"Hoje, passaria pelo mesmo suplício"

Na primeira entrevista desde o dia em que foi preso, Luaty Beirão considera que "chegou o tempo de correr riscos". O Tribunal de Luanda decidiu manter o músico angolano e outros 14 ativistas em prisão domiciliária.

Oito meses depois da detenção, Luaty Beirão confessa na TSF que não se arrepende de nada. "Li um livro, por amor de Deus! Li um livro!". E admite que, se fosse hoje, "voltaria a passar pelo mesmo suplício".

Era o dia 20 de junho de 2015. O rapper angolano era um dos elementos de um grupo de 17 ativistas que se juntaram numa livraria de Luanda, para ler "Ferramentas para destruir o ditador e evitar a ditadura - filosofia política da libertação para Angola".

O livro do jornalista Domingos Cruz, também ele detido, apenas circula de forma clandestina. O grupo acabou preso, acusado de atos preparatórios para uma rebelião. Começou aí uma longa batalha, que levou Luaty Beirão a uma greve de fome de 36 dias. 36 - o número de anos que leva no poder José Eduardo dos Santos.

Uma longa batalha que tornou a luta mais forte. "Estão a tornar-nos, a nós todos, referências na sociedade angolana e até para fora. Não devia ter que ser assim. Devíamos ser 15 "maluquinhos" a pregar para a parede. Mas o facto é que nos deram tanta relevância e nós temos a convicção de que não fizemos nada de mal".

"Chegou a hora de correr riscos"

Desde que foi preso, em 20 de junho do ano passado, Luaty Beirão cumpriu a recomendação dos advogados para não dar entrevistas. Mas agora entende que chegou o momento de falar.

O "silêncio" era uma medida cautelar, porque, "arbitrariamente, como tudo funciona aqui", uma entrevista pode "ser usado contra nós", porque "existe algum risco".

Só que, frisa Luaty, não é possível medir com exatidão esse risco. Daí que "a verdade é que chega uma altura em que os riscos precisam de ser corridos".

E como se sente, depois de uma tão longa greve de fome? A resposta solta-se, sem hesitações: "Bem! Tomei as precauções necessárias, aconselhadas pelos médicos, de voltar a alimentar-me normalmente (...) Tenho companheiros que têm tido maleitas, mas eu não tenho nada. Estou bem!".

"É a vontade de quem manda no país"

O Tribunal de Luanda decidiu, esta sexta-feira, manter a prisão domiciliária dos 14 ativistas que sob essa medida de coação. Uma decisão esperada.

"Num Estado autoritário e autocrático em que vivemos, cuja missão é mandar punir quem quer que levante a voz e ponha em questão o "status quo", é de acordo com a vontade, não do tribunal, não do juiz, mas de quem manda no país", afirma Luaty Beirão.

Para concluir que "esse senhor baixou a ordem para o juiz, que cumpriu". Ainda assim, fica a promessa: "não vamos ficar a sorrir enquanto as coisas acontecem". Até porque, afirma, "em Angola, nada se consegue sem pressão".

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