Shower Power: nas ilhas gregas, oferecer casas de banho também é voluntariado

O ACNUR pediu ao governo grego, na semana passada, para tomar medidas urgentes que permitam melhorar as condições de cerca de 6 mil e 500 pessoas que estão no campo de "Moria". As casas de banho são uma das maiores preocupações.

O Centro de Acolhimento de Moria está sobrelotado e as condições sanitárias deixam muito a desejar. Para evitar que a situação se torne naquilo que o ACNUR descreve com "um barril de pólvora" o governo grego tem enviado muitos dos refugiados para outros centros de acolhimento, mas no terreno esse esforço mal se nota.

Ana Santana faz voluntariado para uma ONG chamada Shower Power. É a segunda vez que está na Ilha de Lesbos a trabalhar diretamente com as pessoas que estão no campo de Moria. A descrição que faz do local vai ao encontro dos receios do ACNUR: "de há seis meses para cá é notório que houve um aumento de tendas cá fora", diz a portuguesa. Como solução mais imediata, a agência da ONU pede a aceleração da transferência de refugiados para o continente de mais de quatro mil pessoas consideradas "vulneráveis".

Nos últimos meses 6500 pessoas foram levadas das ilhas gregas para centros de acolhimento no continente. Ana Santana admite que "houve um esforço até setembro para retirar o máximo de pessoas, mas a questão é que continuam a chegar pessoas todos os dias. Nos últimos meses têm chegado muitos barcos".

Um campo oficial e um outro ainda mais parecido com um bairro de lata

Há muito tempo que a situação é difícil. Ana Santana sublinha que Moria, na realidade, são dois campos: o oficial e o improvisado feitos com "restos de tendas, restos de lonas, ferros, ...". Mas tanto no exterior, como no campo oficial "não há espaço suficiente. As tendas e os abrigos estão uns em cima dos outros".

O ACNUR chama ao campo de Moria um "barril de pólvora" em termos de segurança. A voluntária portuguesa admite que a descrição não anda longe da verdade descrevendo um cenário onde há milhares de pessoas desocupadas, gente que até ali chegar "tinha uma vida ativa e que, de uma hora para a outra, não encontram nada para fazer".

Por ali vivem milhares de pessoas que "fugiram de um conflito de base religiosa ou étnica, mas que agora estão a partilhar o mesmo espaço". O resultado é que "facilmente começam confusões, ou lutas", diz.

Para além da sobrelotação, o que preocupa o ACNUR são as "condições abjetas" não só no campo de Moria, como num outro centro de acolhimento na Ilha de Samos, onde "muitas das casas de banho estão estragadas e o esgoto está a derramar perto das barracas".

Ana Santana usa apenas uma palavra para descrever as condições sanitárias do campo onde trabalha: "horríveis".

Shower Power: os voluntários que oferecem um quarto de banho e "um dia normal"

A voluntária socorre-se de números de um relatório não oficial para dizer que se estima que em Moria há uma sanita para cada 76 pessoas e um chuveiro para cada 84. "E no caso das mulheres a dificuldade é acrescida porque muitas vezes não podem utilizá-las sozinhas".

É precisamente nesta área que a Shower Power atua. A ONG oferece a quem vive em tendas não só uma casa de banho normal, mas também o conforto de uma casa.

"A ideia é tirá-las daquele ambiente e oferecer-lhes um dia "normal" em que são tratadas como se fossem convidadas na casa de alguém", diz. A Shower Power permite que as senhoras façam a sua "higiene básica e que tomem banho. Todas as nossas convidadas são mulheres portanto há cuidados extra com o cabelo e temos produtos para o cabelo, mas mais do que isso: sentamo-nos e falamos com as pessoas. É literalmente como recebemos os amigos em nossa casa. Temos uns sofás. As pessoas sentam-se connosco, falam do que quiserem. Pintam as unhas, ...".

Durante o tempo que as mulheres ali estão, o objetivo é que se esqueçam que estão há meses a viver num campo. A Shower Power é uma organização não-governamental holandesa. Ana Santana explica que é por razões religiosas e também de logística que só atendem mulheres e crianças de ambos os sexos.

A casa da Shower Power fica a 10 kms do campo de Moria. Três vezes por dia, os voluntários vão de carrinha buscar mulheres e crianças, trazem-nas até casa e depois de volta ao campo. Em média, conta Ana Santana são "pelo menos 24 pessoas, mas nos últimos dias temos recebido 35 pessoas diariamente".

Chega? "Não. Não é suficiente para quem vem, nem para aquele mundo de gente que poderia ter acesso".

Demasiada gente à procura da dignidade de uma casa de banho limpa. É isso mesmo, e alguma companhia, que os voluntários da Shower Power lhes oferecem.

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