Entrevista com Abel Méndez

Vida noutros planetas? "A Terra é a prova de que pode existir. Não estamos à procura de algo novo"

Quando Abel Méndez olha para as estrelas não pede desejos. Em vez disso, analisa e calcula o potencial de vida na sua órbita. Abel Méndez, professor na Universidade de Porto Rico, em Arecibo, e diretor do Planetary Habitability Laboratory, que estuda as probabilidades de encontrar vida noutros lugares do universo, é um dos grandes responsáveis pelo Índice de Similaridade com a Terra e pelo Catálogo de Exoplanetas Habitáveis. Nesta conversa com a TSF, o astrobiólogo confessa as desolações de um percurso palmilhado com o peso das dúvidas e de como apalpar terreno pelo Espaço Sideral muitas vezes se assemelha a um caminho de poeira cósmica.

Como nasceu o interesse pela busca de vida noutros planetas?

Tenho interesse em astronomia desde a minha infância. Tinha um pequeno telescópio e um computador, um dos primeiros, nos anos 1980. Ninguém me disse que esse seria o meu objeto de trabalho para sempre, o telescópio simplesmente foi ficando maior e o computador mais pequeno. Fazia sempre as minhas observações à noite, a olhar para o céu. Quando fiz a minha primeira visita ao observatório, aos 11 anos, o interesse já estava lá.

Quando comecei a estudar senti a pressão das pessoas. 'Por que é que estudas física e astronomia? Não é nada útil. Sê engenheiro ou médico.' Mas eu sabia o que queria e o observatório também me ajudou.

A estrela de Teegarden B é o seu foco de momento. É nela que deposita mais esperança de encontrar vida nas imediações?

Nós temos um catálogo de planetas potencialmente habitáveis, que desenvolvemos em 2012. Naquela altura, pensámos que criar esse inventário seria necessário porque havia dois focos de interesse e achávamos difícil detetar outros. E foi uma boa ideia porque todos os anos temos mais, e hoje temos aproximadamente 60 planetas potenciais.

A estrela de Teegarden tem dois planetas, mas pelo menos um está numa zona habitável. Mas há mais... O problema é que há muitas formas de deteção, e nós só conseguimos apurar com certeza o tamanho dos planetas, e quando falo em tamanho quero dizer a massa ou o raio. Às vezes é uma das medidas, outras vezes é outra, e não as duas. Apenas para alguns planetas temos raio e massa apurados. Mas é definitivamente importante compreender se o planeta é rochoso, se não é líquido ou de outra constituição diferente. É por isso que é tão difícil saber raio e massa ao mesmo tempo, mas seria também importante que isso acontecesse.

Quanto mais perto for o seu tamanho do da Terra - mesmo que não se saiba a massa -, é mais provável que seja rochoso.

Nós conhecemos a massa do planeta que orbita a estrela de Teegarden, mas não sabemos o raio. Em relação a esses planetas cujo raio não conhecemos, tem sido mais difícil saber algo mais. Apenas quando sabemos o tamanho, através do seu movimento, temos mais pistas sobre o comportamento do planeta. Quando a luz atravessa a atmosfera, dependendo da composição da atmosfera, ela absorve alguns dos raios. E assim conseguimos saber quais são as diferenças da atmosfera desse planeta para a de outros planetas.

É agora que as coisas começam a tornar-se ainda mais interessantes. Desde 2010, começámos a detetar alguns planetas potencialmente habitáveis. Começámos esta procura em 1992, mas os que consideramos potencialmente habitáveis foram descobertos nos últimos dez anos. E uma coisa que sabemos sobre eles é a sua órbita, a distância a que estão da sua estrela. A partir daí, podemos inferir o intervalo de temperaturas que apresentarão. Não estamos a medir temperaturas mas a calcular probabilidades. Portanto, conhecemos tamanhos e órbitas, mas queremos saber mais.

Ainda não sabemos muito sobre o planeta que orbita Teegarden, apesar de ter um tamanho próximo ao da Terra, com insolação semelhante... Estamos focados na estrela Trappist-1 [a 39 anos-luz do Sol], que tem sete planetas e todos em órbita. Este é o melhor sistema para estudarmos estes planetas, mas pode haver outros candidatos. Alguns são quentes, outros são frios, e há outros três ou quatro com temperaturas próximas às da Terra.

Quais são as probabilidades de encontrar um planeta com as temperaturas adequadas à existência de vida?

No final do ano teremos um novo telescópio para vermos pela primeira vez a atmosfera dos planetas e para sabermos ao certo qual a sua composição. Teremos hipótese de detetar gases relacionados com a existência de vida. Estamos a avançar de uma década em que só conhecemos o seu tamanho e órbita para uma década de caracterização. Pela primeira vez, vamos conhecer as suas atmosferas. Em última análise, esta década será a década das bioassinaturas, a década de compreender se há gases que não podem ser produzidos sem a presença de vida. Esta década será também a década da tecnoassinatura.

Está otimista em relação ao que pode ser descoberto nos próximos dez anos?

