Bolsonaro, presidente WhatsApp ou a "última virgem de um sistema corrompido e imoral"

Qual a figura e o acontecimento do ano 2018? A opinião de Germano Almeida, comentador e autor de livros sobre política dos EUA.

Figura internacional de 2018: Jair Bolsonaro, o presidente do WhatsApp

Se o Brexit e Donald Trump terão mais impacto global, tendo em conta a influência de Reino Unido e EUA para o resto do mundo, a eleição presidencial de Jair Bolsonaro terá sido o acontecimento político mais assustador desde que se iniciou esta era populista e autoritária.

Ao contrário de Trump - que teve menos votos que a adversária e fundou o seu triunfo inesperado na mobilização de eleitorados muito específicos, nunca conseguindo ser um líder abrangente - Bolsonaro apanhou todos: ricos, pobres; homens, mulheres; habitantes do litoral e do interior; rurais ou moradores nas megalópoles carioca e paulista. O Brasil, que em 2012 (há apenas seis anos) festejava a ultrapassagem ao Reino Unido como sexta maior economia do mundo, viu a sua narrativa de prosperidade económica ruir como um castelo de cartas nos últimos quatro ou cinco anos, enredada numa teia de escândalos políticos, processos de corrupção, desvios de fundos públicos, impeachment de Dilma e prisão de Lula.

Jair Bolsonaro, visto com desdém e descrédito por quase todo o sistema político brasileiro até há muito pouco tempo, partiu de baixo mas foi capitalizando cada escândalo, cada erro, cada desgaste dos políticos do PT, sobretudo, mas também do PSDB e das restantes forças políticas do centro-esquerda, esquerda e centro-direita. A facada que levou nos primeiros dias da campanha para o primeiro turno - em episódio com contornos ainda por esclarecer - foi o golpe de teatro de que precisava para fazer jus ao seu nome do meio: para milhões de brasileiros, passou a ser o Messias que surgiu como última virgem de um sistema corrompido e imoral.

A trilogia dos Bês - Bíblia, Boi e Bala - deu-lhe o empurrão decisivo para quase ganhar ao primeiro turno e quase "golear" no segundo. A soma de declarações muito agressivas e ofensivas que foi tendo nas últimas duas décadas não o comprometeu. Conseguiu descolar-se do rótulo de "extrema-direita", chamou para si, com o discurso moralista que pisa a separação laica e confunde Deus com o Planalto em Brasília, a totalidade do apoio da bancada evangélica (que há quatro anos tinha dado a Marina Silva uns impressionantes 20%).

Bolsonaro ganhou com grandes vantagens nos extratos mais elevados de Rio e São Paulo (atraídos pelo discurso securitário e pelo programa ultraliberal de corte massivo de impostos), mas ganhou também em extratos sociais mais desfavorecidos e não teve a penalização que muitos imaginaram do eleitorado feminino. Só não venceu no Nordeste - bastião petista graças aos programas sociais de Lula e Dilma - mas mesmo aí obteve votações muito expressivas. Chegou à presidência de uma das maiores democracias mundiais (em número de eleitores votantes) sem ter que ir a um único debate. A dar entrevistas apenas e só a quem sabia que não lhe iria incomodar com contraditório (a "amiga" TV Record, detida pelo bispo Edir Macedo, um dos mais poderosos apoiantes de Bolsonaro). Quase sem ter que sair de casa - literalmente. Há muito poucos anos, era impossível.

Na era WhatsApp - uma rede social invisível, essa perturbadora contradição - o improvável passou a ser real, por via de uma estratégia de mentiras em massa sem possibilidade de um "fact check" em tempo útil. É o triunfo da calúnia, sob a capa de "velocidade de informação", numa nova ditadura das perceções. Que mais nos acontecerá?

Acontecimento internacional de 2018: revolta dos coletes amarelos

Este foi o ano da queda definitiva da estabilidade de quem está no poder. Na Alemanha, Angela Merkel anunciou a saída até ao final deste mandato e foi rendida na liderança da CDU por uma sucessora mais conservadora e menos europeísta. No Reino Unido, Theresa May foi obrigada a prometer a quem a desafia no seu próprio partido que também está de saída até ao fim deste mandato - e quase teve que pedir para terminar a missão que nem ela desejava ter: a de concretizar a saída da UE.

"Brexit means Brexit", uma frase que ninguém sabe muito bem o que significa e que mostra como os britânicos caíram, há dois anos e meio, na decisão política mais estúpida dos últimos anos: ninguém beneficia com ela, quase todos saem a perder, quase ninguém faz, sequer, ideia como concretizá-la. Com alemães e ingleses num impasse e em clima de fim de ciclo para as lideranças atuais, o sinal de maior alarme veio de França.

Um ano e meio depois de Macron ter travado de forma muito clara e folgada a ameaça da extrema-direita na segunda volta das presidenciais, esta "revolta dos coletes amarelos" faz temer o pior sobre o que poderá vir a passar-se nas eleições europeias de 2019 e nos países decisivos para o projeto europeu nos próximos anos. Apesar dos dois terços de votos com que foi eleito, Macron perdeu o estado de graça em tempo recorde e caiu para níveis de aprovação que começam a fazê-lo parecer-se com Hollande. Não conseguiu aliar a agenda construtiva que tem na frente externa (clima, aprofundamento das instituições europeias) com a necessidade de segurar a frente interna (mera proposta de imposto "verde" deixou Paris a arder).

Ora, esta podia ter sido mesmo a última oportunidade moderada, reformista e claramente europeísta para que a França evitasse cair na tentação da Frente Nacional. A forma hesitante e pouco autoritária com que Macron enfrentou o tumulto dos fins de semana que fizeram tremer Paris abre espaço para um ressurgimento eleitoral da extrema-direita (não será surpresa para ninguém se Marine vencer as europeias). A questão que se põe é: se nem um jovem presidente com discurso positivo, multilateralista e europeísta, legitimado pelo voto de 67% dos franceses que foram às urnas na segunda volta das presidenciais, aguenta mais que um ano e pouco e também ele cai para o saco do "establishment político que é preciso derrotar", como se poderá salvar o projeto europeu e como poderemos manter-nos firmes contra a ameaça do extremismo e do populismo autoritário? Quem na verdade financia e inspira estes "coletes amarelos" - eis a dúvida fundamental que 2019 nos poderá revelar.

Académicos da área das relações internacionais, eurodeputados, jornalistas experientes em matéria de política internacional, correspondentes no estrangeiro e diretores de órgãos de comunicação social votaram na figura e acontecimento do ano.

Leia ainda as escolhas e opiniões dos membros do Painel TSF .

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