Anticiclone dos Açores está a expandir-se e intensificar-se

Outros investigadores concordam com o estudo, mas apresentam dúvidas relativamente ao impacto no clima da Península Ibérica.

PorRui Oliveira Costa
© Artur Machado/Global Imagens

A meteorologia pode, por vezes, parecer aleatória e as consequências do aquecimento global aumentam essa perceção. Contudo, há processos básicos da natureza que a determinam e alguns deles não têm grandes variações ao longo do tempo. Um exemplo é o anticiclone dos Açores.

No entanto, um estudo mostra que, nos invernos das últimas décadas, o anticiclone está maior e mais intenso. Os autores da pesquisa afirmam ainda que uma anomalia assim não acontecia há mais de mil anos, o que estaria a afetar as chuvas.

Mas o que é um anticiclone? Segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, "são regiões de alta pressão atmosférica em torno das quais o vento sopra no sentido do movimento dos ponteiros do relógio no hemisfério norte (e em sentido contrário no hemisfério sul), porque a pressão atmosférica é máxima no centro e diminui à medida que a distância ao centro aumenta". O dos Açores, assim chamado por partilhar localização com o arquipélago português, "é um exemplo de um anticiclone subtropical".

Este anticiclone é a chave para o clima da Península Ibérica e afeta também a restante Europa ocidental, bem como a costa leste dos Estados Unidos da América.

O anticiclone dos Açores e a depressão da Islândia, um sistema de pressões baixas que leva a humidade oceânica até à Europa e as chuvas, formam os polos opostos da oscilação do Atlântico norte. Durante o verão, os dois sistemas aumentam e deslocam-se para norte, cortando a humidade e provocando um tempo mais seco e quente na Península Ibérica. Pelo contrário, o anticiclone dos Açores encolhe perante a depressão da Islândia no inverno.

Mas é exatamente isso que está a mudar, de acordo com o estudo publicado na revista Nature Geoscience, que mostra que o anticiclone dos Açores expande-se para lá dos limites habituais com maior frequência. Além disso, está a intensificar-se, com altas pressões, comparado com as médias registadas no passado.

"O nosso estudo centrou-se especificamente nos meses de inverno, já que é a principal estação na qual a Península Ibérica recebe a maior parte das suas precipitações. As mudanças em tamanho e posição das altas pressões dos Açores durante estes meses têm um grande impacto no transporte de humidade desde o Atlântico ao dirigir os sistemas portadores de chuva", disse Caroline Ummenhofer, uma das autoras da investigação, ao El País.

A equipa utilizou vários modelos climáticos para estimar os invernos em que as pressões altas iam além do comum e os dados de pressão atmosférica de estações meteorológicas da região. As de Lisboa e Açores, por exemplo, têm dados que remontam a 1850.

"As nossas análises mostram que os invernos com um anticiclone dos Açores especialmente grande coincidem com condições secas pouco comuns no inverno da Península Ibérica. Pelo contrário, as frentes de tempestade do Atlântico norte fortalecem-se mais a norte, com a Noruega e o Reino Unido a experimentarem condições húmidas incomuns", explica a investigadora.

No entanto, outros investigadores não veem esse impacto no clima tão certo, apesar de concordarem com as mudanças evidenciadas no estudo.

"Nos melhores modelos disponíveis para estudar o clima do último milénio [os utilizados neste estudo], os gases com efeito de estufa são vistos como causando uma expansão e intensificação do anticiclone dos Açores, promovendo condições mais secas em toda a Península Ibérica. Esta resposta aos gases com efeito de estufa poderia explicar as mudanças no anticiclone dos Açores que têm sido observadas nas últimas décadas, as observações mostram-nas inequivocamente", refere Pablo Ortega, climatólogo do Barcelona Supercomputing Center.

Os modelos dependem dos parâmetros introduzidos, das observações reais para afiná-los e da capacidade de computação.

Essa é uma das dúvidas do paleoclimatólogo Armand Hernández: "Confiam demasiado em modelos e têm apenas uma fonte de informação observável, como os espeleotemas [estalactites e estalagmites]. Poderiam ter usado outros registos, tais como sedimentos lacustres ou anéis de árvores."

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