Não apenas eu. A NASA está bastante otimista, porque é a NASA que está a investir nessa tecnologia. Eu digo que estou otimista, mas provavelmente só teremos perto de dez bons exoplanetas candidatos. Vamos começar com a estrela Trappist-1.

Haverá outros instrumentos, que só serão lançados provavelmente daqui a 20 anos, que serão capazes de fotografar os planetas como um pontinho de luz. Já somos capazes de o fazer, mas para planetas muito grandes e longe de estrelas. A partir desse pontinho de luz, vamos poder caracterizar a atmosfera, e, à medida que ele rodar, poderemos ver a verdadeira cor do planeta. Se for azul, poderá por ter alguma substância como a água. À medida que o planeta se movimenta em rotação e nós continuamos a olhar para aquele pontinho, veremos a luz crescer em intensidade, e, se virmos mudanças de intensidade ao longo do tempo, veremos que o planeta tem terra e tem oceano. Se não notarmos qualquer variação, significa que toda a superfície está coberta por nuvens, ou é tudo oceano. Qualquer uma dessas hipóteses será interessante.

E ainda mais tarde, poderemos ser mais sensíveis e dedicar tempo a explicar as cores que vemos. 'Aquele verde significa presença de floresta?' Explorados todos estes aspetos, podemos, nalgum caso, chegar à conclusão de que um planeta tem todas as condições para conceber vida.

Este é um processo que leva muito tempo. A área científica e de investigação pode tornar-se desmotivadora, por vezes? Teve algum daqueles casos em que apostava tudo num 'cavalo' promissor e esse 'cavalo' acabou por se revelar uma desilusão?

Trabalhar em astrobiologia é, não só estudar potencial de vida noutros planetas, mas também os fatores que geram vida na Terra, no contexto do Espaço. Como o planeta teve de se formar, as suas condições... Isso é astronomia. Agora que temos vida na Terra, podemos também ter um asteroide que venha a atingir-nos e a matar-nos. Também estudo as supernovas que podem explodir perto do nosso planeta e destruir a vida. Na minha área de investigação, há essa relação entre a vida e o Espaço, mas eu também estudo o potencial de vida noutros planetas. Quando nos lançamos neste campo científico, estamos muito otimistas, porque não estamos à procura de algo que não tenhamos visto antes. Estamos à procura de planetas com vida inteligente? Temos a Terra, por isso a Terra é a prova de que este fenómeno pode existir no universo. Nós não estamos à procura de algo que seja novo, não estamos à procura de algo nunca antes visto, como planetas cúbicos.

Essa ideia e a ideia de que temos muitos alvos potenciais dizem-nos que deverá haver uma probabilidade grande de existir vida noutros lugares do universo. Mas, quando começamos realmente a investigar, percebemos o que aconteceu à Terra, as condições que foram necessárias para que a vida se iniciasse e se mantivesse no tempo, a evolução que ocorreu para passarmos de formas simples de vida para outras muito mais complexas, todos os processos biológicos que poderiam dar errado ao longo do tempo, mas também todos os acontecimentos astronómicos que poderiam ter corrido mal para nós...

Concluímos então que não deveríamos estar aqui. Essa é a minha perspetiva agora. Penso que haverá mais planetas com vida, mas o processo para o desenvolvimento de vida inteligente requer muitas condições. Haverá provavelmente menos planetas com vida inteligente, o que significa que muitos dos planetas com potencial que estamos a investigar provavelmente só terão micróbios. E são muito distantes no Espaço, por isso posso dizer que acredito que estamos sozinhos no universo. Mas sozinhos por isolamento, não por não haver mais vida. A restante vida estará demasiado longe para propósitos práticos e para a deteção.

Mas, no que diz respeito a formas de vida microscópica, estou muito mais otimista de que as haverá perto do nosso planeta. Mesmo sendo pessimistas, nós temos de procurar... Podemos encontrar vida bacteriana, animal ou plantas. E, se fizermos um dia esse anúncio, a pergunta seguinte das pessoas seria: 'Há vida inteligente nesse planeta?' Não podemos responder que não sabemos por não estarmos à procura.

A vida é abundante, é abundante no planeta em que vivemos, mas atingir este nível de abundância é difícil. Talvez haja muito longe de nós e por isso não a encontramos...

Os últimos meses têm sido também abundantes, profícuos, diria, em investigação acerca de Marte e Vénus. Já perdeu a esperança de encontrar vida no Sistema Solar?

Não, de todo, da mesma forma que acredito que a vida microbiana deve ser mais frequente do que os seres vivos mais complexos e inteligentes. A vida pode estar na porta ao lado. E é muito entusiasmante investigar em muitos planetas e estudar muitas estrelas. Pelo menos nestes planetas temos acesso a amostras maiores, mas levaremos alguns anos a perceber o que se passa ao nosso redor.

Há três lugares onde poderemos detetar vida extraterrestre: o primeiro lugar é a Terra, em meteoroides. Até agora, já tivemos alarmes falsos quanto à deteção de vida microbiana em meteoroides, mas há pessoas à procura de mais. O segundo lugar é o Sistema Solar. Começámos em março de 1976 com as primeiras missões da NASA, e a interpretação que havia na altura era de que poderia haver vida, mas foi reconhecido imediatamente que havia observações com lacunas e poucas indicações.

