"Procedimentos facílimos" e rapidez. Como foi a votação antecipada em Lisboa

O voto antecipado foi, pela primeira vez, aberto a todos, de norte a sul do país. Mas como foi a experiência pioneira nos Paços do Concelho, em Lisboa?

"Minha querida, diga-me, como se chama? Se vai votar na secção três, pode passar à frente." Beatriz Ferreira teve sorte. Adiantou-se a um cordão humano, cujas forças não são apenas físicas, mas assentes em princípios que partilham. É que esta é, para a estudante de Direito, prestes a entregar a tese de mestrado, "a única forma de nós assegurarmos que cumprimos o nosso papel e que conseguimos fazer a diferença".

Ficou uma hora à espera para entrar nos Paços do Concelho, mas acabou por desfrutar um pouco. "Porque sempre quis entrar neste edifício, e sinto que promove a reflexão. Mas cada pessoa vive o momento do voto à sua maneira", assegura à TSF, ao mesmo tempo que recorda o interior de pedra sólida, os dourados e as luzes que pendem de uma escadaria imponente.

O momento é também grandioso para a eleitora de 26 anos. Esperou no interior, numa fila ordeira, em silêncio, pela vez de ser chamada às urnas. Depois, a entrega do cartão de cidadão, documento único até para o sufrágio, esclareceu os funcionários da câmara sobre a freguesia onde deveria votar.

Beatriz Ferreira é de Penafiel, mas trabalha e estuda em Lisboa - e é também uma das provas de um Portugal de mobilidade, em que do topo norte ao sul vão cerca de 500 quilómetros. Quinhentos quilómetros que podem ser a barreira do intransponível, quando os compromissos e os custos das viagens são constrangimentos dos direitos dos cidadãos.

"São iniciativas como esta que vão resolver isso", assinala a estudante. O trabalho? Apenas "uma cruz num papel", mais fácil do que as disciplinas a que tem de passar no fim do semestre. "A maior parte dos licenciados em Direito que eu conheço não vêm votar, e isso é algo que me incomoda muito", revela Beatriz Ferreira, que acredita, no entanto, nos bons resultados do voto antecipado aberto a todos.

A eleitora, deslocada da terra de origem, tece críticas muito positivas à votação de 19 de maio. "Isto vai aparecer nas notícias, e as pessoas vão ver que muita gente foi votar. Se calhar, isso vai impulsionar muitas pessoas a ir votar no dia 26", augura Beatriz Ferreira.

"Não sei como se organizaram, mas acho que o facto de haver sempre um funcionário na fila a tentar coordenar qual a secção que fica disponível primeiro é muito útil", analisa a estudante, para quem a "experiência-piloto correu muito bem".

Processo "bastante rápido"

Para Filipe Silva, de 69 anos, foi também "bastante rápido": 10 minutos passados na fila da Praça do Município, em Lisboa. "Os procedimentos são facílimos", acrescenta ainda.

A medida, "que já deveria ter sido implementada há mais tempo", oferece a prerrogativa de votar fora da zona de residência, mas ainda não é, segundo o eleitor sexagenário, suficiente. "Teria sido melhor abrir as mesas em todos os concelhos. Mas compreendo que seja a primeira vez", esclarece.

Em fila indiana, como aprenderam nos tempos da escola, centenas de pessoas aguardam pelo instante em que vão poder exercer o direito à escolha, e provar que têm a lição estudada em relação aos candidatos às europeias. Gastão Silva já está longe dos tempos da sala de aula. Faz este domingo 53 anos, e acredita que festejar é também ir até à boca das urnas.

"É a minha segunda tentativa, porque vim por volta das 13h00 e estava uma fila muito grande", conta. Mas "em 15 minutos despachei a situação", admira-se o aniversariante.

A expectativa quanto à falta de adesão foi, segundo o eleitor, mais do que refutada. "Todas as medidas que sejam facilitadoras do voto são boas", reflete, depois de, na sua secção, um funcionário se ter disponibilizado a encaminhá-lo "para apressar o processo".

"Uma medida ótima para jovens deslocados das suas terras"

Num país de partidas e chegadas, a Praça do Município foi local de encontro, onde a bagagem é apenas um documento pessoal, valores próprios e conhecimento adquirido durante o período pré-eleitoral. "O voto é uma das demonstrações do que é a democracia. Se queremos um regime democrático e uma União Europeia - ainda que com muitos defeitos -, temos de protegê-la. E protegê-la é vir votar", apela Ricardo Faria.

"O desânimo não leva a lugar nenhum, não é resposta", assevera o eleitor de 28 anos, que decidiu votar antecipadamente por não saber se o poderá fazer no próximo domingo.

A iniciativa é também "uma medida ótima para combater a abstenção dos jovens que estão deslocados das suas terras", na perspetiva de Ana Lopes, de 25 anos. Natural de Góis, uma vila perto de Coimbra, foi com uma amiga, que é de Braga, votar, porque no próximo fim de semana seria impossível para ambas.

"Às vezes, não dá mesmo para fazer uma viagem, mesmo em termos do que significa financeiramente", explica Ana Lopes à TSF, enquanto confidencia que inicialmente estava reticente e apreensiva por achar que se trataria de um processo bastante complicado.

"Não me importava de esperar 20, 30 ou 40 minutos"

Para Afonso Nápole também é mais vantajoso votar em Lisboa do que deslocar-se até Portalegre, a sua cidade de origem. "Se não pudesse votar hoje, ter-me-ia deslocado no dia 26, mas seria um incómodo" em plena época de exames e frequências, revela o estudante de 23 anos. Mas votar é essencial, um dos direitos de que Afonso não abdica.

Está há 20 minutos à espera, mas não se importava "de esperar 20, 30 ou 40 minutos" para exercer a sua escolha.

Geografias à parte, os valores de jovens e menos jovens nos Paços do Concelho não estão assim tão distantes. "Deram a alternativa e eu optei. Vou optar sempre. Votaria sempre. Eu vou deslocar-me ao Norte, mas teria de voltar mais cedo para vir votar, mesmo quase no fecho das urnas", garante Maria Magalhães, que pretende, no próximo domingo, ir visitar o filho que vive longe.

"É uma aventura, porque eu vivo em Sintra"

As motivações são unas, embora haja tempo, enquanto se espera, para uma ou outra conversa política. "O mundo está a ficar muito extremista, e nós temos de o equilibrar". Quem o diz é Maria Gonçalves, de 72 anos, contente, ainda assim, por ver tanta gente com crenças igualmente sólidas.

"É uma aventura, porque eu vivo em Sintra e venho de lá, mas vale a pena."

Vale também a pena para Mariana Vasconcelos, de 20 anos, que vota este domingo pela primeira vez, mas já dá lições para o futuro eleitorado: "Foi facílimo: cartão de cidadão, email, e ficou tratado." A oportunidade "dada a todos" é positiva, segundo a recentemente capacitada eleitora, que olha para as pessoas que se acumulam na praça e reflete sobre os números vastos da abstenção. "Muitos deles poderiam fazer parte desse número."

Mais de 19.500 pessoas pediram, entre 12 e 16 de maio, para votar antecipadamente nas eleições europeias, e Lisboa foi o distrito com mais pedidos (8.851), segundo dados fornecidos pelo Ministério da Administração Interna.

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