Robert Sherman

"É difícil gritar com o governo dos Estados Unidos"

Robert Sherman - que foi, durante quase quatro anos, embaixador dos EUA em Lisboa - conta como foi difícil começar a dialogar com o presidente do Governo Regional dos Açores.

Quando Robert Sherman chegou a Lisboa, em 2013, tinha uma bomba nas mãos. Washington já tinha comunicado a Lisboa que tinha de avançar uma redução drástica do contingente militar americano, na base das Lajes. E na Terceira, já se faziam contas ao impacto da medida na economia açoriana, que vivia há décadas com grande dependência da presença militar americana.

Por isso, uma das primeiras missões como embaixador americano foi viajar para os Açores e reunir-se com Vasco Cordeiro, que estava em funções há menos de um ano.

Robert Sherman admite que foi um mau início de relacionamento entre os dois, mas que, entretanto, "já conversaram e encontraram um território comum de consenso".

"Do meu ponto de vista, o Vasco Cordeiro é um defensor apaixonado dos Açores, e quer cuidar, de forma muito próxima, do povo açoriano.
Obviamente, como líder político sentiu muito o impacto da decisão dos Estados Unidos. É muito difícil gritar com o governo dos Estados Unidos, por isso ele precisava de uma pessoa a quem pudesse gritar. Calhou ser eu, essa pessoa, e eu estava bem nesse papel e entendi".

O antigo embaixador dos Estados Unidos da América em Portugal explicou, no Almoço TSF, que "numa relação, e não interessa se é um casamento, uma relação de negócios, ou uma relação entre estados, temos sempre que comunicar, de ouvir mais que falar, e de entender o ponto de vista da outra pessoa. E essa foi uma das falhas dos Estados Unidos, quando ao processo das Lajes. Falhou na comunicação com um aliado importante, na explicação das justificações da decisão, e em entender o impacto que a decisão teria. Mas penso que conseguimos evitar o desastre".

O "desastre" que era temido por Vasco Cordeiro "era um número muito elevado de pessoas sem emprego e sem apoio económico".

Sherman explica que "a decisão tomada pelas chefias militares dos Estados Unidos, foi baseada nas crises que o mundo vivia, com o crescimento do terrorismo no norte de África e no Médio Oriente".

A necessidade de mobilidade e flexibilidades das forças americanas visava uma maior proximidade da ação, e Robert Sherman, subscreve a decisão: "Foi a mais correta naquele momento, mas não quer dizer que as coisas não possam mudar no futuro."

A alternativa

No livro, Robert Sherman lamenta que Vasco Cordeiro tenha sempre rejeitado todas as alternativas apresentadas pelos Estados Unidos, na negociação sobre a retirada do pessoal militar e na diminuição do pessoal civil local.

No Almoço TSF, o antigo embaixador conta que o trabalho continua, e que estão em marcha, hoje, muitas alternativas: "Continuamos a trabalhar juntos com o MIT, que tem um programa em Portugal, no sentido de trazer para os Açores avanços tecnológicos, como um local para lançar pequenos satélites e um centro para estudar as alterações do clima, e outras coisas."

E acrescenta: "Quem sabe, se o Atlântico norte, não voltará a ser uma localização estrategicamente importante, onde voltaremos a ter de estar".

Sobre os erros de uns e outros, Robert Sherman fala sobre os que são responsabilidade da administração norte americana, e das chefias militares: "É importante falar com os aliados e amigos, sobre o impacto das nossas decisões".

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