Eric Frattini

"A Fuga dos Nazis" e a ironia de Frattini: "Não há culpados na Alemanha"

Eric Frattini é um jornalista de investigação espanhol, autor de vários livros que foram sucessos de vendas, particularmente sobre o Vaticano, os serviços secretos e tudo aquilo que os governos teimam em ocultar. Acaba de publicar "A Fuga dos Nazis" e deu uma entrevista à TSF.

No fim da entrevista à TSF, os olhos brilham ao dizer que vai levar mais de trinta jovens sobreviventes de cancro a subir uma montanha e a realizar sonhos. É nesse tipo de coisas que investe quando não está a escrever livros, como "A Fuga dos Nazis", recentemente à venda em Portugal. O livro que relata a fuga, principalmente para a América do Sul, de alguns dos principais criminosos nazis.


Para o jornalista, quase a completar 55 anos, é essencial mostrar o que foi o horror nazi, para que "a geração dos nossos filhos saiba", uma vez que são eles "quem tem a responsabilidade de isto não voltar a acontecer". Quando o nazismo aconteceu, "nós também não fomos responsáveis porque não tínhamos nascido. Mas creio que é uma advertência necessária para que o nazismo e o que provocou o nazismo não volte a suceder no futuro, porque já é um tema da geração deles".

"Nós, tu e eu, estamos velhos", atira Frattini. Desde o "ponto de vista do jornalismo, já denunciámos a corrupção, as matanças que aconteceram no Ruanda e na Jugoslávia. Esse foi o trabalho da nossa geração e agora é responsabilidade desta geração garantir que matanças como as dos tutsis e hutus, como as dos Rohingya, não voltem a acontecer."

Para este autor, a sociedade alemã ainda não pediu desculpas pelo que foi feito em seu nome há mais de setenta anos. "Como um povo tão culto é tão civilizado como o alemão pôde chegar a uma solução final como a do Holocausto?", pergunta, para logo de seguida rematar: "Não devemos acreditar cegamente nos políticos" sem os questionar. É "gente normal, com falhas" e erros que podem ser muito graves. O nazismo matou mais de 50 milhões de pessoas, "quatro milhões de alemães fizeram parte do aparelho de segurança do Terceiro Reich; desses, três mil apareceram numa lista de criminosos de guerra, e desses três mil só 1.175 foram condenados por delito de assassinato." Para o autor, é como que dizer que "não há culpados na Alemanha".

Frattini descreve detalhadamente a fuga dos principais criminosos nazis, de Josef Mengele a Albert Eichman, passando por Klaus Barbie (assessor de Perón na Argentina na perseguição aos comunistas, depois de fugir da Europa), as rotas utilizadas (nomeadamente a Rota das Ratazanas e a Rota dos Conventos ou do Vaticano), a forma como foram protegidos. Lisboa é apontada na investigação como "ponto de passagem" na fuga dos criminosos do Terceiro Reich. Quantos governos fecharam os olhos ou viraram a cara para o lado para que toda essa gente pudesse fugir? pergunta Frattini.

Há tempos, Eric Frattini levou o filho Hugo, de 21 anos e a quem dedica o livro, a visitar o campo de concentração de Dachau, perto de Munique. "Entrámos para dentro da câmara da gás e ele reparou num detalhe. Perguntou-me o que eram as marcas na porta. E eu expliquei-lhe que eram as pessoas desesperadas, que arranhavam as portas de ferro, blindadas, para tentar sair, quando os nazis ligavam o gás". Impressionou o filho bastante, pelo que incentiva os jovens a "visitar Dachau, Ravensbruck, Auschwitz ou Birkenau". Para que não se volte a repetir.

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