Startups de micromobilidade recebem empurrão no pós-pandemia

Trotinetas e bicicletas elétricas atraem mais os utilizadores que evitam táxis, boleias partilhadas e transportes públicos. Em Londres ou Nova Iorque procura cresce 60%.

A 19 de abril, em pleno confinamento por causa da pandemia de Covid-19, as bicicletas partilhadas Santander Cycles registaram o dia mais concorrido do ano em Londres. Umas semanas antes, em Nova Iorque, a procura pelas Citi Bikes tinha disparado 67%. Em ambos os casos, os modelos são da canadiana PBSC Urban Solutions, que aos poucos está a expandir-se na Europa, depois de chegar a Londres, Mónaco, Barcelona e Valência. Segundo nos disse a diretora de marketing urbano Nathalie Doré, está para breve a chegada a mais localidades em Espanha.

"Somos os únicos a oferecer às cidades um portfólio de 4 bicicletas, 2 regulares e 2 elétricas, e uma solução integrada de estações inteligentes e tecnologias avançadas para alugar bicicletas, gerir e operar um sistema ou planear expansões", afirmou a responsável, explicando o atrativo das bicicletas, que são personalizáveis. "As cidades também apreciam a estação modular, adaptável e portátil, que pode ser transportada de acordo com as necessidades, para eventos, obras, etc.".

A PBSC, que se considera uma forma "simples e eficiente em termos de custos para as cidades melhorarem a mobilidade urbana", é uma das empresas de micromobilidade que está a prosperar em tempos de incerteza.

As características da crise de saúde pública provocada pela pandemia de Covid-19 levaram a que este tipo de soluções de mobilidade individual se tenha tornado mais atrativa. Foi o que explicou Vince Cifani, CEO da Joyride, uma plataforma que permite lançar serviços de micromobilidade partilhada em qualquer parte do mundo.

"É estranho dizer isto, mas em termos do nosso negócio estes foram os três meses mais fortes que alguma vez tivemos", revelou o executivo, numa sessão virtual organizada pela Micromobility Industries. "Há muitos interessados em lançar pequenos sistemas de micromobilidade porque veem espaço no mercado. Não só por as grandes marcas saírem de cidades, mas também porque os utilizadores não querem usar transportes públicos."

As marcas a que Cifani se referia são a Lime, Bird e Jump, as gigantes do mercado que abandonaram algumas cidades e congelaram operações noutras.

O momento dos pequenos negócios

"Este mercado não vai ser dominado por companhias vindas da Califórnia, mas por muitos pequenos players com imensa paixão", declarou. Um exemplo é a Lynx City, que começou com uma frota de apenas 50 trotinetes elétricas numa pequena cidade do Connecticut. A startup não quis levantar capital de risco e tem aumentado a sua frota de forma incremental. Segundo o CEO, Alan Moisio, a intenção não é tornarem-se na próxima Bird ou Lime, pelo contrário. E desde que a Covid-19 alterou tudo, surgiram mais oportunidades. "Algumas cidades estão a contactar-nos porque procuram um operador local com uma equipa local", referiu na sessão. "Este mercado não vai desaparecer. Os grandes vão sair das cidades e vocês vão ver muito mais startups pequenas como nós".

Durante o confinamento, a Lynx City tornou-se uma alternativa para profissionais de saúde e recebeu pedidos para fornecer trotinetes em certos bairros onde eram necessárias para a mobilidade de "última milha", em sítios onde as grandes deixaram de operar. "Vemos mais pessoas a quererem usar uma trotinete em vez de entrarem num Uber ou num táxi", explicou Alan Moisio. Segundo o responsável, está a ser desenvolvido um sistema que permitirá a este tipo de veículos fazerem desinfeção autónoma, o que seria "tremendo" não apenas por causa da Covid-19, mas, no longo prazo, porque faz sentido para um meio tocado por tantos utilizadores.

Neste momento, a Lynx tem uma equipa de limpeza que desinfeta as trotinetes utilizadas nas localidades onde está presente, e Moisio disse que os clientes também o fazem antes de usarem os veículos. "Penso que as pessoas se adaptaram", considerou.

Pandemia acentuou uma tendência

Para Nicola Dallatana, responsável pela nova divisão de e-mobility da Toyota Tsusho, a pandemia só veio acelerar uma tendência que já estava identificada. "Acreditamos que haverá uma grande procura por micromobilidade daqui em diante, especialmente com a atual situação da covid-19", disse o executivo, numa outra sessão virtual organizada pela empresa de IoT de segurança em mobilidade, Cosmo Connected. "A última milha é uma parte muito importante no espetro da mobilidade", afirmou, referindo uma das parcerias da Toyota neste segmento: uma cadeia de rodas conectada para pessoas de mobilidade reduzida, Indigo Weel, que consegue detetar obstáculos e abrandar para evitar o perigo.

Na Joyride, está a singrar o conceito de operadores locais, especializados e ágeis. Segundo Cifani, muitos operadores estão a lançar frotas em complexos de apartamentos, edifícios de escritórios, campus universitários e outros ambientes de alcance limitado. A sua perspetiva é que a tendência vai aumentar agora que as pessoas estão a repensar a forma como se deslocam.

"Há uma grande necessidade das pessoas de usarem micromobilidade. Já não vão usar os transportes públicos da mesma forma", disse. Eu, certamente, não voltarei ao metro tão cedo."

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