Boeing faz contas ao prejuízo, após elogio a Trump e à rápida certificação do 737 Max

As ações da companhia aérea norte-americana baixaram 5% depois do anúncio de que a produção do novo avião vai ser reduzida. A Boeing admite que o aparelho tem problemas de software.

Há dois anos a Boeing estava no topo. As ações tinham subido 40% em relação ao ano anterior. A perspetiva de vendas e lucros era brilhante e a empresa preparava-se para começar a entregar o novo avião 737 Max.

No dia 26 de abril de 2017, o diretor-executivo da empresa, Dennis Muilenberg, discursou, através de videoconferência, para a Bolsa de Nova Iorque. Elogiou a rapidez com que a empresa colocou o 737 Max no mercado e o processo simplificado de certificação da Administração Federal de Aviação norte-americana. Muilenberg atribuiu isso à filosofia da nova administração liderada por Donald Trump que favorecia os negócios.

Semanas depois, a Boeing entregava o primeiro 737 Max, mas o sucesso não foi o esperado. O acidente com o avião da Lion Air, em finais de outubro de 2018, e, há um mês, a queda do aparelho da Ethiopian Airlines lançaram a empresa numa das mais graves crises em 103 anos de história. Os acidentes causaram 346 mortos, os aviões estão em terra e o processo de aprovação está sob investigação das autoridades norte-americanas.

"Evitará novos acidentes"

Na sexta-feira, Dennis Muilenberg reconheceu que os acidentes estarão ligados à ativação deficiente do sistema de aumento de características de manobra - conhecido pelas iniciais inglesas MCAS. Este sistema foi uma novidade do 737 Max e foi criado para corrigir a posição do nariz do avião, em caso de necessidade. A Boeing está a trabalhar para desenvolver uma solução para o problema no software. Depois do acidente da Ethiopian Airlines, a empresa disse que a correção estaria disponível numa questão de semanas, mas ainda não está pronta.

"Temos a responsabilidade de eliminar os riscos e sabemos como fazê-lo", disse Muilenburg num comunicado. "Como parte desse esforço, estamos a fazer progressos na atualização do software do 737 Max, o que evitará novos acidentes."

Antes dos acidentes, a empresa preparava-se para aumentar a produção do 737 - que é o avião mais popular do mundo -, mas os projetos foram alterados. A partir de meados de abril, a Boeing vai reduzir a produção de 52 aviões, por mês, para 42. A Boeing enfrenta o cancelamento de encomendas feitas pelas maiores companhias aéreas do mundo e anunciou esta terça-feira que, neste momento, não há qualquer nova encomenda para o 737 Max.

Esta é a primeira vez, desde a crise no setor provocada pelos atentados do 11 de setembro, nos Estados Unidos, há quase 18 anos, que o maior fabricante de aviões do mundo reduz a produção de um modelo.

O 737 Max tornou-se não apenas um problema para a Boeing, mas um fator de incerteza para a economia dos EUA. Estimativas feitas pelo banco JP Morgan apontam para a possibilidade de a crise, desencadeada pelos acidentes na Indonésia e na Etiópia, pôr em perigo um décimo e meio do crescimento do PIB. Este enorme impacto deve-se à influência da indústria aeroespacial nas estatísticas do comércio externo norte-americano. Como a maior parte da produção do 737 estava destinada ao mercado externo, a redução das vendas faz cair as exportações e, portanto, há menos crescimento económico.

A empresa americana confiava muito na estratégia que tinha delineado para o 737 Max, esperando que, este ano, 35% do dinheiro em caixa fosse gerado por este modelo. Agora, com a perspetiva de que não haverá encomendas nos próximos meses, juntando os custos de armazenamento daqueles que continuam a ser fabricados e os prováveis pedidos de indemnizações por parte ​​das companhias aéreas que têm aparelhos no chão, a Boeing enfrenta um impacto significativo nas contas. Neste momento, 375 aparelhos estão impedidos de realizar viagens e as indemnizações podem chegar aos cem milhões de euros por cada um.

No ano passado, a Boeing ultrapassou os cem mil milhões de dólares em vendas anuais pela primeira vez - e o lucro cresceu 24%.

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