Trump-Putin

Ligações perigosas? Livro garante que Trump vai fazer tudo para travar as investigações judiciais

Michael Isikoff, um dos autores do livro "Roleta Russa", pensa que a investigação das alegadas ligações Trump - Kremlin vai explodir nas próximas semanas e o presidente vai fazer tudo o que puder para a travar.

A administração Trump tem estado sob suspeita por causa da possível interferência russa nas presidenciais americanas. Um procurador especial foi nomeado para liderar a investigação e, por causa do trabalho de Robert Mueller, diversas figuras ligadas ao Presidente foram acusadas judicialmente. Entre elas, o antigo diretor de campanha, Paul Manafort, e um antigo conselheiro de Segurança Nacional, Carter Page, que se declararam culpados de vários crimes.

Nos últimos anos, dois jornalistas norte-americanos investigaram o ataque russo contra a democracia americana, os interesses de Trump no antigo país dos sovietes e a passividade das autoridades perante este caso. O resultado está no livro, agora editado em Portugal, "Roleta Russa".

Michael Isikoff, um dos autores do livro "Roleta Russa"

A TSF conversou com um desses jornalistas, Michael Isikoff, que explicou que o interesse de Trump por Moscovo começou muito antes da campanha presidencial. Em 2013, o então empresário teve oportunidade de levar o concurso Miss Universo até Moscovo, "só que o motivo verdadeiro para a viagem era tentar um acordo para construir uma Trump Tower na capital russa. Ele tinha um parceiro de negócio, Aras Agalarov, um oligarca milionário que era próximo de Putin. Tinha sido ele a convidar o Presidente russo para o concurso, e esperava uma oportunidade para conversar diretamente com Putin. Porquê? Porque ele sempre admirou Putin, o Presidente russo é um autocrata que governa o país como Trump gostaria de governar a América, mas também porque sabia que a aprovação de Putin ou do Kremlin era essencial para o projeto da Trump Tower."

O acordo acabou por não se concretizar porque Vladimir Putin decidiu anexar a Crimeia e os Estados Unidos e a União Europeia avançaram com sanções. Um dos alvos das medidas dos europeus foi o Sberbank, um banco do Estado russo, que ia financiar o projeto da Trump Tower. Michael Isikoff diz que "o negócio era um grande empreendimento. Donald Trump Jr. foi nomeado responsável e a Ivanka Trump foi a Moscovo em fevereiro de 2014 procurar um local para a construção. Na perspetiva de Trump foram as sanções impostas por Obama que lhe estragaram o negócio e portanto se queremos compreender a hostilidade que Trump tem para com as sanções, temos de perceber que para ele foram as sanções que não permitiram a construção da tão desejada Torre."

O aperto de mãos entre Donald Trump e Vladimir Putin, na conferência de imprensa após a Cimeira de Hensínquia, na Finlândia, a 16 de julho de 2018

Trump não se deu por vencido e fez uma nova tentativa quando já estava a candidatar-se à presidência: "Assinou um outro contrato para construir uma Trump Tower e foi surpreendente para muita gente que mesmo entrando na corrida à Casa Branca ele continuasse a perseguir um negócio pessoal que necessitava da aprovação do Governo russo."

É durante a campanha para a presidência que surgem diversos nomes ligados, de uma forma ou de outra, à Russia. Não é certo que Donald Trump soubesse dessas ligações, mas os dois jornalistas também não podem garantir o contrário. No livro conta-se que, quando soube da escolha de Paul Manafort para a campanha de Trump, a então secretária de Estado assistente que supervisionava a politica com a Rússia pensou: "Há 15 anos que ele é um fantoche da Rússia." Já George Papadopoulos - que Trump descrevia como "um consultor para a energia e petróleo, excelente tipo" - foi apresentado durante a campanha como consultor de politica externa e dizia poder marcar um encontro entre Putin e o candidato republicano. Michael Flynn, que viria a ser o primeiro conselheiro de Segurança Interna da administração Trump, era um antigo tenente general reformado e assumia uma posição conciliadora em relação à Rússia. Via Putin como possível aliado na luta contra o extremismo islâmico. Em 2015 foi convidado a falar em Moscovo nas comemorações do décimo aniversário do RT, o canal de televisão do Governo russo.

Para Michael Isikoff, estes e outros nomes surgiram na campanha porque "Donald Trump não conseguiu que figuras respeitáveis republicanas com experiência se juntassem à campanha. O que ele defendia era o oposto das politicas que os republicanos tinham seguido ao longo dos anos especialmente em relação à Rússia e à NATO. E assim ele acabou com um grupo de figuras marginais que eram muito próximas de Putin e dos russos."

