7 anos de guerra na Síria

Um capacete branco e o sonho de voltar a sentir-se seguro em casa

Durante vários meses, Ammar Alselmo foi os olhos e os ouvidos da TSF em Alepo, enquanto liderava os capacetes brancos na cidade. Em 2016 fugiu para Idlib e é nesta província que continua a salvar vidas.

Ammar Alselmo estudava na Universidade de Alepo quando a Primavera Árabe começou na Tunísia. Acompanhou com expectativa a queda de Ben Ali, de Kadhafi e Mubarak, mas nunca pensou que o movimento chegasse ao país. Diz que conhecia bem a mão de ferro de Bashar al-Assad para ter grandes expectativas.

Este antigo estudante admite que, apesar de tudo, era inevitável fazer comparações, "o mesmo regime no mundo árabe e na Síria, o mesmo sistema, a mesma tirania, mas o regime foi mais esperto do que os dos outros países, porque começou a estabelecer uma organização terrorista e já se conhece o resto da história. Sete anos de matança e de agonia."

Mesmo cético, Ammar e os amigos começaram a participar nas manifestações e foram para as redes sociais divulgar o que se passava. Quando a repressão do regime avançou, Ammar podia ter pegado em armas, mas escolheu seguir outro caminho. "Cada bombardeamento provocava agonia, choro e feridos e por isso decidi fazer algo diferente. Senti que era a minha obrigação ajudar os feridos e os civis que estavam nessa situação. No início tinha uma equipa de 10 pessoas, depois já éramos 24 e começámos a correr para os locais dos ataques para ajudar as pessoas e levá-las para o hospital".

Ammar confessa que nunca pensou criar uma força civil da dimensão dos capacetes brancos. Recorda que no início não tinham qualquer meio. A primeira vez que acudiu a um bombardeamento encontrou uma mãe desesperada que lhe pediu para salvar o filho. Quando conseguiram retirar o rapaz dos escombros todos choraram porque a emoção foi avassaladora.

Quando o ataque final das tropas de Assad e da Rússia contra Alepo começou, em 2016, foi dos últimos a passar de autocarro pelo corredor humanitário. Ao lado dele seguiam a mulher e dois filhos. Tal como a maioria da população, fugiu para Idlib mas não conseguiu escapar da guerra.

Até há algumas semanas, a província foi alvo de violentos bombardeamentos e Ammar continuou a usar o capacete branco e a salvar vidas. A ofensiva só parou quando a atenção do regime se virou para Goutha oriental. Ammad confessa, envergonhado, que agradece esta pausa nos ataques.

Se a guerra voltar a Idlib, Ammar teme ter de fugir para fora do país, mas para já só sonha com o momento em que voltará a sentir-se seguro na casa onde cresceu.