O terceiro lugar onde podemos procurar é nos exoplanetas. Penso que o vencedor será o nosso Sistema Solar, especialmente Marte, porque será possivelmente o único lugar em que reconheceremos algo com certezas. E mesmo em Marte o trabalho não é fácil; imaginemos então como é analisar planetas mais distantes e diferentes. Virámo-nos para Vénus e vimos que havia fósforo, mas agora vemos que a atmosfera não tem água suficiente.

Acredita que seremos capazes de reconhecer formas de vida que possamos encontrar noutros planetas?

É por isso que digo que Marte é a chave, porque lá poderemos, como já fizemos, com o Perseverance, recolher amostras, e essa é a única forma de saber com certeza se há vida. De outro modo, se não tivermos amostras de um planeta, haverá muita especulação, com indicadores a apontar para uma resposta positiva, mas restará o grau considerável de dúvida...

E mesmo as amostras que recolhermos de Marte serão de uma superfície e poderão indicar que já houve vida no planeta. Mas será que há vida neste momento? Isso requererá mais estudos, porque será necessário encontrar água corrente. Teremos de escavar em muitos mais pontos.

Agora que a China, o Japão, os Emirados Árabes Unidos e a Índia começaram a revelar mais interesse na exploração planetária e a pensar em enviar missões para Marte, também deverão querer iniciar as buscas noutros planetas.

Mas procuramos pensando que as formas de vida de outros planetas se assemelharão aos seres vivos na Terra ou que estarão nas mesmas condições em que as encontramos no planeta Terra?

Na Terra, encontramos vida em lugares com condições extremas: em pontos muito quentes ou muito frios. Nos anos 1970, pensávamos que não era possível, e temos sido surpreendidos sistematicamente. A surpresa é que, em todos os cantos da Terra onde há água no estado líquido, encontraremos vida. Todos os lugares habitáveis na Terra têm vida. É por isso que acredito que Marte é muito importante; porque podemos testar essa teoria lá. Se extrairmos água líquida da superfície e não encontrarmos qualquer ser vivo, essa descoberta será espantosa. Aí sim veremos algo que nunca vimos, seria uma descoberta profunda. Isso chocar-me-ia muito.

Mas, respondendo à sua pergunta, estamos a explorar tudo. Fixamos a Terra como termo comparativo, mas reconhecemos que há planetas muito diferentes da Terra.

Que significado terá para a Humanidade encontrar formas de vida noutros planetas?

A pergunta também pode ser colocada de outra forma: e o que significará não encontrarmos vida? Penso que não será um choque, porque a maior parte das pessoas já acredita que há potencial de encontrar vida noutros planetas. Para os cientistas, isso significará o aumento nos investimentos e nos esforços. Uma fração pequena do dinheiro do mundo vai para a exploração espacial. As pessoas estão interessadas; as descobertas fazem notícias em todos os jornais, e a NASA faz um bom trabalho de publicidade aos resultados. Os cientistas e os astrónomos há muito tempo que pedem mais fundos, sabemos que não temos ferramentas suficientes. É necessário fazer muita observação, ter pessoas a olhar para todo o lado. Quando encontrarmos vida noutro planeta, diremos: 'Uau, finalmente sabemos que é real.'

E entre os cientistas há muita competição. Quem é que não quer ser o primeiro a detetar vida noutro planeta?

Há quem tenha medo de descobrir, os cientistas estão no lado oposto do espectro... Carl Sagan dizia que não contaria com a intuição para falar de temas como este, mas o que lhe diz a sua intuição? Há vida noutros planetas?

Quanto mais estudo, mais percebo que este planeta é muito especial. Demasiadas coisas correram bem para hoje estarmos aqui. As possibilidades estão lá fora, no Espaço, mas eu acredito que seremos a única espécie inteligente. Já a vida microbiana deverá ser muito comum, no Sistema Solar ou fora dele. Quanto aos animais e às plantas... É preciso muito tempo para que tantas células se organizem nestes organismos. Se calhar, serão mais limitados. Quando falamos de vida inteligente, ainda se torna mais difícil.

A vida microbiana será muito difícil de detetar... Por vezes, penso que a resposta é 'não'. Foi tão difícil tudo isto acontecer, para formar vida, que se calhar só aconteceu aqui, o que é espantoso.

Quando comecei a estudar, a vida era mais fácil... Mas quererei sempre compreender a ausência ou a presença de seres vivos.

Quando diz que fomos demasiado sortudos corre o risco de inspirar uma narrativa religiosa sobre o assunto?

Quando digo que fomos muito sortudos, quero dizer que, compreendendo os processos por detrás da vida na Terra, considero que seria pouco provável isto acontecer. Algumas pessoas usam essa justificação para dizer que deus foi responsável por isto, mas, como cientista, digo que não estou interessado nesse exercício, mas no exercício de compreender porquê. Mesmo que me digam que existe um deus, eu direi: 'Porquê? Não estás a responder à minha pergunta. Como é que isso aconteceu?'

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