Há um país que vive há um ano sem redes sociais

Na República do Chade, as redes sociais estão bloqueadas há mais de um ano. Esta não é a primeira vez que o país vive um apagão digital, mas o líder político, considerado um aliado da comunidade internacional, tem-se mantido imune a críticas.

Há mais de um ano que o acesso a redes sociais e aplicativos de mensagens, incluindo Facebook, Twitter, WhatsApp e Viber, foi bloqueado no Chade. Este é o mais recente exemplo de censura da internet. Inicialmente, as operadoras de comunicações móveis atribuíram os problemas a questões técnicas, mas já admitiram que o bloqueio foi ordenado pelo Governo de Idriss Déby. Apesar de estarem apenas bloqueadas as redes sociais, a maioria do tráfego da internet no país é canalizado através destes sites, afetando, portanto, um acesso mais amplo à informação.

No poder há cerca de 30 anos, Déby foi reeleito em 2016 para a presidência deste país centro-africano. Após a eleição, o Chade viveu um apagão online que durou oito meses. Desta vez, as restrições no acesso à internet começaram logo em março de 2018, depois de aprovadas alterações constitucionais que permitem que Déby, de 66 anos, permaneça no poder até 2033.

Citada pela CNN, Julie Owono, diretora executiva da Internet Sem Fronteiras, uma organização sem fins lucrativos que defende a liberdade de expressão na internet, acredita que o bloqueio foi decretado porque vídeos de confrontos violentos entre a tribo Zaghawa, no norte do Chade, estavam a ser partilhados via WhatsApp.

As redes sociais são frequentemente utilizadas para a organização de protestos, como a Primavera Árabe de 2011, ou os recentes protestos na Argélia contra a candidatura do Presidente Abdelaziz Bouteflika a um quinto mandato.

A situação no Chade é apenas mais um exemplo de como os governos podem limitar o acesso a informação online. Na China, por exemplo, a mão de ferro e um controlo rígido é uma característica do regime, e o Governo monitoriza as redes sociais à procura de publicações consideradas subversivas. Na Rússia, o Presidente Vladimir Putin também assinou recentemente dois novos projetos de lei que permitem às autoridades um maior controle sobre a web .

Um aliado na luta contra o terrorismo

Embora o Chade tenha mantido a censura em vigor por um período anormalmente longo, na região, 2019 viu outros governos tomarem medidas para aumentar o controlo sobre o fluxo de informações. Na República Democrática do Congo, a Internet foi completamente bloqueada durante 20 dias antes das eleições presidenciais disputadas em janeiro. No mesmo mês, os serviços de internet do Gabão foram fechados durante 28 horas, enquanto o exército tentava um golpe de Estado, e o governo do Zimbábue ordenou dois bloqueios da internet no espaço de uma semana, durante protestos civis provocados pelo aumento dos preços dos combustíveis.

No Chade, apenas 5% da população - cerca de 750 mil pessoas - tem acesso à internet, de acordo com um relatório de 2018 que monitoriza o uso e o acesso à internet em todo o mundo . No entanto, o mesmo relatório revela que o recurso à web no país está a crescer rapidamente: é já a oitava maior taxa de crescimento do mundo - 90% desde 2017.

Apesar de Déby ser considerado um líder autoritário, ocupa uma posição sensível no Sahel, uma faixa da África Subsaariana que se tornou um alvo de milícias jihadistas - e parece ter escapado, até agora, às críticas da comunidade internacional. Visto pelos líderes ocidentais como um governante forte com um grande exército, bem como um colaborador de missões das Nações Unidas na região, Déby está bem posicionado para liderar a luta contra o jihadismo e o extremismo islâmico na região. A participação na Força Conjunta G5 Sahel, apoiada pelos EUA e França, um grupo de países afetados por ataques ligados à Al-Qaeda e ISIS, mostra que a comunidade internacional está empenhada na estabilidade governativa do Chade.

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