Bullying, problemas familiares e jogos violentos. A história dos autores do massacre no Brasil

Oito pessoas foram mortas, esta quarta-feira, numa escola na cidade de Suzano, no Estado de São Paulo. Os dois homicidas, de 17 e 25 anos, eram ex-alunos e, no final, também perderam a vida. Estes foram os antecedentes da tragédia.

O portão da escola estava aberto. Guilherme Taucci Monteiro, 17 anos, e Luiz Henrique de Castro, 25 anos, chegaram de carro e já com as mãos sujas de sangue. No caminho, pararam na loja de carros do tio de Guilherme, onde o jovem já trabalhara. Dispararam sobre o homem. Não morreu de imediato. Foi transportado para o hospital, onde mais tarde acabou por perder a vida.

Guilherme abriu a sua página de Facebook e publicou imagens onde se mostrava armado e usando a máscara que utilizaria durante o ataque. «A viajar para São Paulo», escreveu na descrição da publicação.

Os dois ex-alunos entraram na Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, no Estado de São Paulo. Era a hora do intervalo, muitos estudantes encontravam-se nos corredores.

Guilherme e Luiz Henrique abriram fogo sobre quem encontraram: alunos, uma funcionária e a coordenadora pedagógica da escola. Assassinaram oito pessoas, entre as quais sete crianças. Outras onze ficaram feridas.

No final, Guilherme disparou sobre Luiz Henrique e, de seguida, suicidou-se.

Eram amigos de infância. Tinham andado na mesma escola - o local do massacre - e viviam na mesma rua. Os vizinhos dizem que eram "meninos normais", nem consumiam drogas. Nunca haviam dado sinais de violência.

Luiz Henrique vivia com os pais e os irmãos. Começara recentemente a trabalhar como jardineiro.

Também Guilherme tinha irmãos - quatro -, mas não foi criado pelos pais, que estão separados. A mãe é toxicodependente e encontra-se desempregada há dois anos. Antes de sair de casa, para cometer um dos mais horrendos massacres que o Brasil testemunhou nos últimos anos, Guilherme queimou uma fotografia onde o pai e a mãe apareciam juntos.

Guilherme fora criado pelos avós. Quando a avó morreu, há quatro meses, o jovem começou a dar sinais de tristeza permanente. Nessa altura, já tinha deixado a escola. Abandonou-a no ano passado, dizendo que não aguentava mais ser gozado por causa do seu problema de acne.

Ainda assim, as famílias nunca suspeitaram de uma tendência para comportamentos violentos. Os dois rapazes passavam os dias a passear no shopping e a jogar videojogos de tiros, no salão de jogos do bairro.

"Por aqui passam cerca de cem pessoas por dia, e quase todos jogam jogos de tiros. Se isso determinasse alguma coisa, todas essas pessoas seriam assassinas", diz Tatiane Motta, funcionária do salão de jogos frequentado pelos dois rapazes, em declarações à Folha de São Paulo .

Contudo, conta que um dia reparou que um dos jovens levava ao pescoço a suástica nazi, o que a assustou, e fez com que os clientes passassem a ser vigiados com mais atenção.

Guilherme e Luiz Henrique eram reservados, não falavam com muitas mais pessoas, mas ficavam paranoicos enquanto jogavam, gritando palavrões e incitações à violência."Vou-te matar, vou-te matar!". Era a frase mais ouvida da boca de Guilherme, em frente ao ecrã.

O jogo passou para o mundo real. Esta quarta-feira, os dois rapazes apareceram armados com uma caixa de explosivos e coquetéis molotov e uma arma de calibre 38. Traziam ainda mais duas armas brancas, que de acordo com a Folha de São Paulo, ocupam um vazio legal na legislação brasileira. Tratava-se de uma besta (arma antiga, composta por um arco e um cabo, com que se arremessam setas) e ainda um machado. Armas que, no Brasil, podem ser compradas na internet, por qualquer pessoa, sem nenhum travão da lei, por pouco mais de 100 reais (cerca de 23 euros).

O massacre na Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, aparece como gasolina na fogueira do debate sobre facilidade da compra e posse de armas no país - que o novo Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, pretende flexibilizar ainda mais. Um ato isolado ou um alerta preocupante? As opiniões dividem-se no Brasil.

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