"O nosso dever é apoiar o Islão moderado" para evitar o crescimento do extremismo

Tomáš Halík, um dos teólogos mais respeitados do século XXI, está em Lisboa para lançar o novo livro "Diante de Ti, os meus caminhos".

O teólogo, filósofo e psicólogo checo nasceu em Praga durante a era comunista. Converteu-se ao cristianismo já adulto, foi ordenado padre em segredo no final da década de 70, pertencendo à "Igreja Subterrânea". Com a queda do regime comunista, foi conselheiro do presidente checo Václav Havel, ajudando o país na transição para a democracia. Em 2014, venceu o prémio Templeton. Hoje em dia é professor na Universidade Charles, em Praga. Defende a tolerância entre religiões e destacou-se pelo diálogo tanto com crentes como com não crentes.

Tomáš Halík está em Lisboa para apresentar o novo livro "Diante de Ti, os meus caminhos", editado em Portugal pelas Paulinas. Participa esta quarta-feira em duas conferências na Universidade Católica e no Colégio São João de Brito. Na quinta-feira, participa numa conversa sobre o novo livro na Capela do Rato.

Fala para o mundo moderno, dirigindo-se a crentes e não-crentes. Converteu-se ao Cristianismo já adulto. Fez parte da estrutura do Pontifício Conselho para o Diálogo com os Não-Crentes. Como é que tudo isto o preparou para lidar com os não-crentes? Como vê a atual crise de fé?

Eu nasci num país onde a religião não é um dado adquirido. É um desafio. E penso que essa situação é uma grande oportunidade para pensar de forma mais profunda sobre a fé.

Penso que, no mundo de hoje, não há apenas dois grupos de pessoas: os crentes e os não crentes. Creio que a divisão de hoje é entre os chamados residentes e aqueles que procuram alguma coisa. Os residentes são aqueles que se identificam plenamente com a Igreja, com os ensinamentos e a liturgia. Estas pessoas estão a diminuir em grande parte do mundo. Da mesma maneira, o número de ateus muito convictos também está a diminuir. O que está a aumentar é o número de pessoas que procuram. Para eles, este caminho e esta fé está ligada ao pensamento crítico. E também têm dúvidas e perguntas sem resposta.

Para muita gente que diz ser ateia ou diz não acreditar em Deus, creio que não estão contra Deus. Creio que existem alguns apateístas, ou seja, as pessoas que têm uma apatia ou indiferença em relação à igreja ou à religião, mas também há muitas pessoas que têm muitas perguntas em aberto. O futuro da Igreja depende da forma como conseguiremos comunicar com essas pessoas que procuram.

Muitos destes não crentes ou pessoas que procuram algo, como refere, são pessoas que foram educadas pela igreja católica mas não se identificam com ela. Portugal pode servir de exemplo para isso. Há pessoas que pensam em Deus como controlador e castigador. O que dizer a esses não-crentes?

O Papa Francisco tem sido capaz de falar com essas pessoas e ele tem mostrado uma grande autoridade entre essas pessoas. Ele entende que essas pessoas se tenham desiludido com um certo tipo de Igreja. Ele fala de clericalismo. Creio que pode ser esse o nome para esse catolicismo muito fechado. Devemos abrir espaço para pensamento crítico e também para o aprofundamento da nossa fé numa dimensão mais espiritual. Por isso, dialogar é muito importante. Não devemos empurrar as pessoas para a estrutura da Igreja, mais institucional, mas abrir esta estrutura e mostrar-lhes a experiência daqueles que procuram.

Foi conselheiro do presidente Václav Havel. Ele chegou mesmo a sugerir que se candidatasse à presidência, algo que detalha bem no livro. Como é que avalia essa passagem pela política?

Václav Havel foi um bom amigo durante 40 anos. Quando ele se tornou Presidente, reunia-se com intelectuais a cada quinze dias para discutir muitas coisas. Creio que é muito positivo quando os políticos dão ouvidos a filósofos. E o sucesso internacional de Václav Havel - porque ele acabou por se tornar um símbolo fora da República Checa - deveu-se à sua dimensão espiritual e intelectual de fazer política. Para ele, a política não era apenas uma questão de poder mas estava relacionada com educação e inspiração intelectual e moral da sociedade. Creio que esta dimensão da política é muito importante.

No campo da política, tem recebido algumas críticas - mas também elogios - sobre a forma tolerante como olha para outras religiões, nomeadamente o Islão. Como é que avalia o crescimento da intolerância religiosa nos últimos tempos na Europa?

O diálogo entre religiões e a relação entre religiões é muito importante no nosso mundo, especialmente com o Islão, porque temos recebido muitos emigrantes e o futuro da Europa caminha para essa pluralidade de culturas e religiões. Temos de aprender a viver em conjunto, o que não é muito simples.

Há políticos que usam este medo do Islão e o medo de migrantes de forma indevida. É muito complicado para a migração. Mas se reagirmos com ódio contra todos os muçulmanos, os muçulmanos também terão a tendência de ser tornar mais radicais. Essas pessoas que usam o ódio contra o Islão estão, na verdade, a ajudar os islamitas radicais. Estes dois grupos - portanto, os islamitas fundamentalistas e aquele que são contra o Islão de forma radical - são antagonistas e precisam um do outro.

O nosso dever é apoiar o chamado Islão moderado e distingui-lo do fundamentalista. E temos de ensinar as pessoas no ocidente mais liberal que todas as religiões, incluindo o Islão, têm algo a oferecer do ponto de vista espiritual e tradicional.

Este ódio de que fala tem levado a um aumento dos movimentos de extrema-direita na Europa, ao aumento do populismo. Como dar a volta a isto?

Há um grande problema neste momento: estamos perante uma crise familiar. E, às vezes, a família não é capaz de ajudar os mais jovens a criar a sua própria identidade. Eles têm uma identidade pessoal muito fraca e vaga. Acabam por procurar grupos radicais, que oferecem uma identidade coletiva. Quer sejam seitas religiosas muito fundamentalistas, ou grupos políticos radicais de direita ou de esquerda, eles oferecem uma identidade coletiva a estas pessoas que não sabem bem quem são. Então, isto é muito perigoso. Creio que a tarefa de criar identidades e de promover a compreensão do património cultural cabe sobretudo à família mas também à Igreja e à escola.

Recentemente, José Tolentino Mendonça iniciou funções como arquivista do arquivo secreto do Vaticano. A sua forma de estar no mundo e os seus livros têm sido muito acompanhados em Portugal. E às vezes são feitas comparações entre vocês os dois, relativamente a uma forma de pensar similar. Como é que são os vossos encontros?

Fiquei muito feliz quando descobri os livros do padre Tolentino. E fiquei muito feliz quando o conheci em pessoa. Temos realmente uma maneira de pensar semelhante e temos também uma cara parecida.É como se fossemos irmãos!

Aprecio muito o seu modo de vida e o que tem feito pela Igreja, sobretudo agora em Roma e espero ter a oportunidade de estar com ele novamente porque ele faz parte do grupo de pessoas que tem uma mente aberta, que procura as verdadeiras respostas para as perguntas difíceis dos nosso tempos. Já os populistas oferecem respostas simples para problemas complexos. Então os pensadores estão a agregar a fé, o pensamento crítico e a espiritualidade. É o caso do padre Tolentino e espero que eu próprio também. E devemos criar uma espécie de aliança de forma a servir a Igreja e a servir as pessoas do nosso mundo contemporâneo.

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