"O Silêncio dos Outros". Para acabar de vez com o esquecimento da ditadura de Franco

Ao longo de 40 anos, Espanha viveu mergulhada no silêncio sobre um dos períodos mais negros da história do país. O documentário "O Silêncio dos Outros" acompanha a luta por justiça de quem quer sair do esquecimento.

Na berma de uma estrada, Maria Martín prende um ramo de flores. "É o sítio da vala comum", explica, a vala onde está a mãe dela. Maria encosta-se ao rail. "Que injusta é a vida", desabafa, para corrigir de seguida, "não a vida, os homens".

Faustina foi assassinada pelos apoiantes de Franco quando Maria tinha apenas seis anos. O pai pediu-lhe: "Traz a tua mãe de volta para mim". Tornou-se a luta de uma vida.

Francisco Franco esteve 40 anos no poder, até à sua morte em 1975. Dois anos depois, o parlamento espanhol aprovou o "pacto do esquecimento". A amnistia para os presos políticos do regime era aplicada também aos crimes do Franquismo. Esquecer para olhar para a frente, sem rancor, diziam.

"Há toda uma parte da sociedade espanhola, com menos de 35, que sabe muito pouco. Quem tem mais de 35, sabe um bocadinho mais. Mas nada disto é estudado na escola. Sabemos quem é Franco, mas é um assunto que a determinada altura se decidiu deixar para trás", conta Almudena Carracedo, autora de "O Silêncio dos Outros".

O documentário, que realizou com o companheiro, Robert Bahar, acompanha a luta de vítimas do Franquismo para tentar levar à justiça os responsáveis. Almudena sentiu que era preciso contar esta história de silêncio.

"As feridas nunca se fecharam para milhares e milhares de pessoas em Espanha. O que eles dizem, e que é mostrado no documentário, é que eles querem curar as feridas, virar a página. Mas primeiro têm de ler essa página, para curar e a passarem corretamente".

Em Espanha, os tribunais recusam-se a investigar os crimes cometidos durante a Ditadura à luz do pacto do esquecimento. Por isso, em 2010, as vítimas do Franquismo recorreram ao princípio de Justiça Universal. Falam de crimes contra a humanidade, que o Direito Internacional estabelece que nunca prescrevem e podem ser investigados em qualquer parte do mundo.

Na Argentina, aceitaram o caso. A juíza María Servini de Cubría asssumiu as rédeas do processo e começou a ouvir as histórias silenciadas.
Os fuzilamentos, a tortura, os trabalhos forçados, os roubos de crianças.

A justiça argentina quer levar a tribunal os autores dos crimes e recuperar os corpos dos desaparecidos. Ordenou detenções e extradições, fez pedidos para ouvir torturadores. O processo começou há oito anos, mas tem sido travado pelos tribunais em Espanha.

Nos últimos meses, com um novo governo, houve novidades na forma como os espanhóis lidam com o Passado. O corpo de Franco vai ser retirado do Vale dos Caídos , um símbolo de 40 anos de regime. A realizadora Almudena Carracedo acredita que agora as coisas estão a mudar. "Com o novo governo, parece que há abertura para retomar este processo. Vamos ver o que vai acontecer. Hoje em dia, em 2018, a sociedade espanhola já vive numa democracia consolidada e é perfeitamente capaz de conversar e pensar no que fazer com estes milhares de desaparecidos e torturados - o que fazer em Espanha para resolvermos isto entre todos".

O documentário "O Silêncio dos Outros" acompanha o desespero de quem espera, mas também as pequenas vitórias, a esperança renovada.

Ascensión Mendieta viajou para a Argentina aos 88 anos para contar a história do pai, Timoteo Mendieta, fuzilado a 15 de novembro de 1939. Mais de 78 anos depois, a justiça decidiu a favor dela e ordenou a exumação do corpo. No documentário, vemos Ascensión a receber a notícia, a fazer a recolha de ADN para a identificação do corpo, a assistir à abertura da vala comum, a enterrar o pai.

Com 91 anos, Ascensión pode finalmente dar um enterro digno ao pai. Maria Martín, não teve a mesma sorte; morreu sem cumprir a promessa que tinha feito de recuperar o corpo da mãe.

"A realidade é a de Maria Martín. A maioria destas pessoas morrem sem conseguir uma coisa tão simples como enterrar os amigos e familiares de forma digna. A realidade de Maria é a de todos os dias neste país", lembra Almudena.

Espanha está cheia de valas comuns. Desde o ano 2000, foi possível recuperar mais de 8 mil corpos. Mais de 100 mil continuam à espera de sobreviver ao esquecimento.

"O Silêncio dos Outros" tem estreia portuguesa na 16.ª edição do festival Doclisboa. É exibido esta sexta-feira, 19 de outubro, às 18h, na Culturgest.

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