Morreu Fidel Castro (1926-2016)

Símbolo de uma era, el comandante tinha 90 anos. Foi um dos líderes mais controversos da história do séc. XX, sobreviveu a inúmeras tentativas de assassinato e a 9 lideres dos EUA, o "eterno inimigo".

A notícia da morte de Fidel Castro foi dada pelo irmão e presidente cubano Raúl Castro numa comunicação na televisão cubana. "O comandante-chefe da Revolução cubana morreu às 22h29 desta noite" (3h29, hora de Portugal), anunciou Raúl.

Os restos mortais do líder histórico da Revolução Cubana serão cremados, cumprindo-se assim "os seus desejos manifestados", segundo disse Raul Castro, emocionado.

Os principais momentos da vida de Fidel Castro pela jornalista Margarida Serra

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As últimas imagens de Fidel Castro são de 15 de novembro, quando recebeu na sua residência o presidente vietnamita, Tran Dai Quang, mas a última vez que foi visto num ato público foi a 13 de agosto, por ocasião do seu 90º aniversário, no teatro Karl Marx, em Havana.

O Presidente da República português, Marcelo Rebelo de Sousa, encontrou-se há precisamente um mês com o líder histórico cubano Fidel Castro, em Havana, onde afirmou que o líder da revolução cubana assinala "um certo tempo".

A vida d'el Comandante

Fidel Alejandro Castro Ruz nasce em Biran a 13 de Agosto de 1926. Filho ilegitimo de um emigrante galego com posse, é educado em colégios jesuítas e num ambiente de bem estar que contrasta com a pobreza do povo cubano.

Desde cedo Fidel revela talento para os estudos e desporto. Entra para o curso de direito na universidade em 1945, no auge da contestação estudantil contra o ditador Fulgêncio Batista. E é nessa altura que se começa a envolver na política, integrando o Partido Ortodoxo.

Em 1947, cada vez mais obcecado pela justiça social, viaja até à República Dominicana para ajudar a derrubar o ditador Rafael Truillo, mas a tentativa de golpe falha, mesmo antes de começar. Isso, no entanto, não arrefece os ânimos revolucionários de Fidel.

Em 53 a revolução cubana arranca com o ataque ao quartel Moncada. Fidel conta que o plano era provocar a queda do regime mas no caso de falhar seria apanhar as armas e fugir para as montanhas.

O ataque falha mesmo e Fidel é preso e condenado a 15 anos de prisão. Perante o juiz, afirma que a história o absolverá.

Uma amnistia dois anos depois devolve-lhe a liberdade e Castro parte para o México onde conhece Che Guevara e, juntos, definem uma estratégia para derrubar Batista e regressarem a Cuba.

Um ano depois o regresso concretiza-se e Fidel refugia-se na serra Maestra acompanhado por mais de 80 homens. Nos dois anos seguintes desenvolvem uma guerrilha contra o regime. Che conquista Fidel.

Nesta altura já Fidel Castro é conhecido em todo o mundo e dá entrevistas em inglês em plena serra.

A guerrilha é bem-sucedida e em 1959 Fidel entra triunfante em Havana - tinha 32 anos. Mal chega ao poder viaja para os Estados Unidos para estimular os laços económicos com o país vizinho. Mas rapidamente as coisas mudam: Fidel põe em marcha as ideias da revolução: o comércio e a industria são nacionalizados, expropria as grandes companhias norte americanas e avança com a reforma agrária, proibindo a propriedade privada a estrangeiros. Tudo com o apoio da União Soviética.

A revolução radicalizou-se com purgas entre os militares e o encerramento de órgãos de comunicação social críticos de Fidel.

Rapidamente a relação com os Estados Unidos azeda. Em 1961 são cortados os laços diplomáticos entre os dois países e imposto o embargo. A 16 de abril do mesmo ano Fidel Castro declara Cuba um estado socialista.

Tentando inverter esta situação, e com o apoio dos Estados Unidos, 1400 exilados cubanos tentam invadir a Baia dos Porcos numa tentativa de derrubar o regime. Fidel triunfa e diz que a revolução será sempre defendida com armas. Castro consegue capitalizar este incidente, reforçando o poder: acaba com as eleições democráticas e denuncia aquilo a que chama de imperialismo americano.

Em 62, e respondendo à intenção de Moscovo de colocar mísseis em Cuba, os americanos impõem um bloqueio marítimo à ilha. John Keneddy promete não ceder.

O mundo nunca esteve tão perto de uma guerra nuclear, mas russos e cubanos acabaram por recuar.

Nos anos 70 e 80 a economia torna-se a principal batalha de Cuba. Milhares de pessoas saem do país tentando escapar à pobreza. E tudo piora com a queda a União soviética. Fidel diz mesmo que este é o período mais difícil da revolução, considerando que os cubanos estão sozinhos frente aos americanos.

Nessa altura são muitas as vozes que se levantam pedindo o fim do bloqueio: entre elas a de João Paulo II que visita a ilha em 1998. Perante o Papa, Fidel diz que lhe oferece um país exemplar sem desigualdades. As vozes como as do Papa não demovem no entanto os Estados Unidos que mantém as restrições. Fidel Castro lembra que o embargo atinge uma nação inteira e diz que estaria disposto a negociar a própria vida para acabar com o bloqueio, mas nunca o socialismo.

O fim do "império" soviético agravou os problemas de Cuba, que deixou de ter apoios financeiros, petróleo a preços baratos e mercado para escoar automaticamente a produção de açúcar e outros bens.

O desemprego e a inflação dispararam. Castro adota, então, um mercado económico semi-livre, incentiva os investimentos e o turismo. E foi nesses momentos difíceis que a TSF acompanhou, em 93, as eleições na ilha. Depois de votar, e quando o comandante falava aos jornalistas, Fernando Alves conseguia falar com Fidel. Horas mais tarde era a vez de André Martin conversar com o líder cubano. Fidel mostrava conhecer a história de Portugal.

Ao longo dos anos o regime cubano tem sofrido numerosas criticas pela supressão das liberdades individuais, violação dos direitos humanos, detenções arbitrárias e autoritarismo mas também se lhe reconhecem virtudes.

Durante a governação de Castro foram abertas 10 mil novas escolas e a literacia subiu para os 98%. O sistema de saúde é reconhecido internacionalmente e a mortalidade infantil caiu para 1%.

No final da década de 90 começaram a surgir rumores sobre o estado de saúde de Fidel e em 2006 é submetido a uma cirurgia gastrointestinal. Fidel nomeia, então, o irmão Raul como líder interino do país. A 19 de fevereiro de 2008, com 81 anos, Fidel Castro abdica definitivamente da presidência do país por razões de saúde.

Desde então passam a ser escassas as aparições de Fidel em publico. Habituámo-nos a vê-lo de fato de treino em encontros com intelectuais ou lideres estrangeiros. Fidel manteve-se no entanto sempre atento ao correr do mundo. Em 2010, e em plena crise entre o ocidente e o Irão, Fidel diz acreditar que não se corria o risco de uma guerra mundial porque confia no homem que tem o poder para a desencadear, ou seja Barak Obama. Diz Fidel que ele não se pode comparar aos outros presidentes: não é um cínico como Nixon, ignorante como Reagan, louco como Bush ou hipócrita conformado como Bush pai.

Já em 2012, apresenta durante seis horas "Guerrilheiro do Tempo", dois volumes de memórias desde a infância até 1958, alegando que tem de aproveitar o momento porque a memória se gasta. Ao contrário do que pensava aos 30 anos, aos 85 Fidel confessa que não espera que a história o absolva.

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