"Grande sofrimento animal." Depois do Brexit, Inglaterra pode aprovar edição genética em gado e plantações

As autoridades inglesas iniciaram o processo para permitir a edição de genes no gado e nas plantações, para potenciar a agropecuária. As interferências no ADN dessas espécies é agora possível, uma vez que o país já não está sujeito às normas apertadas da UE.

A edição de genes em plantações e gado pode vir a ser permitida na Inglaterra, de acordo com uma resolução do Governo do país. As regras da União Europeia são mais rígidas e tornavam a edição de genes do gado e de plantas quase impossível, mas as autoridades inglesas consideram que o avanço trará benefícios generalizados para consumidores e agricultores, que tornará os alimentos mais saudáveis e desencadeará melhorias ambientais.

Não é o que pensam alguns grupos ativistas que lutam pelos direitos dos animais. As preocupações prendem-se com a possibilidade de a tecnologia ser usada para promover um crescimento rápido demais para os limites da saúde animal, ou para permitir manutenção de espécies em condições de superlotação.

Huw Jones, professor de Genómica Translacional para aperfeiçoamento de plantas da Universidade Aberystwyth, no País de Gales, explica, em declarações à TSF, o processo na origem destas transformações genéticas: "A edição do gene faz pequenas alterações direcionadas ao genoma do hospedeiro, que são quase sinónimas de mutações que ocorrem naturalmente. É uma forma direcionada de reprodução por mutação convencional que produz novas variedades de culturas há mais de 50 anos. É diferente da modificação genética (OGM), que adiciona ADN estranho ao genoma, movendo genes inteiros e funcionais, geralmente de organismos não relacionados."

O investigador não tem dúvidas de que a edição de genes apenas trará "uma alimentação mais saudável para reduzir o seu impacto no ambiente". Uma "gestão melhor das terras, combinada com colheitas e genética animal com mais qualidade" pode contribuir "para tornar a agricultura mais eficiente e sustentável".

"A edição genética é uma forma de nos ajudar nessas atividades mais rapidamente", fundamenta Huw Jones.

O também biólogo assinala que "a edição de genes é completamente diferente dos transgénicos (organismos geneticamente modificados)", já que se trata de "simples edição de genes que pode produzir as mesmas pequenas deleções ou edições que podem ser encontradas no cruzamento convencional".

O cuidado deve, contudo, ser uma preocupação, acrescenta o professor. "Obviamente é necessário levar em consideração os riscos, mas a criação convencional de plantas e animais tem uma longa história de uso seguro. Congratulo-me com a consulta pública iniciada pelo Governo do Reino Unido. A edição de genes deve ser tratada de forma aberta e transparente com regulamentação proporcional."

A emenda de secções de ADN dentro de um único genoma pode produzir mudanças que antes apenas eram possíveis através de procriação seletiva de plantas e animais. Já a modificação genética, que envolve a introdução de ADN de uma espécie no material genético de outra, continuará sujeita à proibição quase na totalidade dos casos. O editor genómico mais comum é o CRISPR-Cas9, cuja descoberta foi conseguida por Emmanuelle Charpentier e Jennifer Doudna, as investigadoras que venceram o Prémio Nobel da Química em 2020.

A invenção "tem também potencial terapêutico para os humanos e para a prevenção de doenças", defende o professor Huw Jones. "No entanto, apoio a atual proibição de modificações na linha germinativa de embriões humanos destinadas à gravidez", acrescenta.

Peter Stevenson, representante do grupo Compassion in Worls Farming, pelos direitos dos animais, revela à TSF ser "totalmente contra" a permissão. "A edição de genes, em muitos casos, será muito prejudicial ao bem-estar animal. É uma peça moderna e de ponta da biotecnologia usada para apoiar um sistema de agricultura antiquado, ou seja, a pecuária industrial."

O ativista considera que a edição genética "será usada para levar os animais de quinta a um crescimento mais rápido para uma maior produtividade", o que "pode causar grande sofrimento".

"A reprodução seletiva tradicional já levou os animais a um crescimento rápido e ao alto rendimento, muitas vezes com imensos impactos prejudiciais ao bem-estar animal. As galinhas foram criadas para crescer tão rapidamente que muitas sofrem de doenças dolorosas nas pernas, enquanto outras sucumbem por causa de doenças cardíacas. A seleção de vacas leiteiras para uma produção de leite anormalmente alta tem causado muito sofrimento. A edição de genes está destinada a tornar tudo muito pior." O alerta de Peter Stevenson vem acompanhado de críticas ao Executivo inglês: "O Governo argumenta que a edição de genes pode ser usada para combater doenças em animais de quinta. Isso parece bom, mas pode permitir que os animais sejam mantidos em condições ainda piores - mais stressados e com menos espaço - do que agora. Muitas doenças em animais de quinta resultam das condições stressantes e de superlotação, que minam os sistemas imunitários."

O ambientalista acredita que a forma correta de combater as doenças zoonóticas é manter os animais em locais onde os métodos de cultivo são saudáveis, por isso considera "ridícula" a decisão do Governo para aumentar a produção de carne num momento "em que os cientistas nos estão a dizer que precisamos de reduzir o consumo destes alimentos, se quisermos enfrentar as mudanças climáticas e reduzir as doenças cardíacas e o cancro de intestino".

Peter Stevenson sublinha que a edição de genes só deve ser utilizada quando não houver qualquer impacto no bem-estar animal, e nenhum outro método "não intrusivo" não esteja disponível".

"O objetivo desejado não é conseguido, porque a edição de genes tem o efeito de facilitar o uso de sistemas de produção pecuária industrial, que têm uma ampla gama de desvantagens para a saúde e bem-estar animal."

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