relação ao segundo, o PSD, com uma diferença superior a onze pontos percentuais. Pedro Marques e António Costa são vencedores. Mas apenas dois pontos acima do que conseguiu Seguro há cinco anos. Uma subida que é uma espécie de reposição dos rendimentos no país. Existe, mas em poucochinho.

Seguro diz estar Rui Rio na liderança do PSD. "Eu não abandono", garantiu o líder social-democrata, após mais uma derrota sem margem para dúvidas. O PSD, com Rangel à cabeça, perdeu mas não muito. Poucochinho, se comparado o resultado com o obtido em 2014, quando em coligação com o CDS e estimando os resultados então obtidos pela coligação (atribuindo 80% a sociais-democratas e 20% a centristas). Nessa perspetiva, quem perde poucochinho é o partido de Cristas e Melo. Com base na atribuição dos votos da Aliança Portugal, até sobe de 182 mil para quase 205 mil. Mas se pensarmos nos quase 300 mil votos em 2009, o desaire no Largo do Caldas não é nada poucochinho. E falhou o objetivo de aumentar a presença em Bruxelas. Mota (Soares) foi de vela.

A CDU não reclamou vitória. Notícia. Jerónimo de Sousa foi realista na análise dos resultados. A CDU deixa de ter três eurodeputados no Parlamento Europeu e viu-se ultrapassada pelo Bloco de Esquerda. Não é caso para o Centro de Trabalho Vitória mudar de nome, mas não há-de ser poucochinha a azia para os lados da Soeiro Pereira Gomes.

Por poucochinho o Bloco de Esquerda não elegeu um terceiro eurodeputado. Faltavam três mil votos, ou algo próximo disso para levar mais um sociólogo para o PE, Sérgio Aires. José Gusmão vai fazer companhia a Marisa Matias e o partido é um dos vencedores claros da noite. Embora percentualmente abaixo do voto nas legislativas de 2015 (9,74% contra 10,19% na altura), mas muito superior aos 4,93% às europeias em 2014; os bloquistas conseguiram mais de 325 mil votos, tendo ficado em segundo lugar à frente do PSD em quatro freguesias de Lisboa: Marvila, Penha de França, Santa Maria Maior e São Vicente.

Poucochinho poderá ter igualmente faltado ao PAN para eleger um segundo eurodeputado, Bebiana Ribeiro da Cunha. Mas a eleição do cabeça-de-lista Francisco Guerreiro e o quase triplicar de votos em relação às legislativas não deixam de ser notáveis. Até hora bem avançada na noite, o PAN estava a poucochinho de apanhar o CDS. Tal como o Livre de Rui Tavares esteve perto de ultrapassar a Aliança de Sande e Santana. Ambos sem conseguir eleger. O partido das Pessoas, Animais e Natureza é um dos vencedores da noite eleitoral.

Esperavam ler-me sobre os resultados lá fora? Pois bem, é agora. Mas se perdesse a oportunidade dos parágrafos acima, ainda corria o risco de ser o único a não nacionalizar as eleições para o Parlamento Europeu. Como poderia arcar com tamanha responsabilidade? Mas vamos a isto.

Comecemos pelo Reino Unido. O Brexit Party de Nigel Farrage foi o grande vencedor (31,71% dos votos, suplantando a vitória do UKIP com 26,7% em 2014, que agora não foi além de 3,57%). Não param os terramotos entre os Tories: depois da demissão da primeira-ministra, agora o Partido Conservador - que Theresa May (ainda) dirige - não foi além dos 8,71% (contra os 23,31% em 2014 e segundo mias votado); sendo ultrapassado no quarto lugar pelo Green Party (Partido Verde). Mas se, face a 2014, os trabalhistas de Jeremy Corbin desceram dez pontos percentuais, não ultrapassando agora os 14%, a verdade é que os LIb-Dem são claramente também vencedores, com 18,55% dos votos (6,69% em 2014) e a segunda posição.

Tal como no Reino Unido, as forças antieuropeístas têm razões para sorrir em Itália. La Lega (antiga Liga Norte, extrema-direita no poder com o vice primeiro-ministro Matteo Salvini) passa de 6,15% para 29%, uma subida de 23 pontos que é precisamente a descida conjunta dos partidos do centro (o Partido Democrático de Renzi baixou 17 pontos percentuais e a Forza Itália de Silvio Berlusconi caiu 6). O Movimento 5 Estrelas continua a ter os mesmos 21% de apoio popular.

Em Espanha, o Vox entra com três eurodeputados para Bruxelas/Estrasburgo, o PSOE confirma a vitória obtida nas eleições gerais e o Cuidadanos de Albert Rivera passa de pouco mais de 3% para 12%, mais do que triplicando a representação no PE. O PP de Pablo Casado teve mais uma noite para esquecer. Oriol Junqueras e Carlos Puigdemont foram eleitos. Mas um está preso e o outro fugido.

Em França, Marine Le Pen quer dissolver a Assembleia Nacional (onde tem apenas meia dúzia de deputados) e fazer valer o peso que já tem a nível europeu. O Republique En Marche foi derrotado por poucochinho. Mas foi derrotado e Emmanuel Macron não tem dado ares de que saiba perder. Socialistas e centro-direita, em França, praticamente não existem. Quem diria?

Na Alemanha, os Verdes liderados por Ska Keller mais do que dobraram a sua votação (de 10% para 22%), com descida da CDU-CSU e trambolhão dos sociais-democratas (SPD), tendência de crescimento do voto ecológico que se verificou em vários países europeus.

O partido de Juncker perdeu no Luxemburgo, Orban consolidou vitória na Hungria, os conservadores continuam em maioria no Parlamento Europeu e no Conselho, o Syriza foi derrotado na Grécia. Tsipras só pode sorrir (mas muito amarelo), por uma coisa: Varoufakis não foi eleito na Alemanha.

Que Europa queremos como ator global? Que Europa perante Trump, Xi e Putin? Como viver enquanto bloco neste atual quadro global de competição estratégica?

Que Europa queremos perante os desafios dos movimentos migratórios (saberemos de uma vez por todas acolher e pensar o futuro ou iremos fechar, anuindo à ventania identitária do leste e da bota no sul)?

Que Europa perante as correntes europeias anti-Europa? Que Europa perante as alterações climáticas? Que Europa perante as transformações no trabalho com a entrada em força da inteligência artificial na economia e nas nossas vidas?

Que Europa da cultura e da educação queremos? Que mudanças pretendemos fazer ou não na zona euro? Não houve muita discussão sobre isto. Como se não fossem assuntos para europeus.

Com uma abstenção de metade dos 400 milhões de eleitores europeus, mas de mais de 68% em Portugal, houve mais de dez mil (ena, tantos) portugueses no estrangeiro que se deram ao trabalho de ir votar. Dez mil quando fazem parte dos cadernos eleitorais 1,400,000. Poucochinho? Não, é o que temos. Todos perdemos.

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