100 anos Mandela

Trump é um anti-Mandela total

À margem da conferência Mandela em Lisboa, jornalista John Carlin comentou alguns temas da atualidade e comparou Mandela com atuais líderes.

O jornalista John Carlin, durante muitos anos colunista semanal no El País, antigo correspondente na África do Sul e autor do livro que deu origem ao filme "Invictus", não poupa nos adjetivos sobre o presidente norte-americano, quando falou com a TSF à margem da conferência Mandela, em Lisboa.

"Donald Trump é um anti-Mandela, em todos os aspetos. Considerando todas as caraterísticas que Trump tenha, vemos o contrário e é o que Mandela representa. E vemos que o espírito do mundo atualmente é de construir muros, em vez de construir pontes. Vemos isso com o Brexit, vemos isso aqui ao lado, em Espanha com a Catalunha, a Turquia, em todo o lado", realçou o jornalista, admitindo que "é difícil encontrar alguém que esteja sequer perto de Mandela no grande palco mundial".

Na opinião de John Carlin, Mandela deve ser recordado porque "deu o exemplo e iluminou o caminho para toda a gente onde quer que seja, e o reconfortante é que, ainda que agora estejamos a viver uma era estúpida, o que Mandela nos ensina é que se uma vez foi possível mudar, pode acontecer novamente".

Em entrevista à TSF, o escritor classificou de forma muito negativa a cimeira de Helsínquia, esta semana, entre Trump e Putin.

"O que vemos em larga medida em Putin e Trump é que são cínicos, narcisistas, não são movidos em primeira instância pelo bem comum mas sim por uma percepção geral de como alimentar os seus próprios egos, é a grande diferença entre Mandela e Trump. Putin não conheço assim tão bem. Mandela tinha uma visão clara no sentido de saber para onde queria ir: sabia quais eram os seus objetivos e os princípios para os atingir. Trump inventa coisas ao longo do caminho, como uma criança impulsiva de oito anos de idade. Muda de opinião e muda o que diz a cada cinco minutos. Não há visão estratégica, não há causa, não há missão. Não há objetivos com elevação, não há princípios. Trata-se apenas de alimentar o seu ego infantil", justificou John Carlin.

Para John Carlin, Mandela foi um visionário, o melhor "animal Politico" desde Abraham Lincoln, com um tremendo poder de persuasão aliado a uma grande capacidade de resistência. Mas admite que as avaliações sobre o líder sul-africano poderiam hoje ser diferentes se ele tivesse permanecido no poder mais que um mandato.

"Parece haver uma lei científica sobre o comportamento político humano que nos diz que se alguém ficar no poder mais do que um certo período de tempo, é como se um vírus penetrasse o sistema e as pessoas ficam apaixonadas pelo poder, pelo privilégio, pelo glamour, apaixonadas pelo dinheiro e apaixonadas por elas próprias, na medida em que acham que são indispensáveis. Portanto, é uma boa questão e Mandela é mais uma vez o exemplo. A sua sabedoria ao decidir sair ao fim de um mandato presidencial, após cinco anos: creio que o fez em primeiro lugar porque achou que ia estar velho e cansado; penso que o fez também porque queria dar o exemplo às gerações vindouras, não só na África do Sul como no mundo. Mas em terceiro lugar, porque estaria consciente, como tantas vezes o disse, que não era um santo. E talvez ele também fosse capaz de sucumbir às mesmas tentações que parecem contaminar toda a gente que fica no poder após um certo tempo", justificou ainda o jornalista.

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