O Presidente russo, Vladimir Putin, em agosto de 2018

Lendo "Roleta Russa" fica a dúvida se a interferência da Rússia nas eleições de 2016 teve a ver com o rancor que Putin tinha a Hillary Clinton ou com a vontade de colocar Trump na Casa Branca. O jornalista de investigação da Yahoo News considera que "tudo começou como resultado da animosidade de Putin em relação a Hillary Clinton. Putin culpava-a pelos protestos contra a decisão que tomou em dezembro de 2011 de regressar à presidência. Culpava Hillary Clinton pelos protestos oficiais contra as fraudes nas eleições que o colocaram de novo no poder. Ele via-a como a personificação do sistema americano, principalmente do sistema de politica externa que, do ponto de vista dele, era contra os interesses russos no mundo. Acho que a intervenção de Putin nas eleições americanas começou como uma tentativa de minar a Hillary Clinton. Não acredito que ele tenha sentido que podia evitar a eleição de Clinton mas pensou que poderia minar a legitimidade dela como presidente roubando milhares de emails do partido democrata e da campanha presidencial e divulgando-os através da wikileaks como forma de levantar duvidas em relação a ela."

Isikoff adianta que "a dado momento na corrida, Putin terá começado a pensar: bem, parece que talvez este tipo Trump, que só diz coisas simpáticas a meu respeito, possa ser eleito. Acho que foi nessa altura que terá dito: Porque não? Porque não ter na casa branca um tipo que me elogia em vez da Clinton que só me critica?"

Hillary Clinton

Foi ainda durante a corrida presidencial que se soube do ataque de hackers russos contra diversos alvos democratas e da guerra de propaganda nas redes sociais, apesar de no segundo caso só mais tarde se ter percebido a dimensão do problema. Os serviços de informação e de segurança norte-americanos começaram as investigações. A campanha de Hillary Clinton denunciou diversas vezes a ingerência de Moscovo mas poucos lhe deram ouvidos. Michael Isikoff defende que "houve uma falha gigantesca da parte dos serviços de informação e uma grande falha politica da administração Obama pela forma como não respondeu aos ataques. Houve avisos feitos a Washington sobre o que os russos estavam a preparar. No livro falamos na fonte secreta que o Governo americano tinha no interior do Kremlin e que nos disse para estarmos atentos em relação a Putin porque ele tinha grandes planos para ataques cibernéticos e guerra de informação de forma a desestabilizar as democracias ocidentais, incluindo os Estados Unidos. Por razões que ainda são difíceis de entender, os alertas não foram levados a sério ao mais alto nível na administração Obama. Quando as coisas avançaram em 2016, e o escândalo começava a ser difícil de ignorar, a Casa Branca de Obama debateu-se sobre a resposta a dar e basicamente teve medo de ir muito longe e ficar sujeita aos ataques políticos dos republicanos."

Barack Obama

A 7 de Outubro de 2016, a Casa Branca decidiu finalmente falar do assunto, mas as circunstâncias desse dia fizeram com que outras noticias abafassem o comunicado assinado pelos serviços de informação. O jornalista norte-americano recorda assim o que aconteceu: "Foi um dos dias mais espantosos de sempre na politica americana. Foi o dia em que a administração Obama decidiu responsabilizar os russos e divulgar um comunicado dizendo que os russos estavam a atacar as nossas eleições e que isso só podia ser feito com luz verde das mais altas instâncias do Kremlin. Toda a gente pensou que isso ia dominar o dia informativo, mas depois foi divulgada a gravação do programa Acess Hollywood e toda a gente começou a falar da forma como Trump tratava as mulheres. Quando pensámos que a campanha dele ia ruir por causa da gravação o que é que aconteceu? A Wikileaks divulgou os e-mails de Podesta, diretor de campanha de Hillary Clinton, e de repente as pessoas estavam a ler estas mensagens que eram embaraçosas para ela. Como é que isso aconteceu naquele dia em particular e porquê? Isso é algo em que Robert Mueller se está a focar muito intensamente na investigação e espero que vejamos resultados muito em breve."

O Procurador Especial Robert Mueller, que lidera a investigação às alegadas ligações Trump/Rússia

Michael Isikoff acredita que depois das eleições intercalares se vai ouvir de novo falar do Procurador especial. Ele vai mover-se rapidamente para chegar ao fim da investigação. O jornalista espera, pelo menos, mais uma acusação e depois o relatório.

Isikoff reconhece que Donald Trump vai fazer todos os esforços para se livrar de Mueller, despedindo primeiro o Procurador-geral (Jeff Sessions pediu esta quarta-feira a demissão, a pedido do Presidente) e o vice-procurador, Rod Rosenstein. Depois disso pode desembaraçar-se de Mueller. O autor de "Roleta Russa" prevê que esta história vá ficar muito mais quente e polémica.

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