Direitos Humanos

Sofreu na pele ataques da extrema-direita por defender os direitos das mulheres

Sofreu na pele com um ataque da extrema-direita por defender os direitos das mulheres e LGBT na Ucrânia. Isso não lhe deu medo, deu-lhe força. Vitalina Koval está em Portugal para partilhar a sua história no Fórum da Coragem da Amnistia Internacional.

Sorriso aberto, senta-se num sofá e começa a conversa por perguntar sobre a ascensão do populismo em Portugal. Está interessada em saber se o país acompanha a tendência de outras geografias onde a extrema-direita tem vindo a cativar cada vez mais apoiantes. "Na Ucrânia, não está fácil", diz Vitalina Koval em jeito de quebra-gelo.

Com 28 anos, decidiu, há três, ser ativista a tempo inteiro. "Anteriormente, eu era socialmente ativa através de projetos artísticos e fiz também parte da Revolução da Dignidade, em 2014. Comecei o ativismo depois de sair do armário para os meus pais, antes tinha medo", começa por contar Vitalina. Mulher e lésbica num país conservador, decidiu tentar mudar mentalidades a começar pela cidade natal de Uzhgorod.

A viver atualmente em Kiev, uma das razões para a mudança de cidade foi a perseguição de que era alvo. Tudo começou com discurso de ódio através das redes sociais, mas passou da rede para a rua. "O maior desafio foi o movimento de extrema-direita que está a crescer na Ucrânia. Começaram a ter alvos LGBT, defensores dos direitos das mulheres e agora também ativistas anticorrupção. Eles estão a atacar fisicamente de forma violenta defensores de direitos humanos em ações públicas", relata a ativista.

Voltamos no tempo até 2017. "Quando decidimos organizar ações pelos direitos das mulheres contra a violência doméstica - porque na Ucrânia temos muitos problemas de violência doméstica - eles atacaram-nos. Imagine a situação quando tem cerca de 15 mulheres com placas contra a violência doméstica e pela ratificação da Convenção de Istambul... De repente, 30 homens brancos com roupa desportiva começaram a empurrar-nos, pegaram nas placas e puseram-nas no lixo", recorda. Depois deste episódio, fizeram queixa à polícia e depois de alguns meses souberam que o caso foi arquivado e sem quaisquer resultados.

Mas o episódio não a demoveu de continuar na luta. "Este ano, quando decidimos voltar a organizar a ação [no dia internacional da mulher], este grupo de extrema-direita atacou-nos de forma mais violenta. Pegaram em tinta vermelha com químicos e atiraram, fiquei com queimaduras nos dois olhos", conta. Isso deu-lhe mais força? Pergunto para ouvir uma resposta clara: "Como parte da sociedade ucraniana, como defensora dos direitos humanos, eu enfrento este desafio porque eles tentam silenciar-nos com este ataque, eles tentam que nós não saiamos à rua e falemos sobre os nossos direitos. Para nós é um desafio falar mais sobre isto, sermos mais ativos e defendermos o nosso futuro".

Além de mulher e defensora dos direitos das mulheres, as meias que traz calçadas com as cores do arco-íris não enganam: é defensora e ativista da comunidade LGBT. Salientando que há um longo trabalho pela frente, Vitalina Koval realça que há vários grupos e iniciativas que surgiram depois da Revolução da Dignidade. Neste momento, diz Vitalina, é preciso agir porque há uma "onda de suicídios de adolescentes LGBT porque enfrentam bullying nas escolas e os pais não os aceitam". Além disso, há novamente a questão da extrema-direita que nos "últimos dois ou três anos tem atacado a comunidade".

Questionada se a situação tem tendência para piorar, Vitalina Koval explica que há situações horríveis de violência contra mulheres, principalmente nas regiões onde há conflito com a Rússia. "Nas regiões atacadas pela Rússia, temos situações horríveis de violência e de violência sexual contra as mulheres. Também nas regiões que não estão em conflito, parece estar a piorar porque começámos a falar publicamente, começámos a falar de números e do que podemos fazer em relação a isto", relata.

O poder da voz

Numa altura em que os crimes de ódio estão a crescer na Ucrânia, é importante não ficar em silêncio, diz Vitalina Koval. Em 2017, os números oficiais citados pela Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, revelam que o número de crimes de ódio reportados às autoridades foram 163. Em 2014, tinham sido 33.

Em primeiro lugar, Koval lembra que é necessário que cada pessoa perceba os riscos que corre ao manifestar-se e a fazer valer os seus direitos. Depois disso, interiorizar que todos temos uma voz. "Às vezes, ficamos calados porque achamos que a nossa voz não tem poder para mudar ou influenciar grande coisa, é um grande erro. Cada voz de cada pessoa tem poder para influenciar coisas", nota.

Koval espera que a história dela seja inspiradora na luta pelos direitos humanos, como ela ficou inspirada pela luta de tantas outras mulheres. "Quando estive na conferência mundial de defensores dos direitos humanos deste ano, conheci várias mulheres corajosas e brilhantes do Paquistão, do Iraque e de outros países onde, às vezes, levantar a voz é igual a morrer. Fiquei impressionada por essas mulheres, deram-me muita inspiração porque são tão fortes, tão poderosas, não têm medo de falar mesmo quando os governos dizem para não falar", conclui.

Neste domingo, é esta a história que Vitalina Koval vai partilhar no Fórum da Coragem da Amnistia Internacional Portugal, em Lisboa. A ativista ucraniana espera que sirva de inspiração na luta pelos direitos humanos, especialmente das mulheres e da comunidade LGBT. Terminada a entrevista, volta a perguntar pela situação da extrema-direita em Portugal. A sair da sala diz que na Ucrânia, há uns anos, também "ninguém pensava que a extrema-direita ganhasse tanta força". Na despedida, Vitalina Koval sorri e remata: "boa sorte!".

  COMENTÁRIOS