A pandemia de Covid-19 já matou mais de 122 mil pessoas em todo o mundo
Covid-19

"É cedo para certificados de imunidade." A Covid-19 vista por quem dedica a vida às epidemias

Ruy Ribeiro é professor de bioestatísticas na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e um dos coordenadores do mestrado em Epidemiologia. Trabalhou muitos anos nos EUA e em Inglaterra, onde desenvolveu modelos matemáticos sobre propagação de vírus. Em entrevista à TSF, fala sobre o modo como o mundo está a lidar com a pandemia de Covid-19 e como esta se compara a outras epidemias recentes.

A partir de que altura deve avançar no terreno um estudo serológico que nos diga o grau de imunidade da população?

Os testes serológicos poderão permitir ver se as pessoas já foram infetadas [pelo novo coronavírus] no passado e se desenvolveram imunidade. Há duas hipóteses em relação a estes testes: uma é que sejam suficientemente eficazes, e que deem resultados corretos; e outra, que também é possível, é que os testes falem em imunidade quando [a pessoa infetada] ainda tem o vírus, e ainda pode espalhá-lo. É preciso algum tempo. Neste momento, mesmo para termos uma ideia de quantas pessoas foram infetadas - e se esse número está próximo ou não dos números oficiais, em todos os países - poderiam começar a ser aplicados. Mas pode ainda ser muito cedo para aquela ideia do certificado de imunidade de que se falou, porque não sabemos se os testes são suficientemente precisos.

Neste momento, já é possível ter os testes afinados para esse efeito?

Há muitos testes no mercado. Muitas empresas estão a comercializá-los, e varia muito. Há muitos que não são bons, nem sequer têm a qualidade que dizem ter, e outros que poderão já tê-la. Eu penso que, a nível europeu, está-se a fazer um esforço para aprovar os fabricantes, mas não tenho a certeza de quais é que já estarão aprovados.

Estes testes têm de ser repetidos, ou devem ser repetidos, num período de tempo predeterminado?

Se o teste der positivo, e assumindo que é um teste bom, ou que não tem um falso positivo, ou não tem muitos falsos positivos, então significa que a pessoa tem imunidade e não precisará de fazê-lo outra vez durante meses. Nós não sabemos se essa imunidade durará meses ou anos, mas não será necessário fazer [novamente o teste] a curto prazo ou até a médio prazo. Se o teste der negativo - isto é, se a pessoa ainda não tem imunidade ou ainda não foi infetada, ou não desenvolveu a imunidade -, o teste terá que ser repetido, porque aquilo que é importante é as pessoas darem positivo. Se não der positivo, quer dizer que não tiveram ainda a infeção.

O professor Rui Ribeiro acompanhou de perto algumas das últimas epidemias globais: o ébola e o SARS...

Foi mais o ébola e o H1N1, em 2009.

Há alguma coisa na forma de lidar com o estudo da doença e na forma de travar essas epidemias que possa ser usado agora?

Acho que há muitas coisas a nível mundial, e existe já uma certa capacidade de mobilização e de tentar prever o curso da epidemia, que vem de mobilização feita anteriormente e mesmo de modelos que foram feitos e que podem ser adaptados. Mas, por outro lado, houve coisas que poderíamos ter aprendido e que, se calhar, não aprendemos. Uma delas é que, no meu ponto de vista, durante uma epidemia, os dados são muito falíveis. Não é específico de Portugal, não tem nada de específico do nosso país, acontece em todos os países: durante a pandemia ou durante a emergência, as autoridades têm de estar muito focadas em resolver os problemas prementes e é muito mais difícil termos a certeza de que os dados são fiáveis, ou que refletem a melhor informação possível. Isso é uma coisa que eu acho que poderíamos melhorar. Para o futuro.

Ter mais acesso aos dados?

Nem é bem isso. Por exemplo, falando dessas epidemias anteriores: durante o ébola, a Organização
Mundial de Saúde ia recolhendo e disponibilizando os dados, mas havia muitas correções - afinal, os dados não estavam corretos, os dados que reportamos não se referem ao momento das infeções, mas sim ao momento dos testes. Agora mesmo, nos Estados Unidos, o CDC (Centro para o Controlo de Doenças) vai revelando dados sobre o número de infetados, correspondente às datas em que os testes foram feitos e não há datas de quando as pessoas poderão ter sido infetadas. É mais difícil de apresentar esse tipo de informação.

E isso dificulta a definição de políticas de saúde pública?

Sim. Por exemplo, dificulta termos uma ideia correta do número de infetados que realmente existem, ou do número de pessoas que já foram infetadas. Especialmente quando há casos assintomáticos, é muito difícil, durante a pandemia, e temos de fazer estimativas que têm que ver com o número de testes que conseguimos fazer e, à medida que aumentamos o número de testes, vamos encontrando mais pessoas infetadas. Não sabemos se isso é porque estamos a aumentar o número de testes, ou porque realmente há mais pessoas infetadas. Provavelmente, até será uma mistura das duas.

Admite que seja real aquela projeção que o jornal El Pais tem divulgado, que estima que só sejam conhecidos 10% dos casos de infeção?

[Essa projeção] baseia-se num modelo criado por um grupo do Imperial College, de Londres, em que foi concluído que há muito mais pessoas infetadas. Eles fizeram um estudo para 11 países, que, infelizmente, não incluía Portugal, e que variava entre 10 a 50 vezes mais o número de casos. Eu acho que é muito natural que seja assim, porque há muitos casos com sintomas ligeiros, geralmente assintomáticos. É natural que haja muitos mais casos - e 10 vezes mais não seria totalmente surpreendente.

A propósito do que aconteceu em Inglaterra, naquela primeira fase: depois de "deixar andar", a situação foi invertida e o Governo inglês acabou por fazer o que está a ser feito um pouco por toda a Europa. Esta ideia de promover a imunidade de grupo gera algum tipo de simpatia da sua parte?

Eu acho que, do ponto de vista do que nós sabemos das epidemias - e esta poderá ser diferente, mas nada indica que seja -, a única maneira de parar a dispersão na população é criar imunidade de alguma maneira. Um modo seria termos uma vacina. Outra maneira é as pessoas estarem imunes porque já foram infetadas - a tal imunidade de grupo. Portanto, de certo modo, essa vai ter que ser a solução, é o que diz a teoria epidemiológica.

O problema aqui é a resposta dos serviços de saúde...

Exato. A resposta dos serviços de saúde e o "preço" que a sociedade pode pagar. Tem de haver um balanço muito bem feito, e foi isso que a Inglaterra não fez. Inicialmente, eles pensaram que podiam deixar correr, que a infeção não era muito grave, que não haveria muitas pessoas com gravidade a chegar aos hospitais, e que não haveria tantas mortes. Os modelos que se fizeram mostraram que, se calhar, isso não seria assim. O que acontece nesta infeção é que o risco individual de morte é relativamente pequeno. Mas o risco para a população e para o sistema nacional de saúde é muito grande e, portanto, é uma questão que tem que ser muito bem ponderada.

Por outro lado, eu acho também que a ideia que as pessoas têm agora quando falam do pico - de que passamos esta fase agora e a infeção desaparece, seja no próximo mês ou depois, e até podemos voltar ao normal - vai gerar uma surpresa muito grande. Mais uma vez, aquilo que se espera - e não podemos saber, porque isto é um vírus novo - é que, enquanto uma fatia grande da população não estiver infetada, obtendo a tal imunidade de grupo, há sempre o risco do aumento do número de casos, assim que pararmos com o isolamento social ou com as medidas de higiene que estão agora implementadas. Isso tem de ser levado em conta. Penso que as autoridades em Portugal e noutros países percebem isso. Temos de pensar como é que podemos voltar ao normal, a uma vida mais normal. Não poderá ser já, nem nestas semanas, mas sempre protegendo as pessoas mais vulneráveis, as pessoas que têm outras doenças que são fatores de risco, as pessoas que sejam mais velhas, para irmos criando a imunidade de grupo - sem, ao mesmo tempo, levar a que muitas pessoas sofram doença grave e possam morrer e nem a que o sistema seja sobrecarregado. Isso é um equilíbrio difícil de fazer, em termos de saúde pública. Não é nada fácil.

Este isolamento tem tido uma importância muito grande para impedir uma sobrecarga e um caos no serviço de saúde - que tem-se comportado muitíssimo bem, conseguindo dar resposta àquilo que são as necessidades até agora. Mas também será muito importante para ganharmos algum tempo para pensarmos como é que podemos voltar "à normalidade". Porque poderá demorar muito tempo até conseguir imunidade de grupo, e quanto melhor for a nossa redução dos casos agora, menos pessoas serão infetadas, em princípio. A teoria epidemiológica diz isto muito claramente. É preciso que as pessoas em geral tenham a ideia de que não vão ser mais umas semanas, e que depois acaba tudo.

O professor trabalhou alguns anos fora...

Muitos, muitos anos. Mais de vinte.

Como está a sentir a resposta da academia e dos investigadores àquilo que está a acontecer? Acha que há proatividade?

Essa resposta é única, tanto em Portugal como no mundo inteiro, como em Portugal ligado ao mundo inteiro. É uma resposta como nunca foi visto. Nem na epidemia do ébola, que não chegou a ser uma pandemia, nem do SARS, nem na H1N1, em 2009, nem na gripe das aves. Nunca houve uma reação desta magnitude da parte da academia, a todos os níveis: não só a nível científico, com cada um fazer aquilo que pode e sabe na sua área, para tentar compreender melhor o vírus e compreender melhor a doença, pensar quais são e quais poderão ser as medidas a tomar, mas também a tentar explicar junto do público a importância, por exemplo, do isolamento social, de controlar as curvas e do achatamento das curvas.

Tudo isto que temos visto na comunicação social tem sido uma resposta fantástica e acho que há, claramente, resultados palpáveis disso em coisas que se veem - como todos os institutos em Portugal com capacidade para ajudar a fazer os testes, ou fazerem novos ventiladores, ou com a capacidade de fazerem material de proteção individual (não só as instituições científicas, mas até a própria indústria) - e também relativamente àquilo que não se vê - como, por exemplo: conhecer melhor como é que o vírus infeta as células; como é que o vírus é realmente; quais poderão ser os pontos fracos do vírus. Ou seja, coisas que ainda não deram frutos visíveis na sociedade, mas que estão a decorrer a uma velocidade também nunca vista anteriormente.

Isso vai também ser transmitido nos cursos de medicina e nos cursos médicos já nos próximos tempos, já no próximo ano letivo?

Eu acho que haverá muitas coisas desta pandemia e desta situação que estarão refletidas nos cursos. Não só nos cursos de medicina ou de ciências, mas nos cursos de economia, de sociologia e de psicologia, porque isto é um evento que envolve todas as áreas e que cada vez vai envolver mais todas as áreas. Começa por ser um problema de saúde pública. Depois, passa a ser um problema científico. Agora, vai ser um problema social, um problema económico, um problema psicológico.

E por isso é que eu também digo que esta resposta tem que ser feita estas semanas - enquanto se pensa como conseguimos como achatar a curva, se conseguimos ou não, voltar à normalidade. Vai ter que envolver pessoas de todas estas áreas e vamos ter que ter uma resposta bem pensada, porque se quisermos, por exemplo, proteger as pessoas que estão mais em risco, essas pessoas têm que continuar em isolamento para sua proteção e proteção do sistema nacional de saúde. Mas as outras pessoas mais novas ou que não têm os fatores de risco poderão voltar, aos poucos, a uma vida seminormal. Então, temos de arranjar maneiras de ajudar as pessoas que vão ficar em isolamento e que vão ser menos visíveis agora. O Governo tem muitos programas de ajuda. As juntas de freguesia, as câmaras municipais as instituições de solidariedade social, têm muitos programas de ajuda. Se passarmos a ter só uma parte da população em isolamento, esses programas vão ter que continuar ou até ser reforçados. E têm que ser pensados agora, porque vão ter que ser implementados à medida que começam a surgir notícias menos boas.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de