Soldados à força. Número de crianças na guerra mais que duplica

A organização de Direitos Humanos Child Soldiers International analisou os relatórios anuais das Nações Unidas sobre as crianças-soldado. Entre 2012 e 2017, mais de 30 mil crianças foram recrutadas para a guerra.

Em cinco anos, o número de crianças-soldado no mundo aumentou 159%. "No relatório de 2013 (relativo a 2012), foram confirmados 3.159 casos. Nos dados de 2018 (sobre o ano anterior), o número sobe para mais de 8 mil. É importante perceber que provavelmente estes dados são apenas a ponta do iceberg." Chris Mattews, responsável de comunicação da Child Soldiers International , lembra que é praticamente impossível saber ao certo quantas crianças foram recrutadas para grupos armados.

A partir dos dados existentes, os relatórios conseguem mostrar os países em que a situação é mais preocupante. "A Somália tem o maior número de casos confirmados de crianças-soldado - são mais de duas mil. O grupo islâmico Al-Shabab é um dos maiores recrutadores de crianças. Eles vão às aldeias e obrigam as famílias a entregar os filhos. Também vemos números alarmantes na República Democrática do Congo, em que os números confirmados mais que duplicaram nos dois últimos relatórios, e no Sudão do Sul, onde as Nações Unidas dizem que desde 2013 mais de 19 mil crianças foram recrutadas para a guerra."

Chris admite que há casos de sucesso e refere libertações na Nigéria e na Síria no último ano e também no Sudão do Sul, "onde mais de 900 crianças foram libertadas em 2018 graças ao trabalho das Nações Unidas e da UNICEF", mas a verdade é que os números continuam a ser assustadores e parecem não parar de aumentar.

A Child Soldiers International chama atenção, por exemplo, para o número de raparigas envolvidas em conflitos. No relatório de 2018, foram identificadas 893; em 2017, eram 216. Em apenas um ano, aumentou quatro vezes."Normalmente é um assunto desvalorizado. Provavelmente porque as raparigas nos grupos armados não são usadas na linha da frente, em combate. São exploradas pelos raptores como criadas ou como escravas sexuais. Por isso, muitas são excluídas dos programas de reabilitação e ficam de fora dos relatórios".

Um assunto sobre o qual têm insistido. A Child Soldiers International é uma organização de Direitos Humanos criada em 1998, com sede no Reino Unido, que luta contra o uso de crianças na guerra. Em 2016, foram até à República Democrática do Congo ouvir raparigas que tinham feito parte de grupos armados. Juntaram mais de uma centena de testemunhos com o objetivo de perceber o que é que sentiam e do que é que precisavam para reconstruir a autoestima e recuperar o lugar que tinham na comunidade.

"Muitas destas raparigas depois de serem libertadas dos grupos armados foram rejeitadas e discriminadas porque tiveram relações sexuais com soldados. Aos olhos da comunidade, estão estragadas. Por isso, são postas de lado pelas famílias e pelos amigos e provavelmente não podem voltar a estudar", conta o ativista.

A partir das conclusões deste estudo, promoveram projetos junto das comunidades locais para ajudar na reabilitação destas crianças. "Lançámos um guia prático , construído para ajudar as pessoas destas aldeias a entender o que estas raparigas passam quando regressam a casa e a ajudá-las da melhor forma para garantir que não se repetem estas situações de estigma e discriminação. Também criámos sessões de partilha. Por exemplo, encontrar uma mulher numa aldeia que possa falar com a rapariga, ouvir o que ela tem para dizer sem qualquer julgamento. É mesmo criar espaço para falar sobre isto - para perceberem o que elas passaram e estão a passar neste regresso a casa e fortalecer estas comunidades." Graças a este projeto, 245 raparigas puderam voltar a estudar.

Chris Mattews lembra que não basta libertar estas crianças-soldado. Desde 2013, foram resgatadas cerca de 55 mil. Apenas 70% recebeu apoio. "Na República Centro-Africana, por exemplo, há muitos casos de quem deixou grupos armados e depois voltou a juntar-se a eles porque os conflitos no país são muito locais e as crianças voltam a ser envolvidas. Precisamos mesmo de aumentar os esforços internacionais e locais para garantir um apoio sustentável para elas. É fundamental que consigam reconstruir a vida e ter a oportunidade de voltar a estudar."

A oportunidade de voltarem a ser crianças, apenas.

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