Do campo de jogos para o seminário: George Pell, o cardeal condenado por abusos sexuais

Conhecido como o buldogue australiano, Pell subiu quase ao topo do Vaticano, mas a queda só demorou dois meses. A Justiça condenou-o a seis anos de prisão por abusos sexuais. Vai cumprir pelo menos três anos e oito meses de pena efetiva.

George Pell nasceu a 8 de junho de 1941 na aldeia de Ballarat, no Estado de Vitória, e teve uma infância feliz. Filho de um mineiro protestante e de uma católica irlandesa - que desde cedo se mostrou determinada em educar os filhos na religião -, na casa que o pai construiu, o domingo era de missa, o sábado à tarde era dedicado à confissão, e todos os dias se rezava o terço.

Para além da religião e da escola, George Pell passava o tempo em brincadeiras de crianças, em corridas de carrinhos de rolamentos, a remar no riacho local e em serões ao piano.

Ao contrário de muitos futuros padres nunca foi um acólito porque durante a infância um problema de saúde, no pescoço, o obrigou a submeter-se a diversas cirurgias. Por volta dos oito anos, o pequeno George andava sempre com um cataplasma à volta da cabeça e era por isso gozado pelos colegas. Foi nessa altura que desenvolveu o gosto pela leitura.

Ainda na escola primária ajudava os pais no pub da família. Contam que era destemido e por isso servia os clientes mais difíceis.

Quando chegou a hora de ir para a faculdade, Pell escolheu Saint Patrick's, uma universidade focada nos desportos mas que era também uma fábrica de padres. Tendo herdado o lado atlético do pai, que foi campeão de boxe e capitão numa equipa de salva-vidas, George Pell foi campeão de velocidade na equipa de atletismo e praticava também salto em comprimento, tiro, críquete, ténis e natação. Em quase todas as disciplinas académicas tinha excelentes notas.

Aquilo que mais gostava, no entanto, era de futebol australiano. Era rápido e dominava nas formações alinhadas. No intervalo dos jogos era ouvido, no balneário, a fazer grandes discursos para motivar os colegas. Em 1959, quando pensava em seguir medicina, assinou um contrato profissional com o Richmond Football Club. Mais tarde, confessou que, naquela altura, já pensava que Deus queria que fosse por outro caminho.

No ano seguinte entrou no Seminário Corpus Christi, em Werribee. Vários seminaristas ainda se lembram dele. Um descreve-o como "alto, forte e sempre pronto para uma briga. Fazia tudo para levar a sua avante." Um outro recorda que "George defendia que os homens tinham de ser homens e as florzinhas pertenciam aos jardins".

Em 1963 foi para Roma para continuar os estudos para padre e lembra esses tempos como turbulentos. Muitos dos colegas não chegaram a ser ordenados, ou deixaram a igreja pouco depois da ordenação. Foi por essa altura que surgiu a pílula, o que provocou uma verdadeira revolução social. Nos seminários havia um vento revolucionário, mas Pell não seguiu esse caminho.

De Roma seguiu para Oxford onde se formou em História da Igreja. Em 1971 estava de regresso a Ballarat para ocupar a posição de padre assistente em diversas paróquias e, a partir daí, começou a subir na hierarquia da igreja. O bispo nomeou-o vigário episcopal para a educação, supervisionando os professores da igreja. Ao mesmo tempo, era professor no Instituto de Educação Católica e acumulava o cargo de assessor do bispo, aconselhando-o em assuntos que incluíam a nomeação de padres para paróquias.

George Pell sempre foi um conservador. Defendia, por exemplo, benefícios fiscais para os casais com filhos menores que ficassem juntos e um imposto especial para os que se separavam, para compensar os danos sociais causados. A declaração mais polémica que fez foi talvez a de que "o aborto é um mal moral mais grave que o abuso sexual de menores." Provocando muita ou pouca controvérsia, Pell não pedia desculpa por defender a doutrina católica.

Quando foi morar para o presbitério, a esquina onde este se situava era um dos locais mais perigosos da Austrália para as crianças. O padre Gerald Ridsdale, capelão na escola primária, já lá vivia e violava os alunos. Naquela altura, a prática era comum aos quatro funcionários da escola, mas a denúncia só aconteceu 20 anos depois. George Pell disse que não desconfiou de nada.

Décadas depois, perante a comissão que investigou os abusos sexuais, garantiu que a enorme carga de trabalho a que estava sujeito fez com que perdesse algumas das controvérsias vividas dentro da diocese, como a dos padres pedófilos que eram calmamente colocados noutras paróquias. As autoridades civis não sabiam de nada. Pell admitiu ainda aos investigadores que, nessa altura, a proteção das crianças não era uma prioridade e o instinto principal era o de proteger a igreja dos escândalos.

Em 1993, George Pell causou de novo polémica ao ser visto a caminhar calmamente ao lado do padre Ridsdale enquanto se dirigiam para o tribunal de Melbourne. Ele admitiu o erro, mas disse que apenas seguiu o instinto cristão de ser "caridoso com os prisioneiros". Gerald Ridsdale ficou para a história como o padre condenado por mais crimes de pedofilia.

Imune a todas as polémicas, em 1996 Pell foi escolhido para arcebispo de Melbourne. Por essa altura, já todos falavam do escândalo dos abusos na igreja católica e o primeiro-ministro do Estado de Vitória, Jeff Kennett, pediu-lhe para agir rapidamente.

O australiano pediu aos advogados arquidiocesanos para prepararem um novo esquema de resposta às alegações de abuso sexual infantil. Em 1996, foi revelado "O protocolo de Melbourne" e a Igreja divulgou um panfleto com um pedido de desculpas geral e detalhes de contactos para reclamações. O protocolo prometia indemnizações modestas às vítimas, menos de 50 mil euros, muito inferior às verbas concedidas em tribunais. Os queixosos eram, no entanto, informados de que se recusassem as indemnizações, a igreja iria defender-se vigorosamente dos processos judiciais. Uma estratégia interpretada como uma forma de desencorajar o recurso à Justiça.

Nos cinco anos em que foi arcebispo de Melbourne, George Pell afastou 20 padres suspeitos de terem abusado de menores.

Em 2001, Pell foi nomeado arcebispo de Sidney e também aí teve de gerir um escândalo de abusos sexuais. Havia acusações feitas contra 50 padres.

No ano seguinte foi diretamente implicado e teve de se afastar enquanto a acusação era investigada. Um antigo acólito dizia que George Pell o tinha molestado durante um campo de férias em 1961. Muitos se lembravam de ver o jovem padre a divertir-se com os miúdos no acampamento, participando em jogos e a conversar com os rapazes. Era essa a imagem que mantinha, a de um padre despreocupado e brincalhão, que convivia com os jovens.

Investigado o caso, um juiz do Supremo Tribunal de Vitória considerou que a acusação não tinha qualquer fundamento. "Agradeço a Deus por esta provação ter acabado e pelo facto de ter sido exonerado de todas as alegações," desabafou Pell quando foi conhecida a decisão.

Nesta altura, já o arcebispo se tinha estabelecido como um católico ortodoxo que recusava a pílula do dia seguinte, que se opunha ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e que defendia o celibato com unhas e dentes. A nível internacional o australiano começou a destacar-se e, em 2003, João Paulo II promoveu-o a cardeal.

Dois anos depois já estava a participar no conclave que escolheu Bento XVI. Os conclaves são secretos mas houve rumores de que Pell agiu como diretor de campanha do amigo Joseph Ratzinger. A aliança entre os dois continuou durante o pontificado e o papa retribuiu o apoio escolhendo Sidney, na Austrália, para receber as jornadas mundiais da juventude em 2008.

Em 2013 a resignação de Bento XVI foi recebida com choque. No último dia de Ratzinger à frente da igreja católica, o cardeal australiano disse que, como líder, Bento XVI tinha sido fraco e preferia alguém que pudesse unir a igreja. Pell não conhecia Jorge Bergoglio mas isso não o impediu de se aproximar do novo papa.

O cardeal identificou os conselheiros próximos de Francisco e, a pouco e pouco, foi conquistando a confiança do novo papa. Foi nomeado para o conselho de cardeais, um grupo informal e restrito composto por oito pessoas, criado por Francisco para o aconselhar sobre as reformas na administração da igreja.

Depois dessa escolha, Pell começou a folhear os livros de contas do Vaticano. Tal como o papa argentino, é defensor de uma igreja sem privilégios e que esteja ao lado dos pobres e necessitados. Em pouco tempo era chamado para uma nova função: Prefeito da Secretaria da Economia do Vaticano.

Foi aqui, como terceira pessoa mais poderosa no Vaticano, que Pell foi apanhado no mais recente escândalo da igreja católica. Um tribunal considerou-o culpado de ter violado um rapaz do coro e molestado um outro, há 22 anos, na Catedral de St. Patrick, em Melbourne.

George Pell, 77 anos, foi arcebispo, cardeal, conselheiro do papa e tesoureiro do Vaticano. Segue-se a prisão.

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