Cambridge Analytica e a "disrupção das noções de confiança e solidariedade entre os indivíduos"

Qual a figura e o acontecimento do ano 2018? A opinião de Joana Lopes, mestre em ciência politica e Relações Internacionais.

Figura do ano: Christopher Wylie

Se o ano de 2017 foi marcado por um conjunto de irreverências políticas - da eleição de Donald Turmp ao Brexit - o ano de 2018 seguiu uma trajetória similar, tendo decorrido sob um caminho sinuoso. Em consequência, emergiram um conjunto de personalidades de relevo, quer por motivos mais positivos ou menos favoráveis do ponto de vista da estabilidade política. Desde Jair Bolsonaro, a Marielle Franco, passando por Nádia Murad ou o conjunto de jornalistas assassinados em 2018 às mãos dos regimes opressores (mais de 30), todos seriam candidatos ao título, embora por razões marcadamente distintas.

No seu conjunto, estas figuras contribuíram para incendiar o debate sobre o crescimento do populismo e seu impacto nos sistemas políticos; o extremismo violento e o terrorismo ou da influência das redes sociais na política. Estes debates, a par do fenómeno das "fake news" e da "pós-democracia", acentuaram as incertezas sobre a estabilidade das democracias liberais, colocando em cheque a governação dos líderes nacionais e a função do estado enquanto agente promotor de segurança.

Contudo, neste cenário VUCA (acrónimo inglês para "volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade"), é possível destacar uma figura meritória do título: Christopher Wylie, o ex-funcionário da empresa britânica Cambridge Analytica, que expôs o programa de análise de dados da empresa para a influência de processos eleitorais em redes sociais como o Facebook.

Christopher Wylie foi um dos criadores do algoritmo desse programa mas não é necessariamente um participante direto no cenário disruptivo e não se pretende traçar um modelo de "causa-efeito". Escolhemos a sua figura porque o caso por si revelado poderá constituir um impulsionador, pela negativa, dos debates mencionados e de figuras extremistas e populistas. Recorde-se que a Cambridge Analytica admitiu ter tido influência na campanha de Donald Trump ou do Brexit.

À semelhança do caso de Edward Snowden, o que aqui está em causa é a utilização nociva e abusiva das tecnologias para manipular preferências de voto, ideais e crenças. Em última instância, todo este cenário poderá contribuir para a disrupção das noções de confiança, solidariedade entre os indivíduos e o desenvolvimento de sentimentos de insegurança, resultando na polarização das sociedades e na promoção da violência. Nas palavras de Walter Benjamin, "in times of terror, when everyone is something of a conspirator, everybody will be in the position of having to play detective".

Acontecimento do ano: "Inexistência de alternativas aos desafios globais"

Em 1947, dois anos após a elaboração da Carta das Nações Unidas, o Boletim de Cientistas Atómicos inaugura o famoso "Doomsday Clock" situando o ponteiro a 7 minutos da hora apocalíptica, a meia-noite. As conferências de Potsdam e Ialta significaram a paz falhada e tinha começado a era das superpotências. Até 1989, o mundo viveu suspenso pelo medo da bomba nuclear que ofuscava quaisquer outras preocupações securitárias.

Em 2017, volvidos mais de 70 anos da criação da Organização que tem como principal baluarte "a manutenção da paz e segurança mundiais", o ponteiro do relógio situava-se a 2 minutos e meio das 24h.

O ano de 2018 pareceu dar continuidade a esta linha de incerteza e conflitualidade. Por isso, não nos parece pertinente nomear um acontecimento do ano, em particular. Perante um conjunto de crises e ameaças - como a crise humanitária no Iémen, o conflito da Síria, a crise migratória no Mediterrâneo, o terrorismo, o crescimento do extremismo e populismo, a situação dramática na Venezuela ou acelerar das alterações climáticas - a comunidade internacional permaneceu incapaz de elaborar uma resposta multilateral concertada.

Independentemente da efetividade das políticas globais, nacionais ou europeias, para combater os desafios transnacionais a nível económico ou securitário, o ano de 2018 tem-se pautado por uma constante: a bipolarização do discurso político, entre "os bons" e os "maus". Esta divisão revela-se através de sucessivos bloqueios ou impasses políticos que, por via dos interesses nacionais de cada estado, tem minado o desenvolvimento de alternativas aos problemas mundiais. É necessário ultrapassar as marcas ideológicas e quaisquer narrativas dominantes a fim de promover a cooperação e sobretudo encontrar soluções práticas que tenham uma dimensão holística e integradora.

"Em tempos de insegurança, as comunidades que são diferentes tornam-se convenientes bodes expiatórios. Precisamos de resistir a esforços que servem para dividir comunidades e retratar o próximo como «o outro»". António Guterres, SG ONU.

As Nações Unidas estabeleceram um prazo de 12 anos para salvar o planeta.

Quando chegará o ponteiro à hora H?

Académicos da área das relações internacionais, eurodeputados, jornalistas experientes em matéria de política internacional, correspondentes no estrangeiro e diretores de órgãos de comunicação social votaram na figura e acontecimento do ano.

Leia ainda as escolhas e opiniões dos membros do Painel TSF .

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