Tibete

Há 60 anos, uma revolta no teto do mundo levou ao exílio do Dalai Lama

As tropas chinesas entraram pela primeira vez no Tibete em 1950. Nove anos depois, temendo o rapto ou detenção do 14º Dalai Lama, o povo saiu para as ruas dando início a uma revolta que acabou de forma sangrenta.

Na manhã de 10 de março de 1959, os testemunhos dão conta de um ambiente tenso na cidade de Lhasa.

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Uns dias antes, um general chinês tinha convidado o líder religioso para ver a apresentação de um grupo de dança chinês no quartel do exército. Aceite o convite, os militares disseram ao Dalai Lama para ir ao quartel sozinho, sem seguranças. Esta instrução despertou uma sensação de perigo entre os mais próximos do líder tibetano. Após anos de guerrilha entre rebeldes e soldados chineses, o convite amistoso pareceu suspeito o suficiente para que, no dia do espetáculo, milhares de manifestantes (cerca de 300 mil) cercassem o palácio de Norbulinka, na capital.

Ao meio-dia, a agitação transformou-se em revolta. Civis e rebeldes começaram a percorrer a cidade com bandeiras a exigir a saída da China e a independência do país. À noite, o Comité Central Administrativo entrou em contacto com Pequim para dar conta do que se estava a passar. Em todos os passos desta crise, tanto o comité central como o exército de libertação estiveram em estreito contacto com a liderança chinesa. Qualquer ação planeada tinha primeiro de ser aprovada por Pequim.

Com Mao de visita à província de Wuhuan, era Liu Shaoqi que estava no comando. No dia seguinte, reuniu a cúpula do partido, que incluía Zhou Enlai, Deng Xiaoping, Peng Zhen e Xu Bing, entre outros. Analisaram a crise no Tibete não como uma ameaça, mas como uma potencial oportunidade. Estavam convencidos de que a revolta ajudaria a expor os elementos reacionários na região e abria caminho para as reformas que a China há muito queria implementar. Já antes, Mao Zedong tinha defendido que quanto mais caótica fosse a situação no Tibete melhor seria para a China, porque permitia treinar as tropas e justificava o uso da violência para esmagar a revolta.

Com o passar dos dias aumentou a mobilização de tropas rebeldes para combater as forças de Pequim e diversos quadros chineses e tibetanos que apoiavam a ocupação da China foram atacados. A tensão entre os dois lados aumentou. O exército em Lhasa recebeu ordens para não disparar e para se manter na defensiva, enquanto mais tropas eram enviadas para a região. A liderança politica tentava entretanto conquistar o apoio do Dalai Lama. Entre 10 e 16 de março, três cartas foram enviadas para o palácio de verão onde estava o líder tibetano. Três textos com o objetivo de serem mais tarde divulgados como propaganda. Mao deu entretanto instruções para que as tropas não tentassem impedir o Dalai Lama de abandonar o Tibete.

Dalai Lama 1959

No dia 15 de março, a artilharia pesada chinesa foi colocada em locais de onde podia atingir Lhasa e particularmente o palácio de Norbulinka. Começaram a circular rumores de que mais tropas estavam a chegar da China e, ao cair da noite, os moradores de Lhasa estavam convictos de que a residência oficial do Dalai Lama seria bombardeada. No dia 17, às 4 da tarde, os chineses dispararam dois morteiros contra o palácio. Os projéteis caíram num pântano perto das muralhas. Suficientemente perto para fazerem com que o Dalai Lama decidisse abandonar Lhasa. Às 10 da noite, vestido com um uniforme de soldado e de arma ao ombro, o líder espiritual tibetano abandonou a capital em direção à Índia.

A revista norte-americana Time publicava, três dias depois, o relato do início da fuga: "A noite já se tinha instalado no teto do mundo. Com um tilintar de arreios e o clip clop dos cascos, uma pequena caravana avançava lentamente. No horizonte, estavam os cumes nevados dos Himalaias, um oceano de picos e cordilheiras que desde o início dos tempos serviam como defesa para o Tibete. Cavaleiros com as armas em riste avançavam; oficiais do Estado usando peles e com brincos turquesa sentavam-se nas selas cansados; peões com os tradicionais chapéus pontiagudos tentavam orientar a carroça das bagagem através do caminho íngreme. Ao passarem por um monte de pedras cobertas por bandeiras de cores vivas impressas com orações budistas, cada tibetano acrescentou uma pedra ao monte, murmurando uma ladainha tradicional. Eles escutavam para tentarem perceber se ouviam tiros atrás deles, o que significaria que os chineses tinham entrado em confronto com as tropas que tinham ficado na retaguarda. À frente diversos batedores avançavam com cuidado para perceberem se tinham sido colocados obstáculos no caminho. Todos eles, 110 homens ao todo, tinham sido encarregues de uma missão solene: garantir que a fuga do líder supremo, então com 23 anos, seria feita em segurança."

Dalai Lama na capa da revista Time / 1959

A viagem até à Índia demorou duas semanas e durante todo esse tempo muitos temiam que ele tivesse sido morto durante o trajeto.

Em Lhasa, começavam os combates. Há relatos de combates corpo a corpo durante dois dias, sem qualquer hipótese de sucesso para os mal equipados e inexperientes membros da resistência tibetana. O palácio de Norbulinka foi bombardeado por 800 morteiros em apenas 24 horas. Milhares de homens, mulheres e crianças que estavam acampados junto às muralhas foram abatidos e as casas de cerca de 300 funcionários do governo que ficavam dentro das muralhas foram destruídas.

Os confrontos duraram três dias e no balanço final 200 elementos da segurança do Dalai Lama foram detidos e executados publicamente. Os principais mosteiros de Lhasa, Ganden, Sera e Drepung foram bombardeados e diversos tesouros monásticos e raras escrituras foram destruídas. Milhares de monges foram mortos, transportados para as cidades para trabalharem como escravos, ou deportados. Os militares chineses fizeram buscas de casa em casa e todos os moradores que estavam armados foram executados no local. Ao certo não se sabe quantas pessoas morreram durante a revolta tibetana. Números apontam para pelo menos 10 mil desaparecidos.

A BBC dizia na altura que "todos os homens com idade para combater, que sobreviveram, foram deportados e os que conseguiram fugir contaram que nos arredores de Lhasa as forças chinesas queimaram corpos por mais de 12 horas".

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