Da retirada da família real, à falta de espermatozoides. Os incríveis planos dos britânicos para o Brexit

Há dois anos que os britânicos se preparam para uma saída da Europa. Entre avanços e recuos na inédita decisão política, o Brexit já produziu efeitos que ninguém antecipava: reduziu o tamanho dos chocolates no Reino Unido, está a deixar os clubes de futebol de cabelos em pé e há receios de ruturas no stock de esperma.

Dois anos após o início do processo do Brexit, têm sido inúmeras as incertezas do processo, constantes os avanços e recuos nas negociações, a multiplicidade de planos, a guerrilha política dentro e fora do Parlamento e preparativos para todo o tipo de cenários. É certo que a economia e a politica são as faces mais visíveis da saída, mas o divórcio entre Londres e Bruxelas tem muitas facetas que vão afetar o dia-a-dia dos cidadãos, principalmente dos britânicos.

As transações com os cartões de crédito podem ficar mais caras. Os pagamentos internacionais feitos pelos britânicos deixam de estar cobertos pela proibição de sobretaxas. Por exemplo, qualquer compra feita através da internet a uma empresa dos 27 vai ficar mais cara. Uma saída sem acordo pode ainda influenciar alguns serviços populares no Reino Unido, como a Uber, que é paga com cartão. Os recibos das viagens no Reino Unido são processados através da sede na Holanda e, por isso, poderão ser sujeitos a novas taxas.

Os maços de tabaco podem mudar de cara. As fotos que atualmente aparecem nos pacotes são propriedade exclusiva da comissão europeia e as empresas britânicas poderão não ser autorizadas a usá-las. As tabaqueiras já se preparam para esta eventualidade.

O esperma pode faltar nas clínicas e hospitais. O Reino Unido importa muitos espermatozoides. Só no ano passado importou 3 mil amostras da Dinamarca e mais alguns milhares a outros Estados membros da UE. Com um Brexit sem acordo, Londres seria forçada a negociar acordos comerciais individuais com diversas empresas, o que vai atrasar a importação.

Produtos mais pequenos. Há diversos bens, que vão do papel higiénico ao chocolate, que encolheram. Para compensarem eventuais perdas por causa do Brexit, as empresas que fabricam, por exemplo, os maltesers, toblerone, Doritos ou diversos sumos de pacote, reduziram o tamanho do produto, ou o número de itens por pacote. Os preços mantiveram-se.

Falta de medicamentos nas farmácias. Cerca de 50% dos medicamentos ou ingredientes que os compõem chegam ao Reino Unido através da Europa. O número é avançado pela associação de produtores de genéricos que admite que a saída possa causar atrasos no fornecimento. Há, por exemplo, doentes que estão a armazenar insulina para o caso de esta deixar de estar disponível.

Futebol com menos estrangeiros. Se, na sequência do Brexit, o Reino Unido ficar fora do acordo de livre circulação, os jogadores comunitários vão ter mais dificuldades em conseguirem contratos com equipas inglesas. O responsável de um clube britânico avançou que dois terços dos futebolistas europeus não cumprem os critérios para terem acesso a um visto automático.

Preparada a retirada da família real em caso de motins. Uma saída desordenada pode provocar motins nas ruas por causa da falta de alguns bens. Preparando todos os cenários, as forças de segurança foram buscar um plano do tempo da guerra fria para protegerem a rainha. O gabinete de contingências civis tem preparadas diversas casas, espalhadas pelo país, que podem abrigar a família real. Isabel II pode, no entanto, optar por ficar em Londres, como fez a rainha-mãe durante a 2ª Guerra Mundial.

Britânicos fora de iniciativas culturais. As cidades britânicas vão deixar de poder candidatar-se, por exemplo, à iniciativa "Capital Europeia da Cultura". Liverpool foi a cidade anfitriã em 2008. Os criativos britânicos vão deixar de ter acesso aos prémios para o cinema, para as indústrias criativas e arquitetura, entre outros. Por exemplo, o Prémio para a Arquitetura Contemporânea, no valor de 60 mil euros, deixa de receber candidaturas do Reino Unido.

Trabalhar no estrangeiro vai ser mais difícil. Atualmente, os cidadãos dos Estados membros podem trabalhar em qualquer um dos outros 27 países. Os britânicos que já trabalham e moram nos outros Estados membros e os cidadãos europeus que estão no Reino Unido têm os direitos protegidos, mas depois da saída a situação vai mudar. A livre circulação acaba, o que torna mais difícil, por exemplo, um português ir trabalhar para Londres.

Acesso a plataformas online pode ficar inacessível. Os britânicos podem ser impedidos de ter acesso às contas próprias em plataformas, como a Netflix ou Spotify, quando viajam para Estados da UE, se houver um Brexit sem acordo. O regulamento de portabilidade em toda a União entrou em vigor em abril do ano passado com um aviso técnico: "O regulamento deixará de se aplicar aos cidadãos do Reino Unido quando viajarem para a UE." Isso significa que os provedores de serviços de conteúdo online não serão obrigados, nem poderão oferecer acesso transfronteiriço, aos consumidores do Reino Unido usando a regulamentação de Bruxelas.

Famílias em processos de separação podem ficar num limbo. No caso de um casal com elementos de dois países que esteja em processo de divórcio ou de regulação da custódia dos filhos tudo pode ficar em suspenso. Se houver um Brexit sem acordo, o Reino Unido deixará de fazer parte da cooperação entre os tribunais de família e terá de recorrer a convenções jurídicas elaboradas em Haia. Estas convenções não abrangem todas as áreas da lei. O governo britânico tem, por isso, aconselhado as famílias com casos em andamento a procurarem aconselhamento jurídico.

Há também números que se destacam em todo este processo.
1.000.000.000 - Cerca de mil milhões de euros é quanto a economia britânica está a perder semanalmente com todas as indecisões.
5.000.000.000 - Mais de 5 mil milhões de euros foi quanto o Governo britânico já gastou a preparar-se para a eventualidade de um Brexit sem acordo.
20.833 - Leis e regras da União que foram analisadas e, nalguns casos alteradas, para permitir um Brexit suave.
3.800 - Britânicos empregados em instituições comunitárias ou a receber pensões da União. Estas situações vão manter os laços financeiros entre os dois lados durante as próximas décadas.

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