"Intervenção divina." Como Chávez escapou ao Golpe de Estado que durou dois dias

A Venezuela já conheceu cinco golpes de Estado. O último a ter sucesso foi em abril de 2002 e durou 47 horas.

A 11 de abril de 2002 a Venezuela foi palco de um golpe de Estado que durou 47 horas. Pedro Carmona Estanga, até então presidente da Federação das Câmaras de Comércio e Indústrias, principal associação empresarial do país, tomou posse como Presidente da Venezuela. Ao assumir o poder, Carmona afirmou ter recebido "um amplo mandato das mãos do povo venezuelano" e elogiou o "processo de profundas raízes democráticas". Ficaria conhecido como "Pedro, o breve".

Nas 28 horas em que foi presidente, Carmona mandou prender Hugo Chávez, revogou a Constituição e dezenas de leis aprovadas pelo anterior Governo e dissolveu os poderes públicos. Chávez seria libertado da prisão na ilha de La Orchila e retomaria o poder, graças ao apoio dos militares e de parte do povo. No mês seguinte, Carmona fugiu da prisão domiciliária, refugiando-se na embaixada colombiana.

Sem apoio da maioria da população, das Forças Armadas e da comunidade internacional, a ação fracassou e Hugo Chávez voltou ao Palácio de Miraflores. Chávez afirmou mais tarde que se salvou "por intervenção divina, pois estava quase morto às mãos da burguesia".

Revolução acelerada

Após a tentativa falhada, o regime bolivariano decidiu acelerar o ritmo das reformas. Avançou então com a campanha de alfabetização de proximidade, vários programas de saúde que tiveram a colaboração dos cubanos e iniciativas destinadas a dar trabalho aos desempregados de longa duração.

O chefe de Estado decidiu criar os círculos bolivarianos, fóruns comunitários em que os participantes trabalhavam para melhorar o bairro onde viviam. Eram grupos que, em caso de necessidade, estavam também disponíveis para proteger Chávez. Os cargos políticos passaram a ser ocupados pelos apoiantes, os processos judiciais sofreram influências políticas, os juízes foram intimidados, os órgãos de comunicação social independentes foram encerrados e os meios oficiais transmitiam durante horas os discursos do presidente.

Os bastidores do Golpe de 2002, no entorno de Chávez, encontram-se documentados no filme "A Revolução Não Será Televisionada", dos irlandeses Kim Bartley e Donnacha O Briain

Vazio de Poder

O golpe de 2002 esteve a cargo de alguns setores militares e empresariais, com algum apoio dos partidos da oposição, da comunicação social e da alta hierarquia da Igreja Católica.

Os militares desempenharam um papel fundamental na intentona. Um dia antes do golpe, o brigadeiro do exército general Néstor González González pediu, na televisão a renúncia de Chávez. "Não reconhecemos a autoridade de Hugo Chávez Frías", afirmou. No dia seguinte foi um dos que tiraram o então presidente do palácio de Miraflores. Hugo Chávez apelidou González de "traidor" e em dezembro daquele ano o general manifestou-se contra o presidente junto com outros soldados na Praça de Altamira, em Caracas, a mesma de onde esta terça-feira Guaidó se dirigiu aos Venezuelanos.

Mas na opinião de vários especialistas, o militar mais influente talvez fosse o general Lucas Rincón Romero, que era inspetor geral das Forças Armadas, que na madrugada de 12 de abril anunciou: "Convidámos o Presidente da República a apresentar a sua demissão, e ele aceitou", algo negado posteriormente por Chávez, mas para os revoltosos esta era a prova de houve um "vazio de poder" que tinha que ser preenchido.

Apesar das declarações, após o golpe Rincón foi ministro da Defesa e depois do Interior. Desde 2006 é embaixador da Venezuela em Portugal.

No final de 2002, o Supremo Tribunal de Justiça absolveu alguns dos soldados envolvidos nos acontecimentos e determinou nessa decisão que o que aconteceu em abril não foi um golpe, mas um vazio de poder. A decisão viria a ser declarada nula em 2005.

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