Um zumbido para o Homem pode ser um sismo para Marte. E a NASA gravou o som

InSight, em missão no planeta vermelho, captou aquele que pode ser o som que marca o início da sismologia marciana.

É um pequeno zumbido distante, curto e faz lembrar o que ouvimos quando encostamos um búzio ao ouvido. Ainda assim, este é um som que pode ficar para a história da exploração espacial como o primeiro registo de um abalo sísmico em Marte.

A NASA anunciou, esta terça-feira, que a sonda da Seismic Experiment for Interior Structure (SEIS), que está a bordo da InSight, captou o som a 6 de abril, naquele que foi o 128.º dia marciano (Sol) da missão no planeta.

Este é o primeiro abalo gravado que aparenta vir do interior do planeta, não tendo origem em forças presentes à superfície, como o vento. Para já, os cientistas ainda estão a analisar os dados recolhidos para que existam certezas em torno da origem deste registo sonoro.

Em declarações à TSF, o coordenador nacional da Sociedade Planetária, Miguel Gonçalves, destaca precisamente a necessidade de perceber, ao certo, qual a origem deste som.

"Em primeiro lugar, os cientistas vão tentar confirmar se estamos de facto, ou não, perante o primeiro registo de ondas sísmicas em Marte. Ao contrário do que acontece na Terra, em que temos à superfície uma grande agitação e, portanto, uma coleção de sons que dificultam a leitura dos sismos da Terra, em Marte é tudo muito mais calmo e tranquilo", alerta.

Para efeitos de comparação, a superfície da Terra está em constante vibração devido ao ruído sísmico criado por oceanos e pelo clima. Se um acontecimento desta escala ocorresse, por exemplo, no sul da Califórnia, ficaria perdido entre os milhares de pequenos movimentos que acontecem todos os dias.

"Em Marte é tudo muito mais calmo, muito mais tranquilo. O que foi captado pelo sismómetro que está a bordo da InSight, durante breves, breves instantes, é uma oscilação que, tudo indica, tem como origem o interior do planeta", explica Miguel Gonçalves.

A agência espacial norte-americana explica, no seu site, que este evento sísmico é demasiado pequeno para providenciar dados sólidos acerca do interior do planeta , um dos principais objetivos desta missão. Certo é que a superfície marciana é extremamente silenciosa, pelo que o sismómetro da InSight consegue captar agitações mínimas.

Certo é que este é um triunfo da tecnologia, como defende Miguel Gonçalves, que reforça que esta possível onda sísmica pode ajudar a desvendar os vários enigmas daquele que conhecemos como 'Planeta Vermelho'.

"Vamos recolhendo dados atrás de dados para tentar perceber melhor o interior de Marte e para tentar perceber se esse interior teve, num passado mais ou menos distante, sobre o que aconteceu à superfície", explica o coordenador da Sociedade Planetária.

Os dados recolhidos podem também dar resposta a dois dos grandes enigmas de Marte: "O que aconteceu à sua atmosfera?" e "O que aconteceu à água que se pensa que, em tempos, terá estado presente de uma forma muito abundante à superfície."

Com esta gravação, a provar-se que é de uma onda sísmica, fica também provada a existência de atividade física em Marte. "É particularmente interessante porque, tendo atividade sísmica no seu interior, tem dinamismo interior, o que quer dizer que temos de perceber quais são os mecanismos de aquecimento no seu interior. Como é que é feita a transição de energia entre várias camadas do interior? Devemos também tentar diferenciar muito bem as camadas que compõem o interior e qual a espessura" das mesmas, explica.

Desde o início desta missão já foram registados três outros sinais sísmicos: a 14 de março (Sol 105), 10 de abril (Sol 132) e 11 de abril (Sol 133). Detetados por outros sensores da SEIS, estes sinais foram ainda mais pequenos do que os do Sol 128 e têm origens mais ambíguas, embora os investigadores continuem a tentar encontrar as suas causas.

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