Um mundo de segredos, hipocrisia e esquizofrenia. Abriu-se uma porta "No armário do Vaticano"

O livro que escandalizou o mundo é o culminar de quatro anos de trabalho. O jornalista e sociólogo francês Frédéric Martel trabalhou com uma equipa de mais de 80 investigadores que fizeram milhares de entrevistas. Portugal não ficou de fora.

Frédéric Martel revela neste livro, "No armário do Vaticano", a face oculta da igreja. Um sistema assente numa homossexualidade escondida e na mais radical homofobia.

Ao jornalista francês não interessava a vida privada dos membros da igreja, mas a hipocrisia dos que pregam uma moral rígida que depois não a respeitam no dia-a-dia.

Entrevistado pela TSF, o autor explicou essa dualidade: "É um livro sobre a diferença entre o que dizem e como agem em privado. É um livro sobre hipocrisia, sobre esquizofrenia e vidas duplas. Estas palavras - hipocrisia, esquizofrenia e vidas duplas - são as mesmas que o papa Francisco usa contra alguns cardeais que são muito agressivos contra ele e que são, segundo o papa, os rígidos com vidas escondidas. Muitos dos que se opõe a Francisco e que são extremamente homofóbicos são, eles próprios, homossexuais."

Frédéric Martel faz questão de deixar claro que este livro não tem por objetivo atacar a igreja apesar de revelar alguns dados chocantes. "O meu livro não é sobre escândalos. Não é sobre a vida louca, apesar de falar de prostituição e das festas a que chamamos 'chemsex parties'. Estas são festas onde se mistura sexo com drogas, e realizam-se dentro do Vaticano, dentro congregação para a doutrina da fé. Eles fizeram sexo e consumiram drogas no Palácio da inquisição. É espantoso, mas o meu livro não é sobre estes escândalos, mas sobre o dia-a-dia da maioria. Aquilo a que chamo a maioria silenciosa."

Frédéric Martel diz que todo este dia-a-dia é escondido. Todos estão no seu pequeno armário e, às vezes, há um que sai, um que se assume ou tem problemas com os abusos sexuais, e este pequeno armário desaparece. É destruído. De acordo com a investigação, mesmo que isso aconteça, o sistema continua a funcionar porque há muitos pequenos armários que são independentes, são pequenas unidades que nem se assumem umas perante as outras. Martel diz que é por isso é que não existe um lobby gay no Vaticano. Essa é uma ideia que foi inventada pela extrema-direita, por pessoas que acreditam que existe uma espécie de maçonaria que está dentro da igreja para a perverter.

O sociólogo e jornalista francês considera que era importante escrever um livro como este porque existe um efeito que a larga maioria de homossexuais provoca no sistema, na doutrina e na organização da igreja católica.

Frédéric Martel defende que a sociologia homossexual do catolicismo permite explicar o fim das vocações e a dificuldade que a igreja tem hoje em ordenar novos padres. É que, ao longo de décadas, muitos homossexuais procuraram refúgio na igreja católica, que se tornou um porto seguro: "Era regra para muitos milhares de homens, até em Portugal. Quando descobriam que podiam ser gays ou, pelo menos, quando não gostavam de raparigas e não queriam casar, muitos deles decidiam tornar-se padres. Era a fórmula normal, quase uma regra sociológica nos anos 40, 50 (do século passado). Ainda acontece, mas hoje há menos padres. Em França morrem por ano cerca de 800 padres e só são ordenados 60. Os padres são cada vez menos e porquê? Acho que os padres heterossexuais começaram a abandonar a igreja nos anos 70 e 80 (do século XX) porque não aceitam o celibato. Não querem ser castos porque isso é contranatura, mas ao mesmo tempo os homossexuais têm hoje outras opções. Portanto, se os hetero saem e os gays não entram, não há padres."

Há uma cultura de secretismo, milhares de armários, mas ao mesmo tempo uma grande tolerância. É quase como a antiga politica nas forças armadas dos Estados Unidos: "Não pergunte, não conte".

No Vaticano, se um homossexual se assume ou é descoberto publicamente fica em apuros, mas se permanecer no armário não há qualquer problema. Martel confessou à TSF que ficou surpreendido com o número de padres e bispos que sabem dos amantes uns dos outros, sem que exista qualquer problema.

Nos quatro anos em que investigou o Vaticano, o francês passou por Portugal para perceber o que se passou com o antigo bispo auxiliar do patriarca de Lisboa, que se esperava que sucedesse a Dom José Policarpo. Acusado de ter assediado sexualmente um sacerdote, o bispo Carlos Azevedo foi afastado para Roma.

"Eu conheci-o, encontrei-me com ele várias vezes em Roma e falámos do caso. Vim a Portugal e falei com diversos protagonistas da igreja, jornalistas, as pessoas envolvidas, dominicanos e jesuítas, para perceber o que aconteceu. Mais uma vez digo que não sou juiz, não vou julgar ninguém. Posso dizer que Azevedo é agora bispo em Roma e devia ter sido arcebispo de Lisboa e depois cardeal. Devia ter sido patriarca de Lisboa e não o foi porque algumas pessoas o atacaram de uma forma muito injusta, sem que houvesse um processo. Se ele tivesse sido condenado por um juiz, se tivesse sido julgado pelo Vaticano, o caso teria sido esclarecido, mas não foi. Puniu-se alguém mesmo sem que a justiça tivesse dito que fez algo de errado. Pode não ter passado de chantagem, de um rumor, mas ele foi marginalizado, foi como que exilado e penso que isso foi injusto. É por isso que acredito que Carlos Azevedo devia ser hoje o arcebispo de Lisboa."

No livro, Frédéric Martel argumenta que Carlos Azevedo foi abandonado por todos os que o deviam defender e que o escândalo não está na suposta homossexualidade do bispo, mas na chantagem de que foi alvo.

"No armário do Vaticano", os casos de abusos sexuais são abordados apenas por causa do encobrimento. Martel diz que não pode ser feita qualquer ligação entre o facto de um padre ser homossexual e os abusos de crianças. A homossexualidade não está ligada à pedofilia, a maioria dos pedófilos são heterossexuais. O sociólogo francês defende, no entanto, uma ligação entre o secretismo da homossexualidade e o facto de muitos padres terem escondido os abusos e protegido os abusadores: "Temos muitos gays que têm tanto medo de serem expostos publicamente que acabam por ceder às ameaças e chantagens."

A investigação para este livro passou por mais de 30 países, onde foram entrevistados padres, bispos, cardeais, seminaristas, jornalistas e embaixadores.

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