Colaboração e especialização vão marcar o investimento em inovação nos próximos anos

Se a inovação aberta é importante para o sucesso da inovação, a colaboração entre financiadores públicos e privados e uma cada vez maior especialização do financiamento desempenha um papel chave para a melhoria dos índices de inovação nacionais. Esta foi uma das ideias defendidas no debate sobre aceleração e financiamento da inovação que teve como intervenientes António Coutinho, CEO da EDP Inovação, Bruno Tavares, diretor de Business Development da Brisa, e Matteo Consonni, diretor de Business Creation da EiT e Urban Mobilty.

Num debate intitulado "Aceleração e financiamento da inovação", moderado por Rosália Amorim, diretora do Diário de Notícias, António Coutinho, Bruno Tavares e Matteo Consonni revelaram também algumas das lições aprendidas com os projetos que têm vindo a apoiar. Manter o espírito aberto e aceitar que uma boa ideia pode falhar são duas delas. Outra, muito importante e sublinhada pelos representantes da Brisa e da EDP Inovação, é manter o caráter "ambidestro", investindo simultaneamente em projetos de inovação incremental e disruptiva. Mas, para Consonni, há uma área em que as grandes empresas ainda podem melhorar: agilidade e rapidez na tomada de decisão.

Questionados por Rosália Amorim, os três membros do painel foram unânimes quanto à importância da investigação colaborativa. "No caso da mobilidade há uma multiplicidade de atores envolvidos. A chave do sucesso é a colaboração que vai permitir não só perceber quais as necessidades das cidades como conseguir compatibilizá-las com as necessidades do mercado", afirmou Matteo Consonni.

Os representantes da Brisa e da EDP Inovação - que colaboram em alguns projetos - também destacaram a importância da inovação aberta e colaborativa. Mas, para os três intervenientes, também é importante que este espírito de cooperação se estenda ao financiamento, com uma maior colaboração entre os setores público e privado. "Diferentes fontes de financiamento têm importância em diferentes fases do projeto. Mas é importante existir uma colaboração entre investimento público e privado e ver qual o valor, em termos de projeto, que cada investidor pode trazer", referiu Consonni, para quem a área das tecnologias limpas traz exemplos particularmente claros do que pode ser feito. "Ao investir em soluções sustentáveis há um mandato por parte da EiT para que o projeto tenha um retorno social e ambiental, a par com o retorno financeiro. Do lado público é mais facilmente justificável o retorno ambiental relativamente ao financeiro".

Por seu turno, António Coutinho sublinhou a importância da adoção das soluções e produtos criados pelas startups por parte do mercado. "Por vezes confunde-se inovação com invenção. E se bem que a invenção seja importante para a inovação, a inovação não é mais do que uma boa ideia adotada em grande escala. E a adoção é a palavra chave", afirmou. Para o CEO da EDP Inovação, este é um conceito particularmente importante no que toca à transição energética. "Muitas das tecnologias que vão ser prevalentes até 2030 já existem. Temos é de conseguir lançá-las no mercado e que este as adote. É ai que se fala de inovação. E isto exige um trabalho conjunto do setor público e privado", afirmou.

"Há muito dinheiro no mercado. A questão é saber se existem projetos com qualidade em número suficiente para absorver esse dinheiro", frisou António Coutinho, para quem é claro que o número de projetos de qualidade é ainda insuficiente. "Daí que seja ainda mais importante trabalhar em conjunto. Também aqui a questão da adoção é muito relevante: há muitos players focados na parte técnica mas essa é apenas uma parte do problema. Cabe-nos a nós ajudar as startups que apoiamos e perceber quais os pontos em que podem melhorar e aspetos em que se devem focar", garantiu o responsável da EDP Inovação.

Já quanto aos apoios da Comissão Europeia aos projetos e iniciativas na área da descarbonização, os três participantes não tiveram dúvidas: este nunca será suficiente. "Dou apenas um exemplo: uma estatística recente mostrou que se apenas 50% da mobilidade da área de Lisboa fosse eletrificada seria necessário um aumento de 100% ao nível da rede", referiu Bruno Tavares. "Os preços da eletricidade estão a bater recordes e nós, no setor da energia, temos 30 anos para ultrapassar um sistema que está instalado há 130 anos. O desafio é muito grande", assumiu, por seu turno, António Coutinho para quem esta é mais uma razão para trabalhar em conjunto.

Independentemente de como ou em que área se investe, cabe a cada incubadora e acelerador de empresas decidir, enquanto investidor, quais os projetos em que vale a pena investir, para o que é essencial antecipar tendências. Para Matteo Consonni, a única forma de o conseguir é estar atento às tendências dos últimos anos (por norma uma década), perceber os seus níveis de maturidade e, tendo em conta, as necessidades do mercado, antecipar quais os problemas a que será necessário dar resposta nos próximos anos. "A urban air mobility será uma tendência a ter em atenção, não só no que toca ao transporte de pessoas como de carga", vaticinou, sendo secundado por António Coutinho "No Brasil estamos a trabalhar nesta área com a Embraer. Quando vi a ideia pela primeira vez pareceu-me improvável, mas agora a questão não é se mas quando avançamos com o projeto"

Especializar o investimento

Para António Coutinho e Bruno Fernandes o atual mercado de financiamento português já tem maturidade."Há sempre dinheiro para bons projetos", garantiu o CEO da EDP Inovação. Contudo, para António Coutinho, tanto o país, como as startups, teriam a ganhar se houvesse uma maior especialização por parte dos investidores, dando como exemplo o caso de Israel, cujo investimento se focou na área da cibersegurança. "É importante haver especialização ao nível da paisagem de inovação. A inovação nos setores da energia e da mobilidade poderiam ser boas áreas para Portugal se especializar, já que respondem a necessidades globais", referiu António Coutinho, que sublinhou a importância de nunca perder o foco no mercado global.

Um ponto de vista também partilhado por Matteo Consonni, que avançou com a noção de "startup nations" para batizar os países cujo investimento em inovação está centrado em setores específicos. O diretor de business creation da Urban Mobility não deixou de referir as melhorias ao nível dos indicadores de inovação registadas em Portugal nos últimos dez anos, com resultados visíveis ao nível do mercado. "Sobretudo Lisboa tem vindo a atrair as indústrias tech in, também graças a acontecimentos como a Web Summit. Mas a verdade é que é necessária mais especialização